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,Vestindo o cotidiano: O design de objeto na roupa artesanal

Atualizado: Jan 4

Por Ana Paula Mendonça Alves.

Revisão: Aline Machado


Introdução


Ao abordar a roupa artesanal no contexto do design de objeto, compreendemos que ambos contam com a participação da comunidade em seu entorno para um desenvolvimento sustentável, cada um com suas particularidades. Podemos considerar que os designers propõem alternativas para um consumo sustentável da moda, englobando seus usuários ao longo do processo de forma informativa ou participativa para entender a importância do vestuário na história do design.


Para entendermos a posição do design nesse contexto, Forty (2007) explica que em uma sociedade capitalista, o objetivo da produção de artefatos é dar lucro ao fabricante, independente da imaginação artística do designer, tornando os produtos vendáveis e atrativos. Sobre o projeto e sobre a produção, seja ela de arte, arquitetura ou design, contém neles a própria relação sujeito-objeto, de acordo com Costa (2010). Essa declaração está relacionada também em projetos de moda, uma vez que o corpo é o suporte do objeto e fica inviável não pensar no próprio sujeito para o desenvolvimento e uso do objeto.


Podemos considerar que objetos que são projetados em vários processos diferentes em razão de um desenvolvimento comum fazem parte do metadesign que, segundo Vassão (2010), seriam projetos que podem operar a transposição de princípios de projeto de um contexto a outro, e que possam superar as diferenças entre casos específicos em função de uma operação genérica que se aplique em muitos casos diferentes. Para o processo de desenvolvimento de uma obra vestível é necessário primeiramente apresentar elementos que compõe a prática. O vestuário se conecta com informações externas e pode ser utilizado como meio de comunicação com seu ambiente, inserindo ou excluindo o usuário do local que está. Esse cenário social está interligado com o sujeito e o objeto, como um rizoma que liga várias informações aparentemente desconexas para representar o todo, lembrando que o vestuário no corpo do sujeito é apenas um dos pontos finais do projeto de design. Durante o projeto de desenvolvimento do objeto, o designer pode elaborar uma peça de roupa para algum tipo de sujeito ou ocasião, mas o destino dessa peça pode ser outro, de acordo com a escolha do usuário.


Nesses casos também está inserido no contexto o artesanato, que Borges (2011) define como produtos artesanais que são confeccionados totalmente à mão, com uso de ferramentas ou por meios mecânicos, e suas características podem ser utilitárias, estéticas, artísticas, criativas, de caráter cultural, e simbólicas e significativas do ponto de vista social. Sendo a prática do artesanato profissional ou não, ela pode se encarregar de criar uma identidade cultural para uma região ou aprimorar técnicas necessárias para o desenvolvimento de um artefato. Combinando condições técnicas e potencializando o trabalho dos artesãos como profissionais, o design e o artesanato podem constituir um grupo que favoreça ambos os campos.


Segundo Manzini (2008), o termo “inovação social” refere-se a mudanças no modo como indivíduos ou comunidades agem para resolver seus problemas ou criar novas oportunidades. As novas atitudes transformam o status do artesanato e da moda. Dessa forma, ações combinadas entre artesãos e designers podem resultar em peças originais e sustentáveis.


Relacionando os conceitos acima citados, observaremos como o processo colaborativo pode resultar em um desenvolvimento de design de produtos, no caso do vestuário, envolvendo o projeto de design de material que constitui o projeto de roupas construídas em parcerias entre designers e artesãos, contribuindo para o desenvolvimento local em que se insere.


A roupa e o artesanato


Para exemplificar o trabalho envolvendo o design de objeto enquanto vestuário e a participação do artesão nesse processo de criação junto aos designers brasileiros, serão apresentadas três marcas que contribuem para fomentar essa prática.


A primeira é a H-AL. O artista Alexandre Linhares trabalha há 10 anos junto de sua sócia Thifany F. com obras de arte vestíveis, figurinos de teatro e sua marca de roupas desenvolvida de forma autoral e sustentável. Para ele, essa relação entre arte têxtil e moda foi um ponto de partida para um trabalho que segue rendendo frutos. O ateliê da dupla funciona basicamente com doações de tecidos e aviamentos de clientes e de outras confecções da cidade, e a partir daí os tecidos são selecionados, separados e reconstruídos. As sobras de tecidos e de linhas que não são aptas para o desenvolvimento da coleção são transformadas em enchimentos de almofadas e vendidas na loja a preços simbólicos. Para a coleção das peças, que são únicas na tiragem de produção e nos tamanhos, a dupla desenvolve modelagens amplas e acabamentos minuciosos, sendo vendido no próprio ateliê, em galerias de arte e no museu Oscar Niemeyer, localizado na mesma cidade. A marca conta também com parcerias de grifes e artesãos que se identificam com o conceito da H-AL. No projeto de arte têxtil, os painéis de tecido criados durante a mostra servem de tecido estampado para as peças vendidas no ateliê.


Visita ao ateliê da H-al em Curitiba PR realizada em Setembro/2018.

Fotos da própria autora.


À esquerda a fachada da loja com uma das peças da marca: camiseta com tiras de tecido formando a escrita costurada na máquina. Ao centro um trabalho de flores em tecido. À direita colete feito com ressignificação de tecido exposto no interior da loja.


Desenvolvendo objetos vestíveis e com um trabalho autoral sob a premissa do slow fashion, o ateliê de Alexandre Linhares e Thifany F. também contribui para cadeia produtiva da cidade. A H-AL pode se enquadrar no conceito de design social, uma vez que ressignifica o resíduo têxtil da cidade, impedindo que restos de confecções virem lixo.


O segundo exemplo é o da arquiteta e designer Mayumi Ito frente à marca Amaria, que desenvolve moda autoral em parceria com artesãs da cidade de Muzambinho, Minas Gerais. Nesse caso, além da reorganização do tecido para desenvolver suas coleções, a marca trabalha com fiação e tecelagem de tecidos naturais e tingimentos com elementos encontrados na região. As artesãs juntamente com a designer também recebem restos industriais das fábricas próximas, principalmente sedas, para ressignificar o tecido. Além de peças de roupas, também são vendidos meadas de fio, cobertores e echarpes em seu site na internet e em lojas multimarcas em São Paulo.


Peças Amaria vendidas na loja Tororó, em São Paulo. Imagens retiradas da página do Facebook da marca. Disponível em https://www.facebook.com/amaria.muzambinho/ Acesso em 03/12/2018


O terceiro exemplo é o da designer Zana Maria, conhecida pelo seu trabalho de ressignficação do material têxtil através da construção de roupas e acessórios em fuxico, nome dado para o artesanato em tecido feito com círculos franzidos que tem a finalidade de decorar e, no caso de Zana Maria, construir peças unindo os círculos uns aos outros. A artesã aprendeu a técnica com sua mãe e espalhou o conhecimento para outras artesãs, formando uma rede colaborativa que emprega mulheres do interior de Minas Gerais.


Suas peças, compostas por fuxicos produzidos em técnicas diferentes e tamanhos diferentes, dão vida aos mais variados objetos vestíveis ou acessórios, como sapatos, bijuterias e bolsas. Todas as peças são acompanhadas de uma tag escrita à mão, com a quantidade de fuxicos que foram necessários para a construção, bem como a quantidade de horas de trabalho necessárias, o que explica seu valor de venda.

Exposição do trabalho de Zana Maria na Casa Yankatu (esq. e centro) e no Centro Universitário Senac - SP (dir.). Fotos da Autora


Os designers são parte integrante de um processo de comercialização de peças que está fora do eixo de grandes produções, ao mesmo tempo não é uma roupa feita à mão sob medida para ocasiões especiais, sendo vendidas para pessoas de qualquer idade e por qualquer tamanho e usadas no cotidiano de seus usuários. Tratamos aqui em alguns momentos de chamá-las de roupas artesanais por conta do tratamento e desenvolvimento do material utilizado em seu processo de criação e produção. No caso da H-AL, o artesanato e a interação social estão presentes na coleta e construção do material que constitui suas peças, na Amaria o artesanato está presente diretamente nas parcerias com as mulheres da região, assim como os fuxicos de Zana Maria.


É possível perceber a contribuição social no trabalho dos três designers com as comunidades que os cercam, que complementam e impactam o desenvolvimento profissional tanto do designer quanto do artesão que o apoia. Ainda assim, Borges (2011) ressalta a importância da troca entre artesãos e designers em busca de um objeto autoral, com ressalvas para a postura superior que um designer pode ter com o artesão, a questão da autoria do trabalho conjunto e os tipos de vínculos (empregatício ou parceria) que podem ocorrer em cada projeto, com o cuidado de gestão desse trabalho independente da forma aplicada. Nos três exemplos citados, os designers buscam mostrar a origem do trabalho artesanal de suas marcas sem o aparente protagonismo que costumamos ver em alguns casos na moda brasileira.


Considerações finais


Para exemplificar e refletir sobre o tema, além de exploração bibliográfica sobre design de objeto, design e sustentabilidade e artesanato, foi feita uma análise comparativa de três marcas que conciliam arte, design de moda e sustentabilidade com foco no aproveitamento de resíduos têxteis e inclusão da comunidade em seu desenvolvimento, seja direta ou indiretamente.


A partir das considerações representadas pelos autores sobre design de objeto, inovação social, sustentabilidade, metadesign e artesanato, os exemplos atuais encontrados no país e a saída apresentada pelos designers que nesse momento atuam pelo viés da moda podem considerar que a busca pela interação do design de objeto com o artesanato encontrou seu caminho quando reuniu a prática social e sustentável em seu cotidiano, difundindo esse apelo aos usuários de forma participativa ou informativa, aceitando e recompondo novos materiais e deixando claro através das divulgações de seus trabalhos a origem da roupa que está comprando, atribuindo assim o hábito de projetar e reprojetar formas de design colaborativo e autônomo em busca de novas formas de consumo. Não cabe aqui concluir se as marcas analisadas agem de forma correta ou se todos os tipos de produções de vestuário têm condições de projetar objetos da mesma maneira, mas abrir reflexões sobre como podem ter alternativas para uma produção sustentável e inovadora mesmo que seja de pequenas proporções.


Referências

Amaria. Disponível em http://www.amaria.com.br/ Acesso em 03/12/2018

BORGES, Adélia. Design+Artesanato: o caminho brasileiro. São Paulo: Terceiro Nome, 2011

CARDOSO, Rafael. Design para um mundo complexo. UBU. São Paulo 2016.

Coleção resgata a complexidade no processo criativo da moda. Disponível em: http://finissimo.com.br/2017/10/03/colecao-resgata-a-complexidade-no-processo-criativo-da-moda/ Acesso em 27/11/2018

COSTA, Carlos Zibel. Além das formas: introdução ao pensamento contemporâneo no design, nas artes e na arquitetura. São Paulo: Annablume, 2010

FORTY, Adrian. Objetos de desejo: design e sociedade desde 1750. Trad. Pedro Maia Soares. São Paulo: Cosac Naify, 2007

MANZINI, Ezio. Design para inovação social e sustentabilidade: comunidades criativas, organizações colaborativas e novas redes projetuais; Coord. Trad. Carla Cipolla. Rio de Janeiro: E-papers, 2008

MULLER, Florence. Arte & Moda. Trad: Vera Silvia de Albuquerque Maranhão. São Paulo: Cosac Naify, 2000

H-AL moda autoral. Disponível em https://www.h-al.com/ Acesso em 27/11/2018

H-AL: a marca curitibana que mistura moda e arte. Disponível em: https://www.lilianpacce.com.br/moda/h-al-a-marca-curitibana-que-mistura-moda-e-arte/ Acesso em 27/11/2018

QUELUZ, Marilda Lopes Pinheiro (org.). Design &Cultura. Curitiba: Editora UTFPR, 2012

VASSÃO, Caio Adorno. Metadesign: ferramentas, estratégias e ética para a complexidade. São Paulo: Blucher, 2010

YANKATU. Disponível em https://www.yankatu.com.br/ Acesso em 17/12/2020


Agradecemos pela leitura do nosso artigo.


,Sobre a autora:


Mestre em Design pela Universidade Anhembi Morumbi. Especialista em Docência no Ensino Superior e graduada em Design de Moda – Habilitação em Modelagem pelo Centro Universitário SENAC – SP. Docente do curso de graduação em Design de Moda no Centro Universitário SENAC – SP. Atua no mercado como modelista, com ateliê próprio, onde desenvolve roupas sob medida.


E-mail: anapaula.mendonca@gmail.com

Instagram: @handmadeanap








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