• ,Deus Ateu

,Sentimento visto – 5 dores pintadas por Junior Santos

Por Marcio Tito.

Vazio


O artista Junior Santos parece saber que luzes e sombras disputam a narrativa do desejo e a narrativa da falta que nos completa enquanto gente. De modo similar, mas absolutamente diverso, estamos todos disputando conosco a posse de nossas próprias vidas. Assim, entre as alteridades da alma e entre os atravessamentos do mundo exterior, disputamos conosco o nosso lugar na realidade.


Coisas inomináveis cercam a nossa apreciação do real - Eis o desafio desse artista: Visualizar e fazer ver as coisas cujo nome nunca atinge por completo a complexidade do sentimento sentido, do sentimento que se sente.


A palavra ansiedade é sempre mais pobre que o sentimento ansioso, por exemplo. Antes mesmo de vermos e pensarmos a vida, sentimos o que vivemos, e é por essa fissura que a organização simbólica dos artistas invade a nossa experiência.


Os sentimentos estão na pré-história da palavra que se diz ou não se diz. Assim, enquanto significante de nós mesmos, sentindo o que somos sem nem bem sabermos quem somos. Vivemos condenados à prisão de aceitarmos como parte sumária de nós aquilo que não poderíamos expor em verbo, pois afinal, a palavra dita ou não dita é coisa nossa e que partilhamos com o outro, sob pressão ou livremente, enquanto a nossa intimidade com a angústia, essa sim, é coisa nossa e que partilhamos apenas conosco, através do espírito, da carne e do pensamento. E o pensamento, consciente ou não, é quem agrupa finalmente essas duas circunstâncias do ser - Ser e não ser diante da questão sobre si.


Ser é sentir. Sentir é sentido. E o sentido é impossível.


Quando subjugados pelos sentimentos mais desconfortáveis, esquecemos que somos feitos da mesma matéria que os nossos iguais.


Tanto por isso, talvez a arte que se faz por meio do traço explícito de Junior escape ao significado, e extraia para a superfície da experiência o significante de que a ventura de nossas aflições pode e deve estar lograda em um particípio coletivo, dito, mostrado, explícito e resolvido enquanto aposta material - Tudo isso dentro de um projeto de sublimação estética.

Procrastinação


Somos todos iguais, porque individuais dentro da mesma espécie que reúne as nossas dissonâncias. Ou seja, esse tipo de tela não mostra o caminho pictórico do sentimento, mas faz sentir seu efeito espiritual diante daquilo que sentimos e não somos capazes de transparecer por meio dos códigos verbais.


Junior, mais do que saber, sente e intui com traços que, tudo isso, se visto sem mediações rococós e por meio de aplicações nítidas e diretas, fará resolver um pouco - ao menos na produção simbólica de si e do outro - algumas das partes inconfessáveis da solidão que nos cerca quando estamos em sofrimento (e sempre estamos em sofrimento, pois espírito e o corpo, a palavra e o silêncio, o desejo e a falta, ao que me parece, nunca produziram um acordo definitivo e nunca estabeleceram uma paz eternamente livre de contradições e forças em desvario).


Aquilo que todos sentimos, mas que na hora da angústia temos dificuldade em saber que o outro sente também, e na mesma medida, muitas vezes, no contexto das telas do projeto PSICOSSÓMÁTICO - é a principal vertente a confirmar não apenas a técnica que expressa o profundo desses sentimentos, mas também o autor e sua vocação social, certamente detida entre atos de partilha, revelação e troca simbólica, subjetiva.


Para sermos iguais, é urgente sabermos revelar nós mesmos no outro. E Junior, artista de expressão urgente, não pinta simulações, produz sim, com poucas concessões a valores extra-criativos, confissões estéticas – são espelhos capazes de refletir a um só tempo duas faces, ainda que diante de um rosto apenas.


Muitas vezes sentimos quase que da mesma forma os outros as nossas mais profundas fissuras da alma, embora toda dor seja singular e toda alma - em última análise, particular.

Todo o desconforto, ainda que guardado naquilo que não podemos ou não sabemos dizer, é explícito demais. Portanto quando fiquei perto das obras de Junior Santos, me perguntei de imediato o que é que alguém sente quando um artista que até então não nos conhece, e que também não conhecíamos, faz acontecer em forma de quadro o espírito do sofrimento que nós mesmos não havíamos relatado nem mesmo às paredes.


Muitos artistas e pensadores afirmam que Shakespeare haveria de ter debatido consigo a possibilidade do suicídio, uma vez que Hamlet versa de modo legítimo e franco acerca dessa ideia, sobretudo, valendo-se de argumentos que “não poderiam” surgir “apenas” da elaboração racional.


Shakespeare não legou qualquer documento capaz de confirmar as nossas suspeitas.

Junior Santos, intuo e defino, sentindo ou não cada uma dessas telas, como teria feito ou não feito Shakespeare na hora da escritura de sua tragédia, tendo ou não cada um desses laudos científicos em mãos, estará confirmando nesse prospecto de imagens, o seu lugar de honra entre os mais importantes artistas jovens desse começo de século nas artes visuais do Brasil (sobretudo no contexto daqueles que usam as redes sociais como galeria necessária para a distribuição do trabalho criativo).


Junior Santos está ambientado assim, pela escolha do motivo, e pela pertinência do repertório e pela sobriedade da forma, ao lado de artistas singulares e marcadamente expressivos como Rodrigo Yudi Honda, Layse Almada e Ju Angelino (essa última responsável pela extraordinária obra “Favela Estrelada”).

Ansiedade


Abaixo algumas perguntas dedicadas a flagrar todo o não dito, se é que calado, da produção do jovem artista Junior Santos:


MT - Junior, uma provocação: O que você rejeitou na hora de realizar essas pinturas? Do que o seu trabalho foge? Isso porque acho que as obras se fazem muito nas nossas recusas. Uma obra sempre tem muitas decisões. Tamanho, cor, ritmo, motivo.


Junior – Muito obrigado. Valeu mesmo! Vou te responder... Quando eu pensei em criar o projeto PSSICOSOMÁTICO, bom, na verdade ele surgiu de um modo muito mais espontâneo. Eu sentei e pensei “vou pintar sentimentos, emoções, doenças psicossomáticas”. Eu estava em um momento ruim. Estava passando por crises, ansiedade e depressão. Sofri disso muito tempo e encontrei na arte uma fuga. Pensei que a minha forma de lidar com isso seria colocando no papel. Isso me deu um estalo e pensei que disso poderia vir algo maior. Nasceu como uma fuga. A minha maior negação? A primeira coisa que passou na minha cabeça foi o conflito com a técnica. Eu queria algo solto, momentâneo, que surgisse ali na hora, sem pensar muito. Sem seguir traço, sombra, forma, de algum jeito técnico. Eu não queria pensar muito, queria mais é sentir. Algo mais sentimental do que racional.


O meu primeiro conflito foi este: não pensar muito, para que a técnica não abafasse a expressão. Eu acho que quando há muita técnica, de forma exacerbada, a arte fica fria, mais técnica, menos expressiva. Mas claro, também fiquei com medo da recepção do público quando eu compartilhasse o projeto. Já vi pessoa dizendo “quem é você para falar desse assunto, para tratar disso, você não sabe o que cada pessoa sente dentro de si”. Então eu não queria isso... Como posso dizer? Deixei a arte falar por si. Se uma pessoa que sofre de depressão ou ansiedade olhasse para o trabalho eu queria que ela pensasse “caramba, é realmente dessa forma que me sinto, o pintor não está sozinho nessa”.


MT – Perfeito. Li algo teu que dizia que, no seu ponto de vista, que me parece até técnico, ao enxergarmos os nossos problemas, aquela dimensão vai se aproximando de um sentimento mais saudável... Sobre o reconhecimento.


Junior – Recentemente, na internet mesmo, eu falava sobre o que significava determinada arte do meu projeto, e no meio de vários comentários, uma psicanalista respondeu me oferecendo tratamento. Ela pensou assim “se ele passa com tanta veemência o problema que ele sofre, por meio da arte...”


Ela me ofereceu um tratamento online, que faz parte de um programa social. Terapias, à distância, por conta da pandemia. Então, acho que, explicitar o problema ajuda a gente a se expressar melhor. Colocar pra fora pensamentos que nos afetam. Então quando o ser humano consegue compreender os problemas, ele consegue expressar e assim buscar outros resultados. Pra resumir: quando a gente percebe essas fissuras e vácuos no nosso interior requerem autoconhecimento, uma busca interna. Requer a gente olhar no espelho e reconhecer as falhas, e se essas “falhas” são problemas psicossomáticos, são doenças que afetam a qualidade de vida. Acho necessário a gente conseguir identificar isso através de picos, comportamentos e sensações.


Eu, como artista, tive a sensibilidade de passar isso em tela. Explicitei cada grito que eu sentia internamente. Dei som ao grito. Como eu fiz isso? Criando meus demônios através das telas. Pegando cada um deles e dando um visual. Por isso eu digo que você tira seu demônio do escuro e coloca ele na luz, a batalha fica de igual para igual. É necessário se olhar no espelho!


MT – Entendo que o artista é um produtor de símbolos, um tradutor do invisível. E quando a gente produz esses símbolos e os distribui, agora, na instância digital e na velocidade do online, perdemos o controle disso. Quem vai ao museu quer ver arte, mas, na internet, esse público é convulso e surge de modo menos mediado. Nesse contexto surgiu algum comentário que trouxe um outro ângulo para o trabalho? Você, diante de algum comentário estranho, quis rever ou confirmar o que estava sendo realizado?


Junior – É uma coisa muito nova. Por muito tempo quem teve aproximação com o meu trabalho foram os meus familiares e amigos. Pessoas estranhas eram só as pessoas da minha cidade, ou pessoas que eu sabia que consumiam arte, mesmo que eu não tivesse intimidade. De uns 4 anos pra cá, quando comecei na internet, veio um impacto pelo senso de novidade. Pessoas de até outros países! Então foi tudo uma confirmação de que estou em um caminho certo. Comentários e críticas sempre foram positivos. Agora, no psicossomático, boa parte trouxe comentários de identificação. Sobre eu ter dado forma àquilo que sentem. É maravilhoso. Para completar... Acho que o “melhor” feedback que eu recebi foi o de uma norte-americana que tatuou uma tela do psicossomático. É incrível. Você percebe o poder que tem nas mãos. Qualquer meio artístico. O artista tem o poder de tocar pessoas, mudar pensamentos. É preciso saber dosar muito bem isso, sabe?

Cadeados mentais


MT – Conforme a expressão da sua obra toma uma dimensão pública, as pessoas passam a querer um artista de estimação, que sempre produza aqueles mesmos símbolos que as representam da forma que gostam. Um vício simbólico. Grandes artistas e autores, sempre falam que as pessoas cobram personagens passados... Você renega? Você se comunica como com esse desejo? Dentro disso... como pintar duas vezes o mesmo sintoma sendo o mesmo artista? Variando a técnica, alterando o símbolo? Tenho a impressão de que suas imagens são um pouco definitivas, porque são depoimentos também, inscritos no seu modo de ser e sentir...


Junior – Sobre o público, fico preocupado. Já vi muito artista limitado por isso, sendo conduzido pelo público, pelos números. O artista percebe que só tem alcance quando faz determinada coisa, e isso pode acabar engessando o artista. Eu sou um pouco contra, mas acho que o artista precisa ser fiel ao público. Um escritor, por exemplo, cria uma personagem e o público fica sempre pedindo aquela personagem - eu acho válido que o artista crie histórias que o público pede, mas também acho que o público precisa ver as outras produções do artista. Assim como eu sou aberto para ouvir o público, eu gostaria que o público fosse aberto as novas propostas do artista.


Bom, seres humanos mudam, então sentimentos mudam. Se eu tentar pintar a tela “Ansiedade”, não vou conseguir igual, com a mesma técnica e mesmo traço. Já vi grandes artistas reproduzindo suas telas e elas nunca tiveram a mesma essência. O que manda no artista é a essência, algo quase mítico. Dalí e Magritte reproduziram vários de seus quadros, eles sempre vêm com algo novo, a obra sempre vem com algo novo. Então acho difícil reproduzir com fidelidade. A minha crise de ansiedade nunca vai ser a mesma de ontem. O momento é diferente. Na verdade, eu não tentaria reproduzir uma obra. Acho que o inédito é inédito. É único. Aquilo é algo que eu não mexeria.


MT – Perfeito! Sua fala é muito consistente. Você tem muita referência, acaba tendo muita consciência da produção, do resultado e da apreciação. Você sabe como a sua obra interage. Parabéns! É raro esse tipo de lugar na fala de um artista tão jovem. Junior, em algum momento você ficou ansioso ou preocupado em trabalhar essa temática? O sentimento anda assistido demais por algumas áreas, então a angústia já não é algo que se possa trabalhar simbolicamente e livre de responsabilidade. O seu trabalho tem muita legitimidade em elaborar coisas muito caras aos sujeitos, e coisas que áreas da saúde têm assistido bem de perto. Você buscou referências ou foi tudo associativo, simbólico, livremente?


Junior – Ótima pergunta! Olha, eu fiquei um pouco preocupado com a recepção. Na hora de fazer, minha referência foi bastante ligada a uma amiga psicóloga. Conversei com ela e disse que estava estudando o tema, fora da parte sensorial, o sentimental. Nada mais verdadeiro do que pintar a ansiedade na hora da ansiedade. Uma coisa é forçar algo, fica difícil representar bem sem conhecer aquilo. Passando pelo problema você transmite aquilo com uma essência mais forte. Quando eu quis começar o projeto pensei que não bastava ter o sentimento. Eu quis entender todos os lados.


O sentimento, a parte “acadêmica”. Fui ler, ver filmes, psicanálise... Laranja Mecânica. Então essa amiga me ajudou pra caramba. Ela está para se formar na área, na cidade de Bebedouro, cidade perto da minha. Ela disse “depressão é assim”, “ansiedade é assim”, “dopamina” ... Então, sim, tive referências externas. Uma estudante que me deu bastante aval. Foi sentimento, expressão, uma parte acadêmica, mesmo sem ser especialista. Não sou especialista. Eu sou um artista. Consigo dizer pela arte. O movimento do expressionismo alemão, no cinema, que teve muita relevância na década de 20, foi uma referência também.

Bipolar


MT - Acho que você foi muito claro e conciso nas suas respostas. Muito preciso e precioso o seu argumento. É prazeroso ver que você tem presença diante da obra. A obra é posta em seu lugar e com ela você debate de um lugar muito especial. Parabéns, mesmo! Quero deixar uma intuição final... Você tem a obrigação de seguir pintando, é um lugar encontrado e bem resolvido. Mas... para onde é que você vai?


Junior – Obrigado! É uma rara oportunidade de falar do meu trabalho, sobre arte... que o Deus Ateu coloque a arte desse povão no mundo... Agora, pra onde eu vou? Pra onde irei... O que é a vida? rs

Tem uma frase, acho que do Picasso, que diz que ele não sabe o que quer da arte, mas sabe o que não quer. Eu vou adaptar: Não sei como ir, mas sei aonde quero chegar. Não sei seguir esse caminho, mas sei aonde quero chegar. Eu quero ir ao coração das pessoas, para a minha arte falar com elas. Pretendo, de forma mais clara, conseguir galerias e expor. Levar pessoas para que vejam as obras. Mas quero atingir corações. [Com] o meu trabalho trazer algo de positivo. Acho que eu posso dizer que ficaria satisfeito. Pra isso, preciso chegar mais longe. Crescer.


MT – Obrigado você! Pela coragem de se expor como criativo. Revelando o que está entre você e a obra. O seu vigor é legítimo. A sua fala é poética sim, mas a poesia é uma das coisas mais concretas. Eu sempre digo que o quarto estado da matéria é o verso! A poesia é quase nunca alucinatória, quase sempre um modo de ver mais nítido. Nelson Rodrigues dizia que os profetas enxergam o óbvio, e sua sobras são óbvias, mas eu não as tinha pensado antes de vê-las. Você é desses profetas!


Agradecemos por ler a nossa entrevista.


,Sobre o artista:


Junior Santos, tem vinte e quatro anos, é artista plástico, ilustrador e quadrinista profissional. Autodidata, nunca se formou em nenhuma das áreas em que atua profissionalmente, com exceção do cinema. É formado em atuação e arte cinematográfica pela “Verzini Escola de interpretação e cinema”.


Começou a sua carreira profissional aos 19 anos trabalhando como ilustrador e artista conceitual para filmes, desenhando e criando storyboards e personagens. Dois anos depois migrou para os quadrinhos e criou sua primeira HQ “A Rua da Luz Vermelha”. Em 2019, com 23 anos, sua HQ participou do concurso online criado pela plataforma de quadrinhos “AGAKÊ” no qual foi campeão. Atualmente trabalha ilustrando livros, contos, capas de discos e quadrinhos.


Instagram: @juniorsantii @conceitovulgo


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