• ,Deus Ateu

,Tão Importante Quanto O Real! - Entrevista Com Miguel Arcanjo Prado.

Atualizado: Jul 27

Por Marcio Tito.


De modos tão distintos quanto diversos, pessoas contam histórias. E gostam de contar essas histórias.


De modos tão distintos quanto diversos, alguns se dedicam a contar as histórias desses que contam histórias maravilhosas para plateias maravilhadas.


São críticos, jornalistas e, sobretudo, “sociólogos e administradores” das coisas subjetivas da cultura e da arte de um país.


Pessoas "congelam" a vida por algumas horas, querem ouvir as histórias que saem da boca dos artistas.


Outros se dedicam a parar o tempo e nos dizer como é que aquelas histórias e aqueles artistas conviveram com toda gente que precisou estar presente para ver Teatro, para ser simplesmente plateia.


Para os jornalistas e os críticos que estão sempre dentro e fora da “coisa da cultura”, assistindo e se vendo assistir, a cultura é um desassossego constante, cheia de combates e disputas internas e externas.


Muitas vezes, falta luz. A sombra da realidade dos artistas, que queriam contar melhor as suas histórias, se adensa quando o poder público falta, as empresas se tornam outras curadorias e a vaidade pessoal e coletiva sobra.


O jornalista cultural e o crítico de arte em um único corpo, discute o real e o ideal, debate sobre o além e o aquém dessas relações.


Assim, insiste contra os fatos um sonho de esperança, dever e responsabilidade, sobretudo, que se conecta ao passado e ao futuro.


O presente é apenas a primeira camada a disputar os olhos de quem vê com a responsabilidade de precisar enxergar.


Está elaborado o melhor quadro para apresentar o meu amigo Miguel Arcanjo Prado.


Poderia fazer elogios diretos, mas revelar qual é a sua verdadeira determinação histórica na sociedade, por si, fará com que o leitor procure na mente os comentários que julgar mais adequados ao dramaturgo, jornalista e crítico que há anos torna o artista de teatro também um agente social constante, laureado e definidor de cultura e comportamentos.


Abaixo, como é costume do Arcanjo, iremos direto àquilo que nos une enquanto classe.


Imagem cedida pelo entrevistado


MT - Miguel, se antes o impresso olhava para o formato do blog como uma dimensão virtual dependente do mundo real, talvez porque muitas vezes esses espaços digitais apenas virtualizavam os conteúdos impressos, hoje, nesta hora em que as atividades culturais e artísticas estão refugiadas no espaço on-line, os jornais estão para os blogs como um dia os blogs estiveram para os jornais?

MAP - Talvez até mais distante que isso [risos]. E não digo isso porque desgoste do impresso, muito pelo contrário, amo e nele comecei minha carreira com uma crônica publicada em 2003 no semanário O Pasquim 21, uma tentativa dos irmãos Ziraldo e Zélio Alves Pinto de retomar o sucesso do Pasquim célebre dos anos 1970; fiz a revista Contigo e os jornais Folha e Agora. Mas vamos aos fatos: desde que comecei, 17 anos atrás, a internet já era o meio para se falar com a nova geração, que foi aumentando a cada dia. Tanto que desde meus tempos de estudante na Fafich (Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas) na UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), onde fiz metade do curso de Geografia e o curso inteiro de Comunicação Social, eu já tinha blog, fazia a coluna social do campus, dava notinhas políticas e crônicas que eram muito lidas na UFMG e até internacionalmente (ainda hoje tenho leitores desse tempo, inclusive a Melissa Aguiar, minha leitora número 1, que mora em Roma). Com o tempo, essa geração da internet foi crescendo, ficando adulta, tomando espaços de poder e, cada vez mais, a internet foi ganhando importância e valorização em todas as esferas. O impresso, com aquela arrogância que sempre teve, deixou o bonde digital passar e ficou arraigado a antigos leitores cada vez mais velhos, não conseguindo transferir o prazer da leitura às novas gerações, tampouco se comunicando com elas E quando tentou fazer, foi de uma forma malfeita, muitas vezes substituindo jornalistas talentosos (e mais caros) por jornalistas meia-boca, gente sem referência e leitura que não consegue produzir material jornalístico de qualidade. Ou seja, o impresso muitas vezes hoje é pior do que a internet em termos de qualidade e acabou perdendo até mesmo os antigos leitores mais exigentes. Percebendo que os bons jornalistas foram expulsos da mídia tradicional e abriram seus próprios espaços, o público resolveu acompanha-los (afinal, nunca soube de jornal ou revista que escrevesse por si só, sem gente talentosa).


Essa minha relação com o digital é natural e nunca passou pelo crivo do preconceito. Comecei a cobrir teatro digitalmente em 2005, no site da TV Globo Minas, onde era estagiário, e pedi ao Paulo Valladares, então meu chefe lá, para entrevistar as estrelas da Globo que apareciam no MGTV para falar da temporada de suas peças em Belo Horizonte. As entrevistas que elas me davam na internet eram mais profundas que as que concediam nos poucos minutos possíveis no telejornal. Então, os amantes do teatro curtiam mais a entrevista do site do que na TV, porque percebiam que era feita com interesse, com toda a calma do mundo. Até hoje faço minhas grandes entrevistas assim, de verdade. Depois, fiz o mesmo no site da revista Contigo, que foi meu primeiro emprego em São Paulo, em 2007, e onde Denise Gianoglio me deu liberdade para escrever sobre teatro na revista e também no site, e também na Folha Online, em 2008, quando o então editor da Ilustrada Sergio Ripardo também foi muito generoso comigo. Daí não parei mais. Tive sorte de ter chefes que me deram liberdade. O blog no formato que tenho hoje surgiu no R7, o portal da Record onde estive por sete anos, em 2012, por apoio do Antônio Guerreiro, hoje vice-presidente de Jornalismo da Record, depois ele foi para o UOL por iniciativa do então editor-chefe de Entretenimento Diego Assis, hoje chefe do Omelete, mas todos eles sempre me deram total independência para escrever sobre e como eu quisesse. Então, voltando à sua pergunta, a internet que fiz e faço nunca foi uma cópia de impresso nenhum. Sempre foi um espaço de liberdade para a criação de pautas originais. Até porque nunca fui do feitio de jornalista que costuma copiar coleguinha, o que vivem fazendo comigo, infelizmente, mas aí não posso fazer nada. Aprendi a buscar meu estilo. Minha amiga e grande jornalista Josie Jeronimo, uma das maiores que o jornalismo teve na minha geração, me ensinou em uma aula de História da MPB na UFMG: “Miguel, me promete que nunca será peão de redação”. Graças a Deus nem eu nem ela fomos. Aprendi lá atrás com o Paulo Valladares na Globo e o Marcílio Lana, meu chefe na TV UFMG a quem chamo de “meu pai no jornalismo”, que o jornalista que se preze apura suas próprias notícias com suas próprias fontes, porque jornalista que só cópia coleguinha ou texto mandado por assessor não ganha respeito de ninguém.


MT - Suspeito que o "Teatro na Live" possa nascer doente do cinema que o antecede historicamente, assim como a Live parece atada ao Teatro não representativo, visto que poucas Lives Cênicas propõem um teatro de personagens, quase sempre preferindo uma persona que age cenicamente perante a câmera. Miguel, a Live é refúgio ou formato? É solução ou é euforia que aparece para apenas investigar a impossibilidade do Teatro nesta hora?


MAP - Olha, tenho visto de tudo, mas até o momento, a maior parte está mais para um refúgio do que para um formato, salvo raras exceções, como o Ivam Cabral que foi o primeiro pós-pandemia do corona vírus no Brasil a seguir fazendo a temporada do seu espetáculo Todos os Sonhos do Mundo, um monólogo bem simples e profundamente tocante, no formato live. Vejo muita gente que está fazendo análise, ou propondo coisas muito duras e sem poesia. Acho que o momento pede sensibilidade. E um pouco de criação artística, né? Afinal, de artistas de teatro, a gente espera um pouco mais do que qualquer um consegue fazer em uma live. Acho que quem for pelo caminho da criação artística em um novo formato, com poesia e esperança para este momento, vai se destacar naturalmente.


MT - Quando o mundo se redesenhar para reformar as formas de convívio, será interessante a Live Cênica permanecer como opção ou, em um mundo mais convidativo ao encontro presencial, a live acabaria sendo apenas um “anti-gozo” para as artes que, naturalmente, ganham em beleza quando agregam a sociedade em seus espaços culturais?


MAP - Nunca fui contra as possibilidades de comunicação que a internet traz. Muito pelo contrário, sou um entusiasta, afinal, fiz grande parte da minha carreira e ganhei reconhecimento na internet. Bobos são os artistas que brigam com o futuro e o tempo, que é sempre implacável. Como diz o Belchior, “o novo sempre vem”. Então, acho que tudo isso servirá para que grande parte dos artistas do teatro e de outras linguagens se amiguem de vez com o avanço comunicativo tecnológico e o utilize não como rival de uma possível arte presencial, mas como uma ferramenta comunicacional que a torne ainda mais potente. E, convenhamos, o mundo virtual já era tão importante quanto o real muito antes de surgir o corona vírus. Só não percebeu isso quem vivia dentro de uma bolha de auto isolamento antes de ser obrigatório.


MT - Tangenciando um pouco do seu Miguel jornalista, me conta, como é que a sua cabeça de autor está funcionando agora? Confesso que sinto que o meu Teatro precisará se reinventar profundamente para dar conta da demanda digital que agora se impõe ao modelo clássico da dramaturgia. Você tem algo em mente? Assim, enquanto você saía do banho ou tomava um café, surgiu alguma daquelas "ideias de cena" que nos perseguem ao longo do dia? Conta para a gente aquela sinopse que os dramaturgos quase sempre elaboram em segredo!


MAP - Olha, o tal do “dramaturgo” só surge quando ele quer e sem aviso prévio. Mas intuo que seja o tipo de autor que primeiro necessite viver, transitar o real, para só muito depois conseguir decodificá-lo em uma obra artística. Foi assim com minha primeira peça, Entrevista com Phedra. Não que não saiba lidar com a ficção, muito pelo contrário, mas, para mim, ela só surge após o “muito vivido”. Acho que aprendi isso com o Jorge Amado. Então, eu me concentro em viver. Quando chegar a hora e ela quiser, a arte virá. Eu não sou do tipo que fica elucubrando muito. Quando chega, apenas deixo a intuição seguir seu curso.


MT - Fiquei muito feliz por você ter topado esse papo. O site se propõe a pensar o mundo segundo uma perspectiva inventiva e atual, e você foi um dos jornalistas que melhor inventou para a mídia digital uma forma de fazer os nossos tão interessantes artistas "alternativos" um pouco mais populares, coisa que naturalmente não seria, por conta de suas pesquisas menos tradicionais ou de seus teatros com lugares restritos ou em locais "undergrounds". Um dia você me disse gostar de dar as suas Rapidinhas Teatrais porque sabia que elas "deixam feliz a mãe da moça lá no Mato Grosso, preocupada com a menina e o menino terem vindo aqui fazer Teatro em São Paulo só com gente maluca" rs. Essa frase define muito bem o seu gosto pelo popular, que parece resistir ao intelectual pedante que podemos nos tornar quando esquecemos que Arte se faz com gente generosa e interativa.

Vamos fechar com você nos contando assim: desde quando você definiu a sua estética como jornalista, a arte, a cultura, a internet e o jornalismo se transformaram de forma extraordinária, e agora que você sabe o que os veículos e os artistas esperam do Miguel Arcanjo, o mundo veio e mudou todas as perguntas.


MAP - Eu só sei que nada sei [risos]. Eu e o mundo! Olha, eu vivi muitas coisas desde muito pequenino, do luxo ao lixo. Minha mãe e minha avó me ensinaram a entrar do mesmo jeito no palácio e no barraco. Então, nunca fui deslumbrado nem com fama nem com pedantismo intelectual. Não que não tenha todas as credenciais necessárias para o joguinho cult-acadêmico, muito pelo contrário, sou bacharel em Comunicação Social pela UFMG, especialista em Mídia, Informação e Cultura pela USP e mestre em Artes pela Unesp com uma dissertação que estudou dois dos maiores grupos do teatro nacional, o Oficina e o Satyros, em um momento muito delicado do país, as Jornadas de Junho de 2013, fazendo análise do discurso midiático sobre eles neste período. Tenho a consciência de que sou privilegiado, trago no currículo três das maiores universidades públicas do país, além de ter trabalhado nos principais veículos da grande mídia. Contudo, justamente por isso, por sempre ter como obrigação jornalística me comunicar com o maior número de pessoas possível, nunca quis ser arrogante, nem minha pauta. Faço a crítica que pode ser lida tanto pelo diretor da peça quanto pela avó do ator. E ambos vão entender. É claro que os chatos de plantão torceram o nariz durante muito tempo para esse meu estilo, mas ele não foi inventado, ele reflete o que eu sou e como eu encaro a vida. Realmente, no meu dia a dia profissional, eu trato o Antônio Fagundes do mesmo jeito que o Eduardo Chagas, o Rodolfo García Vázquez do mesmo modo que Charles Möeller, o Newton Moreno com a mesma deferência que o Marcio Tito. Minha mãe me deu uma boa educação, me ensinou que gente é gente. Então, não sou do tipo que se impressiona com fama ou conta bancária, até porque o coronavírus veio para mostrar isso mesmo: gente é gente. Creio que foi por praticar um jornalismo e uma crítica teatral assim, não só para o mesmo grupinho eleito de sempre, foi que eu ganhei o respeito de tanta gente e, de repente, vi o Theatro Municipal lotado aplaudir de pé o primeiro Prêmio Arcanjo de Cultura, em 2019, certamente, quando me vi ali, naquele palco, com aquelas pessoas me aplaudindo com toda a verdade e respeito do mundo, os maiores nomes da cultura brasileira, vi que a maioria curte e respeita o trabalho que eu faço com todo o meu coração. Porque jornalismo e crítica burocrática sem alma não é definitivamente a minha praia.


MT - Miguel Arcanjo Prado, como é que a gente segue dando alguma alegria para essa "gente maluca" e para essas mães aflitas ao redor do país?


MAP - As mães sofrem, coitadas, porque elas sempre têm razão. Sobretudo quando falam para a gente fazer concurso público. No meio dessa pandemia, toda incerteza econômica, de mercado e de sobrevivência para muitos, eu fico pensando nisso. Mas diante da vida que temos, acho que poder trocar, falar algo agradável, espalhar uma ideia interessante, abrir um espaço para o artista refletir e outros terem contato com essa reflexão, como vocês estão fazendo agora comigo aqui, já é de uma ajuda imensa, ora bolas. Tanto para os artistas quanto para acalmar os corações de suas mães aflitas pelos quatro cantos do país.


MT - Quem sempre tem razão, além da mãe, é o popular, o acessível. Tudo o que preserva a vida, a cultura e também tudo o que torna mais simples e direto o nosso modo de convívio! Miguel... espero que tenhamos conquistado aqui um rápido flash do que vem sendo esse vendaval! Muito obrigado pelo papo solto...


MAP - Antes de terminar, preciso aqui agradecer ao Marcio Tito pelo convite e a toda equipe do Deus Ateu, um espaço que chega como importante aliado no jornalismo cultural e já se tornou oásis para o pensamento inteligente. Longa vida a esta bela iniciativa!


Imagem cedida pelo entrevistado


Ao leitor, obrigado por ler a nossa entrevista.


Blog do Arcanjo: https://www.blogdoarcanjo.com/

Instagram: https://www.instagram.com/miguel.arcanjo/




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