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,A transmutação visual do teatro-livro: A cantora careca de Ionesco e Massin

Atualizado: Out 29

Por Guilherme Paes.


O presente texto analisa a obra de origem do ano de 1964 na França, onde o designer gráfico e artista visual Robert Massin (1925) elaborou uma experiência visual através da combinação entre o teatro e o livro. A cantora careca (1950) de Eugene Ionesco (1909-1994) foi a peça escolhida por Massin, presente no teatro do absurdo (característico da época) os elementos narrativos usados por Ionesco possuem um grande potencial significativo por não trabalharem de forma linear, mas sim a causar indagações e sobreposições ao entendimento do próprio espetáculo. O contato com a obra se deu através do livro lançado pelo designer brasileiro Gustavo Piqueira no ano de 2018, que faz parte de uma coleção de outros livros chamados “Gráfica particular” no qual ele fez um resgate de um importante projeto gráfico realizado pelo designer francês Robert Massin (1925). O designer francês através de muitas observações sobre o espetáculo transportou uma série de elementos teatrais para o campo gráfico. Numa apresentação resumida, pode-se considerar que Massin fez em sua leitura gráfica da obra equiparando a palavra impressa aos atores, ambos parte de um único código de comunicação.


Alternando as escalas de personagens, variando fontes tipográficas e se utilizando de diferentes graus de preenchimento da página para, com isso, transmitir no papel o andamento e dinamismo semelhantes aos que, da plateia, assistimos desenrolar-se no palco. A utilização de uma variação tipográfica para dar ênfase na entonação das falas dos personagens, a sobreposições de texto para se caracterizar o direcionamento das falas, as imagens dos atores que foram fotografados pelo designer em suas posições originais na peça e a composição feita priorizando a supressão do fundo, são todas leituras e transmutações presentes em uma comunicação direta entre o campo do teatro e o livro, dando origem a um teatro-livro.


O termo transmutação que aqui é tratado transita no entendimento de dispersões, variações e alternâncias com um recorte para o contexto da visualidade que contempla elementos visuais (cor, tipografia, diagramação), conceitos, abordagens e significados entre os dois meios de propagação de mensagens aqui observados, o teatro e o livro. Este termo tem como fundamento a compreensão de que os códigos visuais não são fixos mas sim cambiantes permitindo uma abertura para a discussão de como os eles transitam em diversos processos. (...) “nem as coisas nelas mesmas, nem os usuários individuais podem fixar os significados na linguagem. As coisas não significam: nós construímos sentido, usando sistemas representacionais – conceitos e signos. ” (HALL, 2016).


(...) abrir o leque do olhar para beber de fontes normalmente descartadas de pensar nossa reflexão. Dito em outras palavras, pensar antes em inclusão que em exclusão repertorial. De signo em signo, o design enche o papo. (MELO, 2005, p.61)


Esse tipo de abordagem é muito característico no campo dos estudos visuais onde é possível perceber um tratamento mais amplo sobre o estudo das imagens, na observação das mudanças de paradigmas oferecendo uma perspectiva extensa e transversal em suas analises, relacionando de forma mais próxima um conjunto interdisciplinar que essas representações possuem.


No design gráfico estes preceitos são bem presentes e amplamente utilizados, talvez não especificamente como Massin se utilizou de transportar especificamente uma produção de um campo para outro, mas o uso da dispersão e recombinação dos códigos visuais é uma característica pós-moderna no design que se apropria de fotografias, textos, colagens e ilustrações para compor seus projetos. Apropriando-se de diversos meios para se constituir uma produção que é reflexo de uma transmutação da visualidade.


A noção de apropriação, quando relacionada à criação, denota que o novo nada mais é que a proposição de novas formas de leitura para signos já existentes, e define o fazer criativo como exercício de tradução de signos, articulação de linguagens e de construção de procedimentos produtivos. (MOURA.org, 2009. P.37).


Massin definitivamente não criou os preceitos utilizados por ele em seu livro, como da tipografia expressiva, os elementos gráficos como parte integrante do conteúdo da página e o uso da linguagem gráfica como narrativa, mas o seu sistema visual proposto que recombina os meios de expressão e comunicação que a princípio seriam distintos, é uma reorganização ímpar.


Um amalgama entre dois campos distintos, limitações técnicas atreladas a inventividade e, principalmente, a imagem ao texto na obra. Cada personagem tem seu próprio rosto – o rosto do ator que o interpreta – e sua própria voz – o desenho da fonte tipográfica que imprime as suas falas. Massin expande as fronteiras com as quais nos habituamos a reduzir e, embaralhando papeis, misturando recursos de linguagens diversas – foto, tipografia e o design da página; cinema e quadrinhos se propõem uma perspectiva diferente do design.


Estes preceitos de mistura se tornam visíveis já na capa do livro, onde o “corpo do livro” (sua estrutura) se funde aos dos atores, nesta mescla a frente do livro é a frente dos atores e a quarta capa suas costas, esse tipo de materialidade propõem o diálogo que esses dois campos agora se unem em um objeto único.

Capa do livro (1964)


No miolo do livro o projeto se desenvolve de forma mais abrangente, é possível notar a presença das vozes dos atores quanto ao uso de uma diagramação única para cada personagem em suas falas, o uso de tipografias especificas, a própria imagem do rosto como ponto de posicionamento e o esquema de roteiro para se elencar o texto.

Página de diálogos mais longos


Em algumas páginas a abordagem e o desenvolvimento gráfico amplificam, com o uso do posicionamento de cena usado pelos atores na peça, a mistura tipográfica e a não linearidade e racionalização do uso dos tipos para se compor as falas, a tipografia aqui ganha um princípio narrativo a sua aplicação.


Explorações de diagramação


O uso da tipografia como propagação das entonações e narrativas é manifestado em páginas especificas onde se faz uso somente desse componente para se narrar, as sobreposições e diagramações complexas exprimem o teor dos ritmos exibidos no espetáculo.


Tipografia como expressão


Composições entre tipografia e fotografia


A cantora careca é um projeto que abre portas para se pensar o design de uma perspectiva que une o ato de se projetar como em suas composições e decisões finais. É um convite a estar aplicado e reflexivo as linguagens e a cultura que nos cercam, procurando perceber que os elementos e os códigos visuais não estão desconectados, mas sim que eles ainda não foram conectados.


REFERÊNCIAS

CARDOSO. Rafael. Design para um mundo complexo. Ubu. São Paulo. 2016.

FERLAUTO, Claudio. A fôrma e a forma. Rosari. São Paulo, 2004.

HALL, Stuart. Cultura e Representação. Editora PUC-RIO. Rio de Janeiro, 2016.

LUPTON, Ellen e PHILLIPS, Jennifer Cole. Novos fundamentos do design. São Paulo: Cosac Naify, 2008.

MELO, Chico Homem de. Signofobia. Rosari. São Paulo 2005.

MOURA, Monica (org). Coleção TextosDesign. Faces do design. Rosari. São Paulo 2003.

PIQUEIRA, Gustavo. A cantora careca de Massin. Lote 42. São Paulo, 2018.


Ao leitor, obrigado por ler o nosso ensaio.

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