• ,Deus Ateu

,Efeito Contágio: Suicídio e Sociedade

Atualizado: Out 29

Por Flávia Andrade.

Imagem de acervo digital de domínio publico


O suicídio é um fenômeno multifatorial e reconhecido como questão de saúde pública no mundo inteiro. A Organização Mundial da Saúde (OMS) desde os anos 1960 preocupa-se em estudar e divulgar manuais e materiais diversos a respeito do estudo do assunto e da prevenção. Somam-se estudiosos de diversas áreas do conhecimento focados em analisar esse fenômeno que, não raramente, causa dor e perplexidade naqueles que ficam.


É muito comum, em nossos dias, que o suicídio seja automaticamente relacionado às áreas da saúde, especialmente as da saúde mental, o que nos mostra a tendência cada vez mais contundente em tratar a questão com ações em saúde mental. Sem dúvida, tais ações são essenciais, mas é importante enfatizar que o suicídio não é apenas um tema da saúde mental: o suicídio é um fenômeno complexo dos modos de vida. Suicídio é uma forma de morte, uma morte deliberada pelo próprio agente e o que muitas vezes nos provoca inquietação são as possíveis motivações para querer deixar a existência.


Aqui temos um importante aspecto que traduz a complexidade do tema: apesar de ainda ser extremamente comum que se busquem “porquês” o suicídio é, justamente, algo multideterminado. Não há forma de estabelecer uma teoria universal do suicídio. Ele é considerado como um fenômeno multifatorial, que pode ser o resultado de uma complexa interação de fatores: psicológicos, sociais, culturais etc. Entende-se atualmente a importância de se levar em conta a associação de transtornos mentais subjacentes, mas essa discussão precisa ser ampliada. Não há como investigar a causa de um determinado suicídio porque muitas vezes nem a própria pessoa que decide morrer saberia nomear o que sente.

O Suicídio não é generalizável. Não por acaso o filósofo francês Michel Foucault disse que a pergunta mais infértil que se pode fazer após o Suicídio de alguém é "por que?" Nunca saberemos, justamente pelo fato de ser impossível estabelecer uma causa única. Por outro lado, é claro que não podemos recortar ou descolar os suicídios dos contextos nos quais eles ocorrem. Pode haver neles a denúncia ou a comunicação de algo. Nisso Durkheim (com seu Suicídio – estudo de sociologia) segue absolutamente atual: é preciso questionar a respeito das condições sociais e políticas nas quais os suicídios ocorrem. É preciso analisar esse fenômeno em toda sua complexidade, ou seja, com um olhar dirigido de diversos aspectos (sociológicos, psicológicos, políticos, filosóficos etc.). Isto porque mesmo quando os suicídios estão atrelados à presença de transtornos mentais, é preciso questionar em quais contextos sociais as pessoas estão adoecendo psiquicamente.


Um dado relevante a esse respeito é a predominância dos suicídios em jovens e idosos. Basta olhar esses dados mais detidamente para perceber que há algo de sintomático. É necessário a reflexão, portanto, acerca de como são tratados esses indivíduos, jovens e idosos.


Outro dado relevante é que entre os jovens a maior predominância de suicídios é entre negros e LGBT. A comunicação que essa constatação estabelece é praticamente gritante: há algo de desigual, injusto e indigno ocorrendo com essas populações. E esses atravessamentos precisam ser considerados na prevenção e na intervenção.


Recentemente tivemos uma perda inestimável. O ator Flávio Migliaccio decidiu deixar a vida. E além da dor da perda, houve a perplexidade. Mas não apenas pelo fato em si, como pela divulgação de fotos de sua carta de despedida. Há quem defenda a publicação de tal carta, por considerá-la uma comunicação e uma espécie de chamada pública à reflexão sobre o momento histórico/político que vivemos. Neste ponto, corroboramos aqui a necessidade do excesso de zelo, do qual fala a prerrogativa da OMS para a notificação dessas ocorrências na imprensa. A OMS preconiza que os meios de comunicação sigam algumas precauções, tais como:


a cobertura sensacionalista de um suicídio deve ser assiduamente evitada, particularmente quando uma celebridade está envolvida;


a cobertura deve ser minimizada até onde seja possível;

qualquer problema de saúde mental que a celebridade pudesse apresentar deve ser trazido à tona;

todos os esforços devem ser feitos para evitar exageros;

deve-se evitar fotografias do falecido, da cena do suicídio e do método utilizado;


o suicídio não deve ser mostrado como inexplicável ou de uma maneira simplista;

o reconhecimento de que uma variedade de fatores contribui para o suicídio pode ser útil;

as reportagens devem levar em consideração o impacto do suicídio nos familiares da vítima, e nos sobreviventes, em termos de estigma e sofrimento familiar;

a glorificação de vítimas de suicídio como mártires e objetos de adoração pública pode sugerir às pessoas suscetíveis que a sociedade honra o comportamento suicida. Ao contrário, a ênfase deve ser dada ao luto pela pessoa falecida.


Além dessas precauções constam outras e a OMS recomenda ainda que exista nas matérias as informações sobre fontes de ajuda disponíveis para pessoas em sofrimento/ideias de suicídio, como por exemplo: listas de serviços de saúde mental disponíveis e telefones e endereços de contato onde se possa obter ajuda.


Todos esses cuidados existem porque há pesquisas sérias e recentes que constatam o chamado efeito-contágio. Infelizmente pode haver quem decida pôr fim a própria vida quando se depara com algum “exemplo” a ser seguido. Não se trata de achismo, opinião ou moralismo. Aqui, ressaltamos, a cobertura de parte da mídia sobre o suicídio de Migliaccio desconsidera a OMS em muitos aspectos. E se o propósito fosse (como alguns argumentam) suscitar reflexão tais matérias teriam contemplado tais reflexões, somadas às sugestões de busca de ajuda a quem preciso fosse. Mas, infelizmente, não foi isso que ocorreu em boa parte das matérias da mídia sobre a morte do ator que apenas divulgaram a carta e a ocorrência do fato.


É importante e necessário problematizar contextos de vida que podem fazer querer morrer, afinal de contas o querer deixar a vida nos obriga a pensar em qual vida, ou quais condições de vida as pessoas estão vivendo. O suicídio por sua complexidade implica mais em estabelecimento de perguntas adequadas, do que de respostas rápidas. Mas precisamos nos responsabilizar pela crítica e ter respeito com possíveis envolvidos, com as pessoas que nos leem, ouvem e especialmente os enlutados, que ficam, sofrem e procuram um porque que pode trazer um sofrimento irreparável. É preciso mais do que nunca desmistificar a teoria ou a especulação: refletir sobre contextos de vida é necessário; atribuir motivo para suicídios além de ser terreno infértil, como aponta Foucault, pode fortalecer o estigma de que há “culpados”. O Suicídio invariavelmente traz muito sofrimento e isso é imprescindível de ser lembrado.


Finalizamos com as devidas condolências aos familiares de Flávio Migliaccio e com a recomendação de buscar ajuda, caso julgue necessário.


O telefone do CVV é gratuito em todo o território nacional – CVV 188

Ao leitor, obrigado por ler o nosso ensaio.

,Sobre a autora:


Flávia Andrade é psicóloga clínica e hospitalar, especialista em Psicologia da Saúde, Psico-oncologia e Prevenção do Suicídio. Mestre em Filosofia e pesquisadora dos temas do suicídio e da subjetividade pelas perspectivas da psicanálise e de Michel Foucault. Docente, supervisora clínica, palestrante e administradora da página Psicologia e Prevenção do Suicídio.

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