• ,Deus Ateu

,Os olhos de Átila - Um conto de Sérgio Roveri

Por Sérgio Roveri e Leonardo Fernandes.

Ilustração de Leonardo Fernandes (especialmente criada para o texto Os Olhos de Átila).


Naquela manhã de segunda-feira, Laerte saltou do ônibus dois pontos antes da parada habitual. Sempre que se via assim, adiantado, tinha a sensação de estar no controle da situação – e percorrer a pé os quinhentos metros restantes até o trabalho foi a maneira que encontrou de exercer este controle. Tinha acordado às 4h30 da manhã com a algazarra que um bando de passarinhos promovia na árvore na frente da sua casa. Era um ritual que ele costumava associar à primavera e pensou que seria útil se alguém pudesse avisar aos pássaros que ainda estávamos no começo do inverno. Saiu da cama achando que o mundo também estava adiantado.


O sono imóvel, pesado, era uma das poucas coisas que invejava na mulher. Depois que o único filho cresceu e parou de resmungar de madrugada, não havia barulho capaz de quebrar o repouso da companheira. Aos ouvidos dela, a orgia dos pássaros na árvore teria o efeito hipnótico de uma caixinha de música. Decidiu tomar café sozinho e partir mais cedo para o trabalho. Não era a primeira vez que fazia isso e, às vezes, desconfiava que a mulher até ficava feliz em acordar e perceber que a cama -e depois o resto da casa- eram só dela.


Laerte tinha vindo ainda jovem para São Paulo. Saiu de Teresina na esperança de realizar seu estranho sonho de menino: dar expediente na avenida Paulista numa sala com ar-condicionado, independentemente da função. Nunca conseguiu explicar direito este desejo aos pais e aos seis irmãos, a maioria deles contrária à sua partida. Dizia apenas que trabalhar debaixo de ar-condicionado na avenida Paulista era tão nobre quanto construir pontes, operar doentes ou viajar para o espaço, só que muito mais refrescante. Assim que conseguiu o primeiro emprego em São Paulo, auxiliar de limpeza no Zoológico, ligou para avisar os pais e dizer-lhes que nunca estivera tão próximo do seu sonho: o ônibus que ele pegava para o trabalho tinha ar-condicionado e, no trajeto até o Zoológico, cruzava a Paulista de ponta a ponta. Não era pouca coisa.


Depois de três promoções ao longo de 15 anos de labuta, todas por mérito, como costumava frisar, Laerte agora era um dos mais dedicados cuidadores do zoológico – e apenas um pensamento ocupava sua cabeça naquela segunda-feira de manhã enquanto cruzava os portões do parque. Era preciso preparar Átila para a volta do público, ausente das alamedas do zoo durante os quatro meses da epidemia.


Átila era um gorila macho de 21 anos, 1,80m de altura e 220 quilos de acordo com a última pesagem realizada na semana anterior. O animal era um dos mais visitados do parque não apenas por ser o único de sua espécie, mas por demonstrar uma habilidade raríssima: Átila sabia manter-se ereto e caminhar sobre as patas traseiras por quase um minuto. Em suas leituras para compreender melhor o animal de que cuidava, Laerte descobriu que pouquíssimos exemplares da espécie exibiam o mesmo talento de Átila, que ele rapidamente passou a creditar ao carinho que dedicava ao animal: era ao vê-lo se aproximar da jaula, manhã após manhã, que o bicho endireitava a coluna e agitava os membros superiores como um bebê que implorasse por ser retirado do berço.


O cuidador era capaz de gastar horas com os amigos a discorrer sobre a destreza e a força descomunal do gorila, mas havia um detalhe a respeito do animal que ele preferia ocultar: Átila ainda era virgem. Laerte já havia aprendido a assimilar o cativeiro do gorila, mas a cada vez que se aninhava nos braços da mulher, julgava que toda criatura de Deus devia ter direito aos afagos de uma companheira. Assim, mesmo na hora do gozo, sentia-se amuado ao pensar nas noites solitárias do gorila.


Não houve um único dia desde que assumiu os cuidados de Átila, há quase cinco anos, que Laerte não tenha se sentido frustrado diante da incapacidade de decifrar os sentimentos que pareciam saltar dos olhos do gorila. É como se o animal guardasse um dicionário inteiro em suas retinas, mas Laerte, apesar do empenho incessante, não conseguia combinar as palavras de modo a entender o que o animal tentava lhe dizer com tanta urgência. Os olhos negros e fundos de Átila eram os mais misteriosos e também os mais expressivos que ele já havia observado em qualquer ser.


Certa vez, entre curioso e inspirado, Laerte decidiu buscar na internet por músicas que falassem do olhar. Em questão de segundos a tela do computador o brindou com centenas de exemplos, dos clássicos a canções mais passageiras, em que os olhos despontavam como reluzente matéria-prima para centenas de compositores daqui e do resto do mundo, mas nenhuma letra traduzia a indizível complexidade que havia nos olhos do gorila. Laerte desejou ter um amigo poeta a quem convidaria para escrever a canção definitiva sobre o olhar – e sobre o que Átila tentava exprimir com o seu.


Ainda faltavam duas horas para a abertura do parque quando Laerte irrompeu na jaula de Átila. Como nas vezes anteriores, tão logo o viu o animal imediatamente postou-se sobre as patas traseiras e, obediente ao maior clichê da família primata, bateu várias vezes com as mãos no peito inflado, produzindo um barulho seco e aterrorizante, mas que Laerte traduziu como um mero bom dia. Naquela manhã, o cuidador queria apenas que o gorila recordasse do seu cheiro, o cheiro humano que voltaria a impregnar os limites da jaula assim que os primeiros visitantes se aproximassem.


Átila expandiu as narinas e apontou os braços para o céu. Seu corpo rígido, como se esculpido a carvão, compôs uma figura tão autoritária e imponente que qualquer pessoa que o visse assim na mesma hora expulsaria o leão do trono de rei dos animais e assentaria uma coroa dourada sobre a cabeça de Átila, ele sim a verdadeira majestade das selvas. Laerte deu alguns passos na direção do gorila até ter certeza de que nunca estivera assim tão perto dos seus olhos, tão perto que, finalmente, seria capaz de decifrá-los.


O fascínio que os olhos de Átila exerciam sobre ele era tão perturbador que Laerte não sentiu de onde veio primeiro o golpe. Caiu de costas sobre uma rocha, com tamanho impacto que por alguns segundos foi incapaz de respirar. Átila se aproximou, ereto como nunca antes, agarrou-o pelos ombros e ergueu seu corpo franzino a pelo menos um metro do chão. O sangue que escorria da boca do cuidador o impediu de dizer “sou eu, Átila, sou só eu”. Laerte desistiu de chamar por socorro ao perceber que o barulho das suas costelas sendo esmigalhadas abafaria o seu grito débil. Seu rosto praticamente roçava o de Átila e ele teve enfim tempo de desvendar o que havia de tão misterioso e antigo nos olhos do gorila: era ódio.


Julho de 2020


Ilustração de Leonardo Fernandes (especialmente criada para o texto Os Olhos de Átila).


Ao leitor, obrigado por ler o nosso conto.


,Sobre os autores:


Sérgio Roveri é um dos nomes mais importantes do nosso teatro recente. Vencedor dos prêmios Funarte de Dramaturgia, Cidadania em Respeito à Diversidade, Diversidade e Cidadania e Shell, Roveri é também um criativo roteirista. Biógrafo de Gianfrancesco Guarnieri e também jornalista com longa experiência cultural, Roveri é certamente um dos mais montados e marcantes dramaturgos do teatro brasileiros. É jornalista, dramaturgo, roteirista e contista.

@sroveri


Leonardo Fernandes é formado pelo Centro de Formação Artística da Fundação Clóvis Salgado – CEFAR. Ganhou o Prêmio APCA de Melhor Ator 2016, tem em seu currículo prêmios e indicações e, mais recente, estreou Casa Submersa, em festejada montagem com direção de Kiko Marques para o Sesc SP. Jovem talento e ator obstinado, Leonardo Fernandes é hoje uma referência na construção de personagens e no processo criativo de um ator posto em sala de ensaio. É diretor teatral e ilustrador.

@fernandesleofernandes


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