• ,Deus Ateu

,O templo religioso é o útero da grande mãe

Atualizado: Out 29

Por Mauro Pellegrini.


A Mãe é o símbolo do interno – a regência emocional. Segundo Freud, a identificação primária (seja menino ou a menina) se dá com ela. A assimilação da mãe dentro de si - colocando a mãe afetivamente dentro do seu mundo, tendo como resultado a estabilidade emocional do ser e a abertura do campo para relações secundárias (com outras pessoas). A mãe é a base e a sustentação da vida psíquica do ser.


No aspecto objetivo, como amparo material, se alimenta da substancia materna desde o ventre, e como bebê continua a se nutrir dela. Também no aspecto subjetivo, a mãe NÃO É UMA PESSOA, é uma função. Uma funcionária da cultura - a porta de acesso ao mundo. PARA MÃE (suficientemente boa): a função maior é ter desejo materno em relação ao filho – fornecer carinho (por toda vida!). PARA O BEBÊ: a 1ª meta existencial do ser é ser amado pela mãe – receber afeto materno - o que se estenderá por toda vida como carência (mesmo enquanto adulto).


Já em relação à religião, a concepção teórica psicanalítica clássica (freudiana) está muito mais marcada na figura do Pai, em sua identidade judaica e patriarcal do século passado, com suas regras e normas bem pontuadas. O que não deixa de fazer sentido, mas alguns outros novos dados e descobertas, tanto da arqueologia como também da antropologia, comprovaram indiretamente algumas outras neo teorias psicanalíticas de Melanie Klein em referência ao sentimento de culpa e da formação de um impulso reativo de reparação. Que fez o homem escolher a Mãe como seu primeiro objeto de culto, justamente por causa da dependência que há desde seu nascimento em relação a ela.


Antes de tudo, porque a vocação feminina de dar à luz a muitos filhos confundiu o ser humano, que logo elevou a mulher ao patamar de “deusa encarnada” – a senhora dos mistérios da fertilidade, de forma que no mundo simbólico mais primitivo, a mulher era tida como a fonte central da vida.


A potência geradora da grande mãe, relação primordial, é vital para a montagem de certa noção arcaica de “sagrado”, em sentido direto, a imagem da mãe foi a primeira imagem material a ser sacralizada como um elemento “transcendental”. Porque a imagem da mãe é na cultura para todas as pessoas um núcleo afetivo de transição e formação de nossa estrutura humana.


Então o Sistema Religioso percebeu uma tendência humana e se aproveitou dela, a de que os religiosos nutrem um desejo desesperado em relação ao ambiente uterino da mãe geradora, e que procuram de modo regressivo por meio da religião restabelecer o contato originário com a figura materna. Assim configurando a "Mater Ecclesiae", que nos ama e significa que estamos vivos, temos raízes e um ambiente. Bom, para se entender melhor basta somente adentrar numa catedral, ou num outro lugar sagrado, e perceber como tal ambiente religioso produz uma evocação mágica, uma regressão uterina que imita o inconsciente do ambiente amniótico. Às vezes nem percebemos, mas estamos regressando psiquicamente ao ambiente anímico onde o símbolo e o simbolizado se confundem.


A mãe, no início da formação mental de todo ser humano, não representa apenas uma pessoa entre tantas outras, ela é um “ambiente-mãe”, ou seja, ela representa tanto nossa sustentação material, como também, nossa sustentação psíquica. Assim, por deslocamento, tudo aquilo que a criança sente e vive na estreita relação primária com a sua mãe, o adulto sente, antes de qualquer coisa, em nível inconsciente, em relação aos seus laços primordiais com a natureza e por fim, transfere como projeção no ambiente, em sua casa como lar por exemplo.


É como eu tenho afirmado na minha Psicanálise da Religião que:


"O templo religioso é o útero da Grande Mãe".

A Marchinha de Carnaval ironiza:

“Mamãe eu quero, mamãe eu quero

Mamãe eu quero mamar!

Dá a chupeta, dá a chupeta, ai, dá a chupeta

Dá a chupeta pro bebê não chorar!”


O ser humano está constantemente diante do inusitado. Angustiado, ele tenta de alguma forma compensar a sua impotência diante da vida, retornando ao colinho da mamãe ou se ainda for possível retornando ao caloroso e confortável útero materno.

Até mesmo a tradição judaico-cristã DESAFIA na Bíblia em 2ª Coríntios 6.16 DESAFIA:

“E que consenso tem o Templo de Deus com ídolos?


Pois nós somos o Templo do Deus Vivo, como Deus disse: Neles habitarei, e entre eles andarei; e eu serei o seu Deus e eles serão o meu povo.”


Enfim, o autêntico religioso se presta a adorar o templo para compensar o seu eterno desamparo. O “ambiente templo” é deleite para todo viciado religioso. O fetiche do templo é fruto do profundo desejo regressivo do desesperado religioso em relação ao ambiente uterino da “grande mãe”. O templo religioso é o útero da mamãe – o insaciável religioso busca tão somente o contato originário com a figura materna.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:


MANUAL DE TÉCNICA PSICANALÍTICA – DAVID E. ZIMERMAN

MOISES E MONOTEÍSMO – SIGMUND FREUD

ALÉM DO PRINCÍPIO DO PRAZER – SIGMUND FREUD

O EGO E O ID – SIGMUND FREUD

INIBIÇÕES, SINTOMAS E ANGÚSTIAS – SIGMUND FREUD

O EU E O INCONSCIENTE – CARL GUSTAV JUNG

O HOMEM E SEUS SÍMBOLOS – CARL GUSTAV JUNG

AMOR CULPA E REPARAÇÃO – MELANIE KLEIN


Ao leitor, obrigado por ler o nosso ensaio.


,Sobre o autor:


Mauro Pellegrini, é Teólogo, com ampla experiência como Professor de Teologia em diversas Faculdades e Seminários. Tendo sua formação inicial de Bacharel em Teologia (ThB), uma especialização em Aconselhamento Bíblico pela Faculdade Cristã Teológica de São Paulo e o título de Doutor honoris causa em Teologia (Th.D h.c.) concedido pelo College Baptist Church in Brazil — International Theological Seminary. Ligado à Associação dos Pastores e Ministros Evangélicos do Brasil, membro da Academia Brasileira de Letras e Oradores Evangélicos e da Academia Brasileira de Mestres e Educadores. Por conta de sua relevante ação no município de Apiaí, recebeu o título de cidadão em 2016. Escritor diletante, assina uma coluna semanal no Jornal Apiaí Tem. Também é Professor de Artes Marciais e Psicanalista.

Estamos em movimento. Inscreva-se hoje!

  • Grey Facebook Ícone
  • Grey Instagram Icon
  • Grey Twitter Icon
  • Grey Facebook Ícone
  • Grey Instagram Icon
  • Grey Twitter Icon