• ,Deus Ateu

,A cara da linguagem - Reflexões sobre a Tipografia

Por Jéssica Oliveira.

Tipógrafas compondo em volta de uma caixa de tipos


Segundo Ellen Lupton (2019, p. 3), “A tipografia é a cara da linguagem”. Quando eu li essa frase pela primeira vez, no primeiro contato que tive com o livro “Pensar com Tipos”, comecei a utilizá-la toda vez que alguém me pede uma introdução básica ao assunto. Lupton não poderia ser mais feliz com tal afirmação e, como comunicadores, nossa função é a de justamente dar cara a todas essas mensagens pelas quais somos responsáveis de entregar ao mundo. Apesar de ser a grande base da história do Design Gráfico do ponto de vista da narrativa de que essa prática é fruto da primeira Revolução Industrial, hoje em dia é muito comum os designers gráficos terem um certo receio de falar sobre e usar a tipografia. Mas a grande verdade é que esse assunto é muito mais simples do que se pensa.


Antes de qualquer coisa, devemos definir alguns pontos. Dentro do mundo das letras existem três grandes “classes”, três grandes práticas, que muitas vezes são confundidas umas com as outras. Se você que está lendo esse texto já é um pouco mais envolvido com o assunto, provavelmente já deve estar cansado de ler e ouvir sobre a diferença entre Caligrafia, Lettering (ou letreiramentos) e Tipografia; é o tema básico de quase todo livro e curso que envolva qualquer um dos três assuntos, por isso, não poderia faltar aqui. De forma básica, a Caligrafia é uma forma mais bonita e trabalhada de escrever. Difere-se da escrita cotidiana por seu caráter técnico e artístico, muito utilizada por todos os criativos do meio das letras para observar a estrutura básica das letras (HERNESTROSA, MESEGUER E SCACLIONE, 2019, p. 29).


Já o Lettering é quase que uma ilustração de letras: cada letra é desenhada de maneira exclusiva para aquele projeto em específico, usando variados materiais e técnicas, e seu produto não funcionaria tão perfeitamente se essas letras fossem reorganizadas de outra maneira. Difere-se da caligrafia ao ser um desenho e não uma forma de escrita fluida. Já a Tipografia, ou design de tipos, diz respeito à criação de um sistema de letras. Cada letra desse sistema, mais conhecida como tipo, é desenhada de uma forma que poderá sempre ser reagrupada e reutilizada. Usamos tipografia todas as vezes que abrimos qualquer editor de texto e escolhemos a fonte que iremos usar, temos contato com letterings toda vez que vemos um logotipo composto por letras não derivadas de uma tipografia. Um exercício de lettering ou caligrafia pode tornar-se uma tipografia, assim como designers de tipos e profissionais que trabalham com lettering sempre retornam à caligrafia para buscar referências para seus projetos.

Prensa tipográfica de Gutemberg


O tipo, segundo o dicionário Michaelis, é um “objeto ou coisa que serve de modelo ou medida para produzir outro idêntico ou semelhante; exemplar, modelo”. Pode não fazer sentido a princípio, mas essa definição básica do termo tem total relação com a definição de tipo para a tipografia: o tipo diz respeito a cada caractere do sistema tipográfico. No marco inicial da tipografia, em 1453 Johannes Gutemberg revolucionou a forma de se reproduzir textos ao criar a primeira prensa tipográfica que utilizava tipos móveis para reproduzir uma bíblia de 42 linhas por página. Trocando em miúdos, cada caractere fundido e utilizado por Gutemberg era um objeto que serve de modelo para produzir outro semelhante, um tipo. Daí nasce a ideia de sistema na impressão tipográfica: toda letra impressa com o mesmo tipo ou todo texto impresso com o mesmo grupo de tipos sempre terá o mesmo desenho, o mesmo formato, pois o tipo é nada mais que um modelo de reprodução.


Tipo móvel


Antes de entrar nas questões de anatomia, classificação e uso de tipos, quero primeiro falar de algumas questões linguísticas que envolvem o termo tipografia. Num sentido mais amplo, tipografia diz respeito não só às fontes e famílias tipográficas (sejam elas de tipos móveis ou tipos digitais) mas também pode ser utilizado para tratar de temas relacionados à diagramação. Em inglês, um typographer, ou seja, um tipógrafo, era o profissional responsável por diagramar os tipos móveis de sua oficina tipográfica para imprimir determinado layout. O profissional responsável pelo desenho, punção e fundição do tipo móvel era (e ainda é) chamado de type designer, ou designer de tipos. Porém, também na língua inglesa, o termo tipografia foi e é usado com os dois sentidos apresentados, e por isso pode gerar algumas confusões. O designer gráfico de hoje em dia faz basicamente, de uma maneira bem menos trabalhosa e muito mais rápida, o trabalho que o tipógrafo fazia nas oficinas tipográficas e, como todo bom tipógrafo, o designer gráfico deve conhecer bem o material que está utilizando para fazer o melhor uso possível dele.

Caixa de tipos de metal


No que diz respeito à anatomia dos tipos, você pode encontrar uma descrição mais detalhada neste post da Estereográfica – uma editora brasiliense especializada em livros de tipografia e design – ou em qualquer livro básico sobre tipografia (ao final do texto haverá minha lista de recomendações bibliográficas), mas não é o foco que quero dar aqui. O que nos interessa é a anatomia e sua classificação numa ótica de quem precisa fazer escolhas para projetos. É sempre delicado falar sobre o uso de tipografia em projetos gráficos porque cada caso é um caso, mas dentro do mundo das famílias tipográficas existem duas grandes categorias que iniciam sua classificação: tipos para título, ou tipos display e tipos para texto de imersão.


Em linhas gerais, todas as tipografias dividem-se nestes dois grandes grupos, em que os tipos para texto resgatam e dão continuidade à tradição dos tipos para livros, e os tipos display se afastam cada vez mais das convenções e se aproveitam das infinitas possibilidades do que Noordzij (2000, p. 21) chamou de “modelo mental” que temos em nossas mentes – baseados nos modelos caligráficos e a intensa exposição a determinados desenhos de tipos que todos experenciamos desde que nascemos (GOMES, 2010, p 33) – e, por vezes, levam ao limite a legibilidade de cada tipo.


São várias as características que distinguem tipos de texto dos tipos display, mas que merecem a atenção de todo designer são, na minha opinião, a altura de x e a quantidade de contraste. A altura de x de um tipo corresponde à altura dos caracteres em caixa baixa, e é chamada de altura-de-x justamente porque a maioria dos desenhos de /x/ tem traços “retos” tanto em sua base quanto em sua altura. O contraste corresponde à variação da espessura dos traços num mesmo desenho de tipo. O grande ponto é que: tipos para texto tendem a ter alturas de x mais avantajadas e uma quantidade menos atenuada de contraste, características que tornam os tipos mais legíveis, facilitam a leitura do texto de imersão. Outro fator que é muito importante observar nessas duas classes de tipos é o espaçamento. Tipos para texto possuem um espaçamento maior, em equilíbrio com a contraforma (espaços em branco internos) dos glifos para que, quando reduzidos, os caracteres não pareçam estar muito próximos ou chocando-se, e para que se crie um ritmo mais agradável de leitura.


Segundo Ellen Lupton (2019, p. 104), o espacejamento (ajuste geral do espaçamento de um grupo de letras, chamado também de tracking nos softwares de editoração) muito apertado é um “crime tipográfico! As letras estão próximas demais para uma leitura confortável.”, justamente porque quebra o ritmo de leitura que já havia sido formulado pelo designer de tipos. Já em tipos display, o espaçamento costuma ser mais apertado, já que esses tipos só serão usados em tamanhos maiores e não necessitam de tanta contraforma – são tipos feitos mais para serem vistos do que lidos. Outra característica que envolve o espaço do texto são as entrelinhas: independentemente do tamanho do texto, para uma boa experiência de leitura, a entrelinha deve ser no mínimo razoável. Não é nada confortável ler um parágrafo em que as descendentes (traços de letras que descendem a linha de base dos caracteres) e ascendentes (traços das letras que ascendem a altura de x dos caracteres) se choquem, ou que uma descendente quase encoste em um acento. A maioria dos softwares de edição de texto configuram, por padrão, a entrelinha 120% do tamanho do corpo do tipo, ou seja, se um tipo está em 10 pts (pontos), a entrelinha automática será de 12 pts (LUPTON, 2019, p. 108).


Além dessa classificação inicial, a história da tipografia já passou por vários sistemas diferentes de classificação de tipos, coisa que fica mais difícil de ser definida a cada ano que se passa. Atualmente, a classificação mais aceita e utilizada é a da Vox+, que baseia-se nessa grande divisão de tipos para texto (Vox+1) e tipos display (Vox+2), juntamente com os chamados estilos de época, muito bem sintetizados e ilustrados por Robert Bringhurst (2018, p. 18), e também conta com mais duas categorias gerais, as de fontes não alfanuméricas (Vox+3) e tipos não latinos (Vox+4). Apesar de ainda muito incompleta e com diversos pontos negativos, principalmente no que diz respeito aos tipos não latinos, a Vox+ ainda é a mais utilizada, principalmente em catálogos de tipos online. De forma muito geral, todas essas classificações separam os tipos por sua função e características estilísticas, e são esses dois fatores que devem guiar as escolhas projetuais.


Toda fonte, toda família tipográfica é desenhada com algumas limitações relacionadas a esses fatores. Todo type specimen (documento de apresentação da tipografia, feito em formatos diversos, podendo ser até um site) possui indicações do designer de tipos da função de sua tipografia e uma série de adjetivos que além de descreverem a tipografia, também nos tentam a comprar sua licença. Então, num primeiro momento, nada mais justo que aceitar alguns conselhos deixados ali pelo próprio criador da fonte, não acha? A função de cada fonte define muitas coisas no desenvolvimento de seu desenho e deve ser a primeira coisa a ser levada em consideração. Num segundo momento, relacionar as características necessárias a seu projeto com as características das opções tipográficas que você tem em mente é um bom caminho a se seguir. E aqui eu dou início a uma explicação livre do que Bringhurts apresenta no sexto capítulo de “Elementos do Estilo Tipográfico” (2018).


Escolher e combinar tipos demanda um entendimento mínimo tanto do trabalho a ser desenvolvido quanto das opções de tipos a serem escolhidos. O tipo escolhido deve, em primeiro lugar, ser minimamente apropriado ao assunto que irá comunicar – por que usar uma Times New Roman para um aviso da cantina de uma escola quando a Comic Sans aparenta ser muito mais adequada ao ambiente? – e deve possuir todos os pesos que você irá precisar. No momento em que escrevo esse texto, a grande novidade do mundo do type são as super famílias tipográficas e as fontes variáveis. O básico necessário para todo projeto é no mínimo o romano regular, itálico e negrito (ou bold), porém, dependendo da complexidade do projeto, outros pesos podem se fazer necessários e é sempre bom contar com os respectivos itálicos ou inclinados de cada peso usado. Também é necessário prestar atenção ao contexto histórico tanto da fonte utilizada quanto do projeto, é interessante que ambos estejam em harmonia.


A grande maioria famílias tipográficas digitais do momento possui pesos e opções suficientes para você começar usando apenas uma família para seu projeto, mas se você achar que há necessidade de combinar famílias, tente fugir de famílias muito similares. Combinar duas serifadas, ou duas sem serifas muito parecidas entre si, pode gerar uma sensação de que algo está errado com uma das duas fontes ao invés de destacar o conteúdo que estão comunicando. Se for combinar uma serifada com uma sans, Bringhurst defende que a escolha seja baseada em suas estruturas internas (as fontes devem se relacionar de alguma forma!) com, por exemplo, alturas de x ou tipo de contraste similares. Existem diversas dicas de como se pode combinar tipos da melhor maneira, a maioria delas estilística, mas sempre ao escolher uma ou duas famílias tipográficas para um projeto deve-se atentar à construção de uma boa hierarquia de informações. Um projeto com uma hierarquia bem desenvolvida tem muito menos chances de falhar em sua missão e a tipografia tem absolutamente tudo a ver com isso.


Os vários pesos e variações de estilo dentro de uma família tipográfica servem justamente para ajudar a criar e manter uma boa hierarquia de informações: guiar o leitor através das informações que o designer quer que ele leia, na ordem que ele deve ler. Um bom exemplo de como uma hierarquia mal planejada pode provocar consequências gigantescas foi o erro na cerimônia do Oscars no anúncio do Melhor Filme do Ano de 2017, muito bem analisado no canal da Vox no YouTube. Quando projetamos um material de comunicação temos poder e ferramentas suficientes para manipular todo o caminho de leitura do leitor, e se não for bem executada, esse caminho pode ficar confuso demais e não refletir da forma correta as informações e o fluxo de informações retratadas ali.


E, por último, mas não menos importante, o outro ponto que deve ser sempre levado em consideração é o suporte onde essa fonte será veiculada. Tipos feitos para serem utilizados em telas e na web não costumam se comportar bem se utilizados em um romance impresso. Novamente, é preciso ficar atento às recomendações do type designer que desenhou a fonte escolhida. Todo meio de reprodução de mídia, seja digital ou impresso, possui limitações que necessitam ser consideradas no processo de escolha. Já usou algum website ou aplicativo em que as letras do título estavam tão finas que pareciam ter uma falha no meio de seus traços? Esse é um ótimo exemplo do mal uso de uma fonte de acordo com seu suporte: uma fonte de traços finos demais pode ser facilmente prejudicada dependendo do monitor onde é reproduzida.


O mesmo pode acontecer com impressoras domésticas ink jet, que ou provocam falhas no traço das letras, ou seu excesso de tinta provoca o que é chamado no ramo da produção gráfica de ganho de ponto, fazendo os traços ganharem espessura e comprometendo, dependendo do caso, a legibilidade do material. Saber exatamente onde será veiculada é extremamente importante para o pleno funcionamento dessa fonte e, consequentemente, para o sucesso do projeto.


A tipografia é com certeza uma área vasta e apaixonante. Algumas das questões abordadas neste texto são objeto de estudo de vários profissionais e pesquisadores da área das letras até hoje e, quanto mais se aprende sobre esse mundo, mais se tem a estudar. A tipografia e o design de tipos podem até parecer assuntos assustadores no início, mas eu lhe garanto que quanto mais você estudar, mais irá se apaixonar. Essa é uma área muito importante do design e das comunicações, e deve ser tratada com respeito e admiração. Afinal, a tipografia é a cara da linguagem.


Recomendações de leitura (caso você queira estudar mais sobre o assunto!)


Pensar com Tipos – Ellen Lupton

Tipos na Tela – Ellen Lupton

Elementos do Estilo Tipográfico – Robert Bringhurst

Tipografia Digital – Priscila Farias

Como Criar Tipos: do esboço à tela – C. Hernestrosa, L. Meseguer e J Scaglione

O Traço – Gerrit Noordzij


Bibliografia


BRINGHURST, Robert. Elementos do Estilo Tipográfico, versão 4.0. Tradução de André Stolarski. São Paulo: Ubu Editora, 2018.


HENERTROSA, Cristóbal. MESEGUER, Laura. SCAGLIONE, José. Como criar tipos: do esboço à tela, 2ª edição. Tradução de Priscila Farias. Brasília: Estereográfica, 2019.


LUPTON, Ellen. Pensar com Tipos: guia para designers, escritores, editores e estudantes. 2ª edição revista e ampliada. Tradução de Priscila Farias. Osasco: Gustavo Gili, 2020.


NOORDZIJ, Gerrit. Letterletter. Vancouver: Hartley & Marks Publishers, 2000.


TIPO verbete. Dicionário Brasileiro de Língua Portuguesa Michaelis, Editora Melhoramentos, 2020. Disponível em: <http://michaelis.uol.com.br/busca?r=0&f=0&t=0&palavra=tipo>. Acesso em 27 de agosto de 2020.


Ao leitor, obrigado por ler o nosso artigo.


,Sobre a autora:


Jéssica Silva Oliveira é mineira residente em São Paulo, estudante de Design Gráfico e Design de Tipos. Foi estagiária da Oficina Tipográfica Anhembi Morumbi, onde teve contato intenso com a tipografia e o type design por meio de seu professor supervisor, Prof. Me. Érico Lebedenco. Atualmente, além da graduação, é uma das bolsistas do curso Introduction to Modern Type Design, do Type West, programa de pós-graduação em type design do Letterform Archive.


Behance: https://be.net/jesssilvadesign

Instagram: @jesssilva.jpg Email: jess.silva.design@gmail.com



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