• ,Deus Ateu

,Para atos de partilha - Entrevista com Alexandre Mate

Atualizado: Jul 27

Por Marcio Tito.


MT - Ao vivo e online, em duas oportunidades, vi quando o termo "vamos definir as palavras" surgiu em seu vocabulário. Achei muito arguta essa estratégia de aterramento das diferenças "semióticas" da linguagem. Proponho que seja posta aqui, em texto, essa baliza tão esclarecedora, e que poderá melhor situar o leitor que nos acompanha, e também eu que o investigarei nessa conversa. Quando falarmos em arte, estaremos falando segundo qual régua? E o agente, o artista mesmo, no nosso contexto, representa qual sujeito, qual ideia? O que é arte hoje? O que é um artista, portanto?


Alexandre - Respondo escrevendo ou falando!?


MT - Como preferir! Se for falando, transcrevo. Vai ser ótimo. Assim visito com intimidade as suas palavras...


Alexandre passará a falar através de áudios, no aplicativo whatsapp. A conversa aqui apresentada resulta da fiel transcrição dessas falas, com brevíssimas adaptações, que jamais alteram o sentido da fala do entrevistado.


Alexandre - Marcio, Talvez seja mais difícil para você, mas...possivelmente facilitará o transito dialógico entre nós se eu falar.


Permanentemente, todo ser vivo, e decorrente de um conjunto de questões, se encontra em mudança, em estado de transformação. O ser vivo, inteligente e sensível, evidentemente, não fica atarracado, pregado à determinadas questões (excetuados, evidentemente, as questões de principio). Mas, o processo de interação social vai demandar sempre re-considerações, re-significações, re-ponderações acerca de si e acerca do mundo.


Semana passada li um texto do Peter Burke muito interessante, chamado O Estereótipo do “Outro” - Apesar de eu estar permanentemente atento às coisas que digo, também, assim como aquelas que faço, eu havia me esquecido o que pode semanticamente estar pressuposto na palavra "outro".


Por intermédio desse texto, e já era uma preocupação que tive no passado, eu retomei e comecei a reconsiderar que no lugar do outro - como alguém apartado de mim - eu deveria usar a palavra "semelhante.”


Então, o viver demanda processos de revisitação permanentemente. Eu acredito muito nisso. Muito. E tento praticar isso cotidianamente. Então eu penso que qualquer fala social, quando o sujeito pensa no que diz, ele de uma certa forma desnaturaliza tudo aquilo que ideologicamente se apresenta como um caráter imorredouro, neutralizante, o "deixa pra lá"... e ao mesmo tempo que tem essa acomodação àquilo que está dado e posto e naturalizado, tem também uma radicalização, e isso com relação às questões políticas, fica mais candente nos dias de hoje, uma radicalização no mal sentido (porque a palavra pra mim é sempre boa) de uma opacização total de os sujeitos de perceberem também no mundo a partir de um conjunto de proposições absolutamente significativas.


A cegueira faz parte da vida mesmo quando o sujeito esteja de olhos abertos e use óculos. A cegueira é o estado ideológico de perversão social que vai nutrindo a totalidade das pessoas despreocupadas.

Todo sujeito que permanentemente se ressignifica em relação, e que se dedica de uma forma ou outra à arte, precisa revisitar também as suas crenças, no que diz respeito às possibilidades de configuração forma do imaginário social.


Já faz algum tempo que comecei a romper gradativamente com um conjunto de valores que me foi apresentado por profissionais tantas vezes, entre aspas, gabaritados e especializados em determinados assuntos, e eu estou da falando da questão da arte, e nela, a questão do teatro. Eu, anotei pra mim, por uma questão de patrulha, de patrulhamento ideológico, algumas dessas proposições, mas eu tenho revisitado muito, muito, todas as coisas, já faz algum ano.


Começo dos anos 2000, ainda estava na universidade, comecei a criar e a facilitar espaços de dialogismo com os fazedores de teatro de rua. Numa proposição de desenvolvimento de propostas populares. Foi criado um grupo de pesquisa e fazíamos encontros regulares uma vez por mês (para discutir um conjunto de questões absolutamente significativas, e que não constavam em quase nenhuma fonte documentada).


É evidente que, na condição de ser um vivo, sensível, e com alguma constituição cognitiva eu posso me transformar. Posso transformar alguns pontos de vista que tenho acerca daquilo que está dado posto e naturalizado no mundo, e me sentir provocado no sentido, pelo menos, das reconsiderações.


É isso que tem ocorrido, e que ocorreu na minha vida a partir desse momento histórico.

Então existem diferentes possibilidades de pensar, produzir, trocar atividades artísticas e eu, nesse momento de vida, estou mergulhado em algumas questões e escrevendo um texto... é, escrevendo um manifesto! Denúncia. Sobre as questões de um preconceito que sempre esteve presente nas universidades públicas contra o popular, contra o teatro de rua. Então, assim como existe a questão do preconceito racial, que realmente é estrutural, a arte, em alguma das suas possibilidades formais realmente é encarada do mesmo modo.


E como se se ouvisse permanentemente "não sei, não quero saber e tenho raiva de quem sabe”.


E nós não nos conhecemos. E ficamos permanente a prestar apologias irrestritas aos fazedores de teatro de determinados contextos muito distantes de nós. Em atitudes muito subservientes. Muito subservientes. Acintosamente subservientes.

A arte não está apartada da vida (enquanto uma necessidade básica). O Ernest Fischer tem um livro chamado A Necessidade da Arte. Em que ele explícita essa necessidade humana básica de estar perto da Beleza, de se nutrir por ela, de melhorar as suas características através da arte.


Então, o que digamos assim, determina qualquer ser humano fundamentalmente, não é a sua capacidade retórica, mas as suas ações. Principalmente aquelas ditas e consideradas mais triviais, cotidianas, ordinárias. Porque é sempre no varejo que se pode flagrar as grandes contradições, as maiores contradições de todo ser humano.


Então, a arte... - eu não queria ficar citando muitas coisas, mas como eu estou agora a ministrar um curso de pós graduação no instituto de artes da UNESP, e tem sido uma experiência absolutamente significativa e muito importante, eu dividi a matéria em seis grandes áreas de discussão: Estereótipos, Engajamento, Memória, História, Cultura e Teatro. Com relação a cultura, nós discutimos um texto do Mikhail Bakhtin, que se encontra em um livro chamado Marxismo e Filosofia da Linguagem. Nesta reflexão Bakhtin defende a tese segundo a qual todos os signos são ideológicos, e, sendo ideológicos, todo signo vai refletir e refratar o real. Portanto, também do ponto de vista simbólico, do ponto de vista artístico, é preciso ter muita clareza sobre tudo nesses dias em que estamos a viver.


De que lado eu estou e de que lado aquilo que eu produzo, do ponto de vista do imaginário, se encontra...


Então o que é fundante e absolutamente essencial quando se produz e se cria com relação a linguagem teatral? É necessário "ideia". Ponto de vista. Assuntos ou temas que possam nortear aquilo que se vai desenvolver no ponto de vista de "ideia". Sempre buscando ter uma clareza acerca de que ponto de vista, de que pontos de vista, essa ideia vai ser desenvolvida. À favor de quem. Contra quem. Abastece o mercado das ilusões? Tenta ra-dicalizar? Tenta propor uma re-flexão que desaloje e desacomode as pessoas? O pensamento é fundante.


Em grego escreve-se Logeion (fundamento). Aliado à isso, é preciso sempre buscar um arcabouço técnico por intermédio do qual as ideias possam ser desenvolvidas. Então um "arcabouço técnico" que é uma espécie de artesania, de configuração das ideias a partir de uma estrutura característica, peculiar, singular. E o outro elemento que vai distinguir o que um historiador, ou o que algum que se dedica a escrever narrativas histórias de quem cria narrativas ficcionais, vai ser exatamente a capacidade imaginativa ou de fantasiamento. Isso pressupõe a criação de um conjunto de respostas à lacunas (tanto do ponto de vista da subjetividade quanto do ponto de vista da objetividade com relação aos temas que são revelados a partir do plano das ideias). Então, ter clareza desta determinação básica e singular é essencial.

Cena do filme O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro, de Glauber Rocha - 1969


MT - Ouvindo essa sua pulsão... que acontece em palavras, por acaso, por um acaso da mídia em que estamos agora, mas que vislumbra de fato muito mais, muito mais presença, e, na presença, muito mais atitude, me veio uma citação... Uma citação que me parece projetar também esse encontro entre todas as coisas e o popular (e entre o popular e todas as coisas) que está sugerido nisso tudo que você organiza - Palavra puxa palavra, uma ideia traz outra, e assim se faz um livro, um governo, ou uma revolução, alguns dizem que assim é que a natureza compôs as suas espécies. Para situar os nosso leitores, pontuo ser do Machado de Assis essa fala. Bom, temos nessa ideia uma certa suspeita daquilo que sua fala busca? É um pouco por aqui?


Alexandre - O que é arte? A arte não é passível de um conceito, de uma definição cartesiana. A arte vai se configurar a partir de um conjunto articulado de necessidades subjetivas e objetivas, que, qualquer ser humano tem, de pôr intermédios de diferentes códigos simbólicos, desenvolver paisagens ligadas a um imaginário histórico-social. O que se sabe é que a arte se caracteriza em uma necessidade. Em uma necessidade tantas vezes transcendente de um discurso objetivo e pontificado de uma maneira mais evidenciada. Nessa perspectiva, um artista, é um trabalhador, uma trabalhadora que lida, que transita, com a criação de formas instituídas por intermédio de amplas gamas de símbolos.

Cadeias de símbolos que libertam as possibilidades de interlocução, de re-invenção de um estar no mundo de uma maneira mais diferenciada, mais... significada. Então, artistas populares que foram expulsos desde sempre, de qualquer templo, de qualquer espaço consagrado ao longo da história, resistiram. Resistiram e trouxeram, manifestadamente, as suas necessidades.


Eu sempre recomendo para as pessoas sensíveis e preocupadas com algumas questões, sobretudo nesse campo que eu reportei agora, que diz respeito à produção de rua, à produção do teatro popular, a leitura de uma obra maravilhosa de uma pesquisadora que se doutorou na UNICAMP, sob orientação da Neide Veneziano, o nome dela é Virgínia Namur.


A Virgínia Namur estuda a Dercy Gonçalves. A tese dela se chama Dercy Gonçalves: O Corpo Torto do Teatro Brasileiro. É um deslumbramento. É um deslumbramento a reflexão que a Virgínia Namur desenvolveu e o modo como ela vai desmistificando uma re-tórica segregacionista por parte dos detentores do poder. Desde sempre. Os ideólogos também na área de estética, à serviço dos poderosos, e de uma suposta universalização da arte, de um "homem abstrato" que se fala... como um paradigma.


MT - Que definição humana... quase sempre as "definições" de arte são tão robóticas! Achei adorável esse ângulo...


Alexandre - Eu tenho realmente feito mergulhos bastante profundos. Tentando realmente sair desse mar de sargaços de uma ideologia que não me permite enxergar e ver as coisas flagrantes a meu lado! E a questão de impedimento das pessoas à produção, à memórias documentada, ao abrigo, ao acessos das coisas é.... é isso. Parafraseando Guimarães Rosa, "eu não tenho certeza de quase nada, mas duvido de quase tudo". Esse estado de dúvida, de suspicácia, ele tem me alimentado muito, muito significativamente.


Como eu vejo as coisas? Como eu as interpreto? Como pondero? Estou em um estado hoje de expulsão de um dragão da maldade que se alojou nas minhas estruturas de pensamento, de comportamento, de uma ideologia perversa que faz apologia às individualidades, às subjetividades de um "homem transcendente" que, em tese, se diz liberto e.... esta libertação corresponde exclusivamente a fazer o que ele quer ou agir de acordo com uma normatização que não se explícita enquanto ideologia política.


O que eu quero dizer, de maneira contundente, é que eu estou em um processo de expulsão desse dragão da maldade que é ideologia pura, e que me levava a enxergar as coisas exclusivamente pela ótica dos detentores do poder (também no campo da estética).

Mas eu me interesso pelas coisas produzidas no Brasil. Por gente brasileira. Por artistas desse país. Não todos, evidentemente. A cultura de massa não me interessa. Não me interessa alguns autores, algumas autoras, algumas produções que estão, que sempre foram afinadas aos interesses dos detentores do poder da vez.


Eu tenho lido muito, assistido muitas coisas. Eu nunca gostei de televisão. Há décadas que eu não tenho. Não assisto. Não perco o meu tempo. Eu confesso minha culpa e meu degredo, meu sonho desesperado... viva Torquato Neto! Mas eu tenho assistido muitas coisas agora, por intermédio da internet, e coisas absolutamente significativas. Eu tenho ouvido muito, por exemplo, Silvio Almeida. Muitas coisas reveladoras, muitas coisas reveladoras...


Não é possível estar na vida, ser feliz, se não se pensar purificadamente todas as redes que nos aprisionam o entendimento (que parecem invisíveis). Eu vou usar uma metáfora que um dia, um estudante, lá na Escola Livre de Santo André, o Carlos Biadiolli, fez. Ele criou uma personagem que o tempo inteiro buscava a quarta parede. Ele buscava a quarta parede e, quando ele a encontra, morre tombado exatamente por esse confronto. Claro que tem aí uma superação, tem aí um devir absolutamente significativo, e a palavra não é "devir", mas é vislumbrar uma outra possibilidade e morrer na quarta parede. É muito. É uma metáfora muito potente.


Eu não sei o que ficou pelo caminho mas, hoje, exatamente por não me enfiar nas aparências, por não me enfiar tanto mais pelas retóricas, pelas imagens "belas", supostamente "belas", transcendentes, esplendorosas. Eu me aproximo das coisas por outros olhos. Tenho ouvido muito. Ah... pessoas maravilhosas... Ariano Suassuna, nas suas falas, na sua crença em religiosidade, mas com uma obra tão significativa.


Tenho lido muito Darcy Ribeiro, que tem uma contribuição maravilhosa. Professor Milton Santos! Tenho lido muitas coisas do Roberto Schwarz, tenho ouvido as minhas vizinhas, que são senhoras, muitas das quais votaram em Jair Messias Bolsonaro, e que a cada dia elas entram em processo de dissolvência... Tenho reconfigurado todas as paisagens internas. Outros ângulos de re-ponderação do visto. E isso me tem feito muito bem. Eu me sinto realmente um sujeito que participa da história. Estou tentando, dentro dos "apertamentos" todos que me caracterizam, uma destruição desses processos de sufocamento. Não tenho posto os meus pontos de vista. Mas tenho apresentado pontos de vista...


MT - Será uma aventura encantatória transcrever a sua fala. Há tantas terminações nervosas...


Alexandre - A minha fala tem muitos silêncios também. E o silêncio pode ser um índice, um paradigma, um paradigma de re-visitação de tudo aquilo que estava acomodado. Estou... hoje eu sou um velho. Tem dois caminhos, em tese, mais clássicos, que levam o sujeito na idade em que eu estou à percepção das coisas. Uma... o caráter neurastênico, impondo ao mundo as suas teses, ideias, os seus pontos de vista ou... se deixar nutrir por certa sabedoria e de re-ponderamento e compreensão do mundo de que faz parte. E das relações necessárias e das relações que precisam ser dissolvidas. Precisam ser rompidas. Na minha fala tem muito silêncio, tem muitas lágrimas porque os tempos são muito difíceis. Voltar a si, entendendo que eu faço parte de um corpo social amplo, que eu sou um sujeito, não um indivíduo que faz apologia e que busca prestígio...

Tem um poeta que escreveu "só me encontro quando de mim fujo". Eu tenho fugido muito de mim para me encontrar. Não o outro, mas o semelhante. E entender que todas as pessoas, assim como Fernando Pessoa, tem um conjunto de heterônimos que estão permanentemente em briga.


Talvez o estado da arte pressuponha exatamente isso: o trânsito, de múltiplos heterônimos pessoais, ou aqueles que vão se colando sem necessariamente sê-los, e entram em um processo de litígio, de disputa para se entender fazendo parte do mundo e, motivando nesse perene processo de disputa simbólica, a busca por trazer outras facetas que não fazem parte daquilo que é oficializado.


MT - Milton Santos... o espaço como uma acumulação dos tempos... essa frase dele é muito, muito adequada ao caleidoscópio implícito (e explícito) na sua fala. Mão na luva!

Alexandre - Mãos de afeto: sem luvas!!!


Professor Milton Santos tem sido um parceiro de todas as horas...

MT - De forma ineditamente marcante para a experiência de um teatro moderno, estamos de fato Esperando Godot. Esperamos uma "volta à normalidade" que não virá tão cedo, principalmente para as obras que exigem o estabelecimento de eventos coletivos e presenciais. Quero dizer, se Beckett escreve Esperando Godot para refletir sobre a falta de grandeza das coisas diante da brutal "grandeza" da bomba atômica no Japão, agora, ficamos nós aqui, negando a claríssima impossibilidade de seguirmos realizando teatro (tal qual a mecânica natural ao teatro nos exige, ao vivo e na presença do outro). É hora de esperarmos melancolicamente esse Godot que não vem ou, talvez em uma nova configuração do que seria a experiência criativa e cênica nesse começo de século, é justo estarmos criando essas estratégias online que se debatem contra o momentâneo final das coisas? Em resumo, estamos agindo com dignidade perante o "cadáver" do teatro? Esquecemos que ele sempre renasce? Por que esse apavoramento e esse refúgio imediatamente digital?


Alexandre - Marcio, eu tenho uma apreensão diferenciada da sua. Eu não vejo o teatro como um cadáver ou como uma forma cadavérica, ao contrário. Luiz Vaz de Camões escreveu que "tudo é composto de mudanças, tomando sempre novas qualidades”.


MT - Eu também não acho que esteja permanentemente morto, mas entendo que sim, ele morre e renasce, e renasce para morrer e nascer (em ciclos infindos). Agora, não podendo ser conjurado no espaço coletivo e de troca, aonde estará essa vitalidade?


Alexandre - Nós estamos nos transformando, em razão de uma pandemia. Articulada, no caso do Brasil, a uma praga perversa na política. Quando isso ocorre, o longo da história, depois de Nagasaki e Hiroshima, no caso das bombas atômicas jogadas pelo império estadunidense contra os japoneses, fruto de uma necessidade de dominar o mundo, e de um a eliminação em fração de segundos, o niilismo, esse comportamento de descrença do mundo, ele se fez, como com Samuel Beckett, mas, entretanto, algum tempo depois, o povo vietnamita venceu esse mesmo império, a partir de táticas de luta, de reação, muito significativas. Então o teatro não é um cadáver, ao contrário! Assim como nós. Nós estamos... e o teatro também está sendo reinventado. Posso usar o nome, porque é uma pessoa muito querida, há algum tempo, conversei com Ivam Cabral. Ele estava, como a maioria, amargurado, bastante niilista quando àquilo que queria, e eu disse - Aí, defronte ao Satyros, tem a Praça Roosevelt. E tem a rua pra fazer teatro. Então, se há uma diáspora e uma expulsão; impossibilidade decorrente de uma pandemia mundial, anunciada, de uma certa forma, nós podemos e temos de reinventar a linguagem. Reinventar a linguagem. E repensarmos, portanto, nas novas maneiras de desenvolver. Pense assim: todo organismo vivo, ele pode ser acometido de males terríveis, que podem leva-lo a finitude. Mas, entretanto, de um modo ou de outro, pode também haver uma reconstituição que vai levar a pessoa a viver. São múltiplas as pessoas que trocaram até de coração, por transplante, receberam alguma coisa nova que não lhe dizia respeito, que não lhe concernia, desde a sua origem, e que se transformaram em alguma outra coisa. Eu penso que o que virá se liga muito a essa necessidade. Novamente, com Guimarães Rosa, eu digo sempre, claro que se trata de um adágio popular, mas que precisa ser entendido. Sapo não pula por beleza, mas por precisão. Nós estamos nesse instante do salto, para buscar alguma coisa, que se reconstitua a partir do que é essencial no teatro.


Como você escreveu, nós morremos permanentemente, para renascermos a partir de outras balizas, necessidades, reponderações, descobertas. Então o teatro, enquanto linguagem desenvolvida por conjuntos de sujeitos, homens e mulheres, trabalhadores e trabalhadoras, estão a reinventar. Trata-se de uma linguagem que se desenvolve por intermédio da representação, essa representação às personagens, podem ser entendíveis, abstratas, complexas, chapadas. Existe um conjunto de conceitos.


MT - Incrível essa colocação sobre o povo vietnamita... o "mais forte" não pode apavorar aquilo que precisa resistir...


Alexandre - Se o espírito pressupõe não um trânsito com a transcendentalidade, e nem com aquilo que é inexorável, que não é passível de mudar, a partir de um determinado momento, se repensa muito profundamente no significado trazido por essa determinação. Estamos em um processo de troca. De troca de e disputa. De troca. De disputa. Pensando os símbolos que refletem e refratam o real e que esteticamente tem o objetivo de tornar a vidas das pessoas melhor. É uma certa apologia que o Bertold Brecht faz à ciência. Transformar a vidas das pessoas para alguma coisa que seja melhor. Estamos em travessia. Tra-ve-ssi-a. Becket, por mais urdido que tenha sido, por um comportamento niilista de negação, de descrença, de uma certa forma, criou algumas dramaturgias... Ele criou alguns textos que tem circularidade. Nunca se sabe, às vezes para se ter ideia de aonde estamos é preciso apenas e tão somente não seguir... mas se voltar para ver aquilo que se deixou. Eu gosto de pensar as coisas a partir dessa mudança de olhar. Dessa re-orientação possível!


MT - Essa analogia do coração... a vida como aceitação daquilo que não nos pertence mais, e que ainda assim nos faz retomar para a vida. Para a vitalidade. Estamos no salto!


Alexandre - Então, Marcio, buscando uma metáfora dita aí: Vencendo o dragão da maldade, o povo vietnamita mostrou que é preciso o enfrentamento, principalmente, contando com uma cultura milenar. Que levou as pessoas, taticamente, a legitimar as suas vidas a partir das trocar com seus antepassados.


Salto! Salto... a gente salta e a força da gravidade nos traz pra baixo. Mas trata-se de um salto com o desconhecido, entretanto, empenhados com o salto. Estamos a viver um "momento em salto". Os grandes tidos monstros do teatro universal, que até tem gente boa, sem sombra de dúvida, fazem parte de um outro momento da história e, realmente a reinvenção do teatro vai se dar a partir de alguns ensinamentos dos grandes mestres e mestras do passado, mas, re-inventando, re-imaginando novas possibilidades.


Alexandre canta - Fantasia de Chico Buarque


Vida

E se, de repente

A gente não sentisse

A dor que a gente finge

E sente

Se, de repente

A gente distraísse

O ferro do suplício

Ao som de uma canção

Então, eu te convidaria

Pra uma fantasia

Do meu violão

Canta, canta uma esperança

Canta, canta uma alegria

Canta mais

Revirando a noite

Revelando o dia

Noite e dia, noite e dia

Canta a canção do homem

Canta a canção da vida

Canta mais

Trabalhando a terra

Entornando o vinho

Canta, canta, canta, canta

Canta a canção do gozo

Canta a canção da graça

Canta mais

Preparando a tinta

Enfeitando a praça

Canta, canta, canta, canta

Canta a canção de glória

Canta a santa melodia

Canta mais

Revirando a noite

Revelando o dia

Noite e dia, noite e dia


MT - hahaha vou transcrever com a partitura!! (Eu aplaudo e sorrio via emojis)

...sua organização do tempo presente é irretocável. O teatro está sim pronto para resistir por meio da importância que sabe estar guardada em sua tradição milenar. A rua como possibilidade afetiva, de reparação, de pós-parto e pré-parto também. É possível apontar alguns autores que estivessem primeiro intuindo isso? (Como "antenas da raça", brincando de citar Ezra Pound pela metade aqui rs....)


Alexandre - Tenho lido MUITA poesia!!!


MT - Tenho estado entre Roberto Piva e Cecília Meireles rs.... o delírio do Piva sob a cultura e aquelas palavras tão perfeitamente bem postas da Cecília...


Alexandre - Antes de estarmos "Juntxs" estava a ouvir "Missa dos Quilombos" ...Gosto demais do Piva e, parafraseando Cecília Meireles, "em que espelho ficou perdida a minha face?"... É evidente que não é um espelho daquilo que tenho... de buscar aquilo que se perdeu mas é, fundamentalmente nos semelhantes.


MT - Nossa. Esse verso é muito conectado ao sentimento do mundo... do meu mundo atual.... (Que é nosso, de uma classe, dos operários dessa nossa coisa conjunta).


Alexandre - Ontem, dormi!? Tendo nos braços “A noite dissolve os homens", do Drummond, que se caracteriza em meu mais intenso mantra de resistência!!


MT - Drummond. Ah! Esses dias li uma reflexão linda... o autor contabilizou quantas vezes Drummond disse "mundo" em sua obra... tem coisa mais delicada, urgente e pedindo comunhão? Lindo demais...


Coloco o Piva na Roda... para termos um desfecho dramático aqui rs.


Os arranha-céus de carniça se decompõem nos

pavimentos

os adolescentes nas escolas bufam como cadelas

asfixiadas

arcanjos de enxofre bombardeiam o horizonte através

dos meus sonhos


Alexandre - Sim!!!


MT - Ele sempre ia pontuando "o século XXI" me dará razão...


Alexandre - Uso esse poema do Piva na condição de epígrafe, em livro recente!!


MT - Esses nós, no sentido do nós da corda, entre um e outro, entre um pensamento e outro, entre uma palavra que puxa a outra! Isso é que é o destino das conversas. Dessas conversas sobre arte, futuro, passado e cena em um só respiro.


Alexandre - Um só respiro... a dois!!! Uau!!


MT - Foi muito urgente a nossa conversa. Como disse, cheia de terminações nervosas. Novos nervos para irmos de encontro ao novo e ao velho e de novo ao velho novo corpo do teatro. Desse teatro que ainda nos importa.


Alexandre - Viva!! Nos reencontramos, quando quiser!!


MT - Muitíssimo obrigado, Alexandre! amigo das questões de fogo!


Alexandre - Juntxs!! Mesmo!!


MT - Ah! podemos usar alguma foto de sua preferência. Alguma do arquivo digital. Se quiser, sugira


Alexandre - Odeio fotos!!! Nunca gostei... que eu seja imaginado... Melhor!!


MT - Combinado! hahaha...

“Small Dream in Red” - Pequeno sonho em vermelho, Kadinsky ou Para que se imagine Alexandre Mate


Ao leitor, obrigado por ler a nossa entrevista.


Agradecimento especial - Paulo Franco.


,Sobre o entrevistado:

Alexandre Mate é graduado em Educação Artística, Mestre em Artes Cênicas e Doutor em História Social. Professor aposentado dos cursos de Bacharelado e Licenciatura do Instituto de Artes da Unesp; professor-pesquisador do Programa de Pós-graduação da mesma instituição.



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