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,Psicanálise e Meio Ambiente: Uma crítica ao projeto neoliberal

Por Ana Lizete Farias.

Representação da Terra sem água (2011, ESA - agência espacial européia)


Sabemos que Freud não se ocupou das questões ambientais da forma como as pensamos hoje, entretanto, em toda a extensão da sua obra está o registro, a marca do coletivo e dos laços sociais, o que se entende ser desde já, um inegável legado político ao tema.


Para pensar a junção dos campos ambiental e psicanalítico olhamos, inicialmente, como Freud no Mal-estar da Cultura (Freud [1930], 2010) compreendeu o processo civilizatório. Sua teoria, a partir da análise de Roma Quadrata[1], entende que, na sua origem, o eu – instância responsável pela constituição da atividade de pensamento e juízo dos sujeitos – se estabelece a partir de uma cisão, ou seja, de um fundo mortífero indiferenciado, confuso e intolerável e que, desta forma, o processo civilizatório traz em si algo desse primitivo, uma antinatureza.


[1] Trata-se da Roma mais antiga, um povoamento situado no Monte Palatino. Não é preciso dizer que esses resíduos todos da antiga Roma se acham dispersos no emaranhado de uma metrópole surgida nos últimos séculos, a partir da Renascença. Seguramente, ainda muita coisa antiga se acha enterrada no solo da cidade ou sob as construções modernas. É assim que para nós se preserva o passado, em sítios históricos como Roma. (FREUD [1930], 2010, p. 22.


Isso o levou a concluir que o “mal-estar” não é algo que está fora do processo civilizatório, e, sim, que pertence a ele mesmo. Portanto quanto mais a cultura avança, mais o seu lado regressivo se mostra, seja pela ignorância, violência, obscenidade, indiferença etc. Dessa forma podemos compreender o progresso como o afastamento da origem bárbara que, de toda maneira, traz consigo, em seu interior, o problema de pertencimento e do estabelecimento dos laços, de vínculos, conflitos, agressividade, repetindo a experiência de cisão ao qual todos os indivíduos são submetidos desde o seu começo.


Num correlato podemos dizer que há um mal-estar relacionado também às questões socioambientais, expressas na crise ambiental que ocorre na nossa contemporaneidade. Um mal-estar enquanto o reconhecimento tácito e intuitivo da situação de que o problema ambiental retorna dentro da sua própria solução, numa forma não refletida ou não tematizada, ou seja, sem consciência da situação. Suas evidências estão não somente na destruição da vida ecológica do planeta, mas também nos mais de 3,5 bilhões de seres humanos que são excluídos do sistema de bem estar social, em um intenso sofrimento físico e psíquico originado dessa desigualdade.


A crise ambiental porta uma verdade que não concerne apenas, por um lado, nem a um processo natural nem, por outro, aos efeitos de uma forma econômica-produtiva objetiva, interrogando-nos acerca de uma dinâmica vital ao mesmo tempo individual e coletiva.


Neste sentido, esta crise – e aqui devemos levar ao pé da letra o termo “crise” implicado na expressão “crise ambiental” - diz respeito a um campo multifacetado de implicações ambientais, sociais, políticas e econômicas sobre os quais a psicanálise também é capaz de se pronunciar.


Ela desvela sobretudo a mentira da civilização, ou seja, que tudo estava em ordem, que não era preciso se inquietar, que havia uma ordem estatal a cuidar de todos, que o desenvolvimento econômico se derramaria sobre todos os habitantes do planeta e que a tecnologia serviria para sanar todos os males que acometem aos cidadãos do mundo.


Gera um resíduo de morte, sofrimento, exclusão, degradação, que denuncia que o processo civilizatório não se faz sem perdas, e que possui uma face por meio da qual nunca se quer reconhecido.


Esta é uma análise que se ajusta ao cenário ambiental brasileiro, delineando uma rede complexa que abrange desde os aspectos da vida moderna na sociedade de consumo exacerbado, até o projeto de desenvolvimento do país.


Em nossa contemporaneidade se encontra um pensamento político arraigado da velha oligarquia nacional aliado aos interesses dos grandes setores econômicos-produtivos, sob a égide da matriz econômica neoliberal.


Nesse contexto a violência, a naturalização do sofrimento que ocorre na implantação de projetos com elevados impactos ambientais situados como para o desenvolvimento do nosso território, são registros ainda pouco tematizados acerca dos efeitos impressos nos indivíduos, comunidades e populações mais vulneráveis.


Nos meandros das questões socioambientais brasileiras encontramos a gramática neoliberal enquanto um ideal que tem amparado a degradação ambiental, os conflitos e a injustiça de forma bastante eficaz.


Sob a retórica do perigo, como se a civilização estivesse sob estado de ameaça, sob ataque constante, enquanto um registro em defesa do desenvolvimento em detrimento das questões ambientais brasileiras, o discurso predominante é de que “precisamos de mais empregos, precisamos de alimentos, precisamos de crescimento econômico” , colocando num antagonismo permanente a proteção ambiental e a qualidade de vida das pessoas.


A gramática neoliberal, em relação às questões socioambientais, tem como objetivo fundamental distensionar o antagonismo crucial existente. Na medida em que um discurso ambientalista se põe contra certas práticas de produção e consumo, nomeando seus adversários, o enunciado neoliberalismo, além de se defender, constrói visões alternativas sobre o mesmo tema, tentando suprir a disparidade por uma lógica de equivalência. O perigo do colapso socioambiental resulta numa negação corroborada pelos discursos “verdes” que buscam livrar o consumidor da culpa de participar da destruição do ambiente. Constitui-se numa estratégia de redenção ante a promessa de fruição do consumo ambientalmente correto – espécie de promessa de “mais gozar verde” - proferida para um leitor pressuposto que “perversamente fetichiza a própria sustentabilidade” (PRADO; BUENO, 2015, p. 5).


São exemplos marcantes, dentre muitos, as grandes obras hidrelétricas, como por exemplo de Belo Monte no Pará; os crimes da escravidão humana assim como a mineração.


Belo Monte, principal obra do PAC (Plano de Aceleração do Crescimento) do governo Dilma- instalada na bacia do Rio Xingu próximo ao município de Altamira, no norte do estado Pará, onde a ausência histórica do Estado se faz sentir- transformou-se num cenário de horror e de guerra silenciosa. Para além do que já foi amplamente divulgado por organizações sociais de diferentes amplitudes sobre a ineficiência dos estudos para obtenção do licenciamento, a construção da usina gerou impactos até então não considerados, não visto ou talvez a palavra mais adequada possa ser “impactos silenciados” - nas diversas fases de implementação do empreendimento.

A configuração do sofrimento psíquico dos integrantes das comunidades locais tem lugar na perda das suas referências fundamentais de organização e da própria vida, um circuito de afetos despedaçados através da destruição da convivência comunitária e pela concepção de “desenvolvimento” imposta. Perdas que podem ser constituídas, psiquicamente, como provações irreversíveis, ou seja, a separação dos objetos - num correlato com as casas, os rios, os laços sociais, a própria relação com a natureza. Estes foram deixados de forma súbita, definitiva causando transtornos tão graves que, como hoje é visto em Belo Monte, transformaram-se em sintomas físicos como cegueiras e paralisias (KATZ, 2019).


Outra marca da nossa história socioambiental são os crimes da escravidão e da destruição ambiental não apenas inextricavelmente ligados, mas reforçados mutuamente. No rastro da escravidão humana está o trabalho infantil inclusive na forma de prostituição que ocorre desde a cadeia das carvoarias e remotas minas de ouro do interior, estendendo-se até as grandes cidades.


O mesmo ocorre no setor mineral, o qual seguindo o padrão de invisibilidade, dado ao rastro de empreendimentos de grande impacto, pouco ou nada se diz sobre o término de um ciclo de exploração de uma mina e as consequências na vida da população local, seus efeitos sociais e ambientais. Sabemos, no entanto, que vamos encontrar certamente rastros de pilhas de rejeitos, contaminação do ar, solo, rios e lençóis freáticos, além de uma cadeia onde se associam doenças, prostituição, desmatamento ilegal, tráfico de animais silvestres e decadência econômica (FERNANDES et al, 2014).


A esse ciclo se incorpora a tragédia de Mariana em 2015 e, posteriormente, Brumadinho, em 2019, acrescendo o debate atual sobre os riscos da mineração e sua relação com o entorno. Esse tipo de catástrofe parece representar uma falta de limite da própria atividade em questão, ou seja, a atividade exploratória da natureza não se pauta por um limite de restrição real, mas sim pelo desenvolvimento da sua autoimagem para a qual, fundamentalmente, não há limites.


A situação “pós-desastre”, ou seja, as consequências em termos de um despedaçamento psíquico, são similares, de certa maneira, ao ocorrido em Belo Monte. Para além dos prejuízos materiais imediatos, dos graves prejuízos à vida e à saúde dessas populações houve a destruição de seus territórios enquanto base de sua reprodução social, cultural e econômica, assentada em condições socioecológicas especificas.


No caso de Mariana, em relação ao tratamento dos que foram brutalmente impactados, a retórica neoliberal constrói a narrativa da banalização , do esquecimento que circula na mídia como “de que não se pode mudar uma matriz, um viés econômico da noite para o dia, o que precisamos agora é discutir uma legislação mais adequada para a exploração mineral, Mariana não poderá ser reconstituída sem o apoio da Samarco[2]”.


[2] “Mariana, a dependência da mina que paga pouco à região que devastou” Disponível em: https://brasil.elpais.com/brasil/2015/11/13/politica/1447439535_624567.html

A lógica da perversidade dos projetos associados ao nosso modelo de desenvolvimento é perceptível, ao que Žižek (2011) entende como um “sintoma” pois se configura a partir de slogans como “Desenvolvimento”, “Modernização” e “Mercado Mundial”, não como um acidente feliz, mas sim o produto necessário da lógica do sistema econômico.


Por essa via, outros modos de vida como as ruralidades dos povos tradicionais são tornadas invisíveis, apesar de serem estas que, consolidam a complexidade do cenário ambiental e, como bem já nos disse Leff (2011), Žižek (2012), confirmam que o ambiente não é a ecologia, mas a complexidade do mundo. Há que se refletir ainda que sob essa lógica há um silêncio sobre a invisibilidade da violência, das consequências do intenso sofrimento psíquico que hoje é circunscrito apenas ao que for demonstrável por diagnósticos ou laudos - segundo a perspectiva neoliberal- gerando um sentimento de sombrias perspectivas e de passividade.

Urge, portanto, a necessidade de nos havermos com o mal-estar ambiental para se promover um projeto efetivo de mudança.


Sobre isso Žižek nos propõe ser fundamental estabelecer uma distinção sobre as impossibilidades com as quais nos deparamos: o real-impossível do antagonismo social e a impossibilidade na qual se concentra o campo ideológico predominante. Segundo ele “Hoje, a ideologia dominante pretende nos fazer aceitar a “impossibilidade da mudança radical, da abolição do capitalismo, de uma democracia não limitada ao jogo parlamentar etc. (ŽIŽEK, 2012, p.191).


Essa afirmação do pensador nos leva a concluir que, entendermos as nossas questões socioambientais nas suas dimensões mais obscuras, mesmo que nos cause horror e faça emergir mais ainda nosso profundo desamparo, pode nos conduzir a uma experiência moderna de subjetividade, a partir da nova imagem da singularidade da nossa condição.


Sobre esse aspecto, Saflate (2016) nos aponta em Freud que a afirmação do desamparo não é algo contra o qual se lute, mas sim se afirme, pois disso vem a nossa emancipação. “Com o desamparo é possível fazer coisas bastante diferentes tais como transformá-lo em medo, em angústia social ou a partir dele produzir um gesto de forte potencial liberador.” (SAFATLE, 2016, p.19).


Talvez esse seja um grande e bom desafio, ainda futuro!

Bibliografia

BALES, K. Blood and earth: modern slavery, ecocide, and the secret to saving the world. New York: Random House, 2016.

FARIAS , A.L. O mal-estar ambiental : a psicanálise e o sofrimento socioambiental . Curitiba, PR: Medusa, 2020. (no prelo).

DUNKER, C. Mal-estar, sofrimento e sintoma: uma psicopatologia do Brasil entre muros. São Paulo: Boitempo, 2015.

DUNKER, C. Clínica e diagnóstico na era neoliberal.2016. Disponível em <https://www.youtube.com/watch?time_continue=860&v=3noUnc0emC8>Acesso em 28 de agosto de 2020.

LEFF, E. Saber ambiental: sustentabilidade, racionalidade, complexidade, poder. Petrópolis, RJ: Vozes, 2011.

LEFF, E. Ecología política: de la deconstrucción del capital a la territorialización de la vida. México: Siglo XXI, 2019.

FERNANDES, F.R.C.; ALAMINO, R.C.J.; ARAÚJO, E. (Eds.). Recursos minerais e comunidade: impactos humanos, socioambientais e econômicos. Rio de Janeiro: CETEM/MCTI, 2014.

FREUD, S. O mal-estar na civilização e outros textos [1930-1936]. Obras completas de Sigmund Freud. São Paulo: Companhia das Letras, 2010, v. 18.

KATZ, I. A clínica do cuidado: intervenção com a população ribeirinha do Xingu atingida por Belo Monte. In: BROIDE, E.; KATZ, I. Psicanálise nos espaços públicos. São Paulo: IP/USP, 2019, pp. 22-37. Disponível em: <http://newpsi.bvs-psi.org.br/eventos/Psicanalise_espacos_publicos.pdf >. Acesso em: 17 set. 2020.

LATESFIP/USP- Laboratório de Teoria Social, Filosofia e Psicanálise - estudos sobre o neoliberalismo (2016). Disponível em <https://latesfip.wordpress.com/>. Acesso em 27 de agosto de 2017

LEFF, Enrique. Epistemologia ambiental. São Paulo: Cortez, 2011.

PRADO, J.L.A.; BUENO, V.P. Sobre a sustentabilidade como fantasia liberal-capitalista: do tampão verde à ecologia sem natureza. Revista Famecos, 2015, v. 22, pp. 1-14.

SAFATLE, V. O circuito dos afetos: corpos políticos, desamparo e o fim do indivíduo. Belo Horizonte: Autêntica, 2016.

ŽIŽEK, S. Em defesa das causas perdidas. São Paulo: Boitempo, 2011.

________. Vivendo no fim dos tempos. Tradução Maria Beatriz de Medina São Paulo: Boitempo, 2012.


Agradecemos pela leitura do nosso ensaio.


,Sobre a autora:


Ana Lizete Farias, psicanalista clínica, educadora, pesquisadora. Geóloga pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul -UFRGS com mestrado em Geologia Ambiental e Doutora em Meio Ambiente e Desenvolvimento, ambos pela Universidade Federal do Paraná. Possui extensa carreira na área socioambiental trabalhou para diversas agencias e organismos nacionais e internacionais como Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), IPC- Centro Internacional de Políticas para o Crescimento Inclusivo, Banco Interamericano de Desenvolvimento (IABD), Ministério do Meio Ambiente – IBAMA, instituições do terceiro setor , indústria, assim como na área de risco socioambiental no setor financeiro.


Facebook: Ana Lizete Farias

Instagram: @analizetefarias

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