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O que é Semiótica?

Atualizado: Ago 17

Por Alexandre Gnipper.

A geometria psicodélica de Adam Goldberg é bom exemplo para ilustrar essa questão


Originada a partir do termo grego semeion que significa signo, a palavra “semiótica” hoje se refere à “ciência dos signos”.


O signo é uma representação pela qual se interpreta um objeto ou se cria um significado, sendo o significado não a “coisa em si”, mas sim a representação psíquica da “coisa”; e o “signo”, um estímulo que ativa o pensamento. A análise semiótica diz respeito tanto ao processo de comunicação como ao da produção de conhecimento, preocupada com o sentido e a gênese das formas pelas quais se produz e se comunica significados.


Enquanto ciência ela estuda os processos de produção do sentido que se dá pelas diversas linguagens, propondo uma reflexão sistemática sobre o signo. A semiótica, então, é a ciência geral de todas as linguagens. Difere da Linguística uma vez que esta se dedica ao estudo da linguagem verbal, enquanto a semiótica é a ciência de toda e qualquer linguagem.


Uma linguagem é um sistema complexo de produção de sentido que possibilita a troca e a produção de informação através do uso de signos intersubjetivos, como por exemplo, a moda, a culinária, qualquer manifestação artística, uma cerimônia ou um ritual, ou até mesmo o DNA ou os sonhos- que desde Freud sabemos que se estruturam como uma linguagem. Em suma uma linguagem é um sistema codificado através de signos e que produzem um determinado sentido. Uma vez que toda comunicação e todo conhecimento se desenvolvem no universo da linguagem- e sendo toda linguagem expressada na forma de signo (que pode ser um termo linguístico, uma imagem, um gesto)- o signo se apresenta como o fundamento dos modos pelos quais construímos sentido e comunicamos significados, ele é a forma básica na qual se desenvolve as representações que construímos na forma de linguagem para nos comunicarmos e para dar sentido à vida e ao mundo.


O filósofo americano Charles Sanders Peirce, considerado o pai da Semiótica Moderna, classifica os signos em três categorias. Ele pode ser um:


  • ícone, um signo que representa seu objeto através de sua similaridade;


  • índice, um signo que não tem nenhuma semelhança significante com o seu objeto;


  • símbolo, um signo que se conecta ao objeto por força da ideia da mente que usa o símbolo.


Sendo estas as três formas fundamentais pelas quais se pode representar um objeto. Dizer que o signo representa seu objeto implica que ele afeta uma mente de modo a criar um significado através de outro signo, portanto, o significado de um signo é outro signo, tradução do primeiro- seja este uma imagem mental ou palpável, uma ação ou mera reação gestual- revelando que o signo não é uma categoria estática, mas um complexo de relações que elaboramos em nossa rotina mental. É, então, o papel da semiótica explicitar, ou tornar objetivo, essas relações de significado que nós utilizamos de maneira prática e muitas vezes automática.


Essa ciência estabelece seu conteúdo em atuação conjunta com diversos campos do saber (linguística, filosofia da linguagem, epistemologia, psicologia, antropologia, estética etc.), o que a torna uma ciência interdisciplinar complexa e abrangente, buscando na lógica a principal ferramenta para constituir um método capaz de propor uma compreensão de como os mecanismos de significação se processam. Existe uma relação intrínseca entre Lógica e Semiótica em que ambas se dispõem a compreender o processo e os elementos do conhecimento. A semiótica lida com os processos de conhecimento e de comunicação através de uma investigação sobre a natureza do signo, se ancorando na lógica como ferramenta para a constituição de uma ciência sistemática e metódica. Cabe aqui aludir às palavras de Haroldo de Campos quando ele nos diz que a semiótica, como qualquer filosofia ou ciência, não resolve problema: ela coloca problemas”.


O problema da semiótica diz respeito ao exame dos modos de constituição de todo e qualquer fenômeno como fenômeno de produção de significação e de sentido, analisando nos fenômenos, a sua constituição como linguagem. Sendo o fenômeno tudo aquilo que aparece à mente, correspondendo a algo real ou não.


Considerando-se que todo fenômeno de cultura só funciona culturalmente porque é também um fenômeno de comunicação, e considerando-se que esses fenômenos só comunicam porque se estruturam como linguagem, pode-se concluir que todo e qualquer fato cultural, toda e qualquer atividade ou prática social constituem-se como práticas significantes, isto é, práticas de produção de linguagem e de sentido. (SANTAELLA, L.O que é semiótica).


A construção de um sistema da semiótica implica na construção de uma filosofia do homem como animal simbólico, como uma espécie animal tão complexa quanto são complexas e plurais as linguagens que nos constituem como seres simbólicos. “Pode-se dizer que o homem é eminentemente um animal simbólico e que nesse seu caráter se radica a possibilidade de descoberta e de uso das técnicas em que consiste propriamente a sua razão.” (ABBAGNANO, N. 2007) É como dizer que sem o signo não há civilização uma vez que o signo é uma característica fundamental do comportamento humano na constituição de fenômenos culturais, sendo o próprio “signo” um signo do esforço humano para compreender o mundo e ordenar a natureza, seja ela externa ou interna. A semiótica se debruça sobre o estudo desse esforço com o intuito de desvelar o que há de fundamental naquilo que comunicamos, conhecemos e naquilo que somos enquanto seres de linguagem.


Fundamentalmente a semiótica enquanto ciência se divide em duas perspectivas. Existe uma Semiótica Geral que se dedica a construção de um sistema semiótico universal e que se encontra mais intimamente atrelada à tradição da filosofia da linguagem. E existem as Semióticas Específicas que, na maioria dos casos, se utilizam dos resultados da semiótica geral na análise das mais diversas linguagens, tendo como objeto de estudo qualquer sistema de signos, sejam eles linguísticos, artísticos, religiosos etc.


A Semiótica Geral se divide em duas vertentes fundamentais. Uma estipulada por Charles Sanders Peirce, preocupado em estabelecer a natureza essencial dos processos de produção do sentido, através de uma investigação da relação entre os objetos e o pensamento; e outra inaugurada por Ferdinand de Saussure que se propõe a conceber uma ciência que estude a vida dos signos no quadro da vida social.


o que a semiótica geral nos trouxe foram as imprescindíveis fundações fenomenológicas e formais para o necessário desenvolvimento de muitas e variadas Semióticas específicas: Semiótica da linguagem sonora, da arquitetura, da linguagem visual, da dança, das artes plásticas, da literatura, do teatro, do jornal, dos gestos, dos ritos, dos jogos e das linguagens da natureza. (SANTAELLA, L. 1983).


A arte como fato semiológico


Quando falamos de uma semiótica específica que se dedique à análise da linguagem artística, há de se levar em conta que uma obra de arte é ao mesmo tempo um signo, uma estrutura e um valor; e que essas categorias dialogam com elementos psíquicos subjetivos, existentes tanto na concepção como na percepção da obra artística.


A relação entre estética e semiótica depende de uma intrincada rede de relações entre os aspectos objetivos da forma artística e os aspectos subjetivos da psique, submetida a um determinado meio cultural. Assim, a obra artística só pode ser objetivada na medida em que seu sentido é delineado pelo contexto cultural, formador de uma consciência coletiva e de um inconsciente estético.


Só a posição semiológica permite aos teóricos reconhecer a existência autónoma e o dinamismo fundamental da estrutura artística (...). O estudo da estrutura de uma obra de arte ficará, necessariamente, incompleto enquanto o caráter semiológico da arte não estiver suficientemente esclarecido. (MUKAROVSKY, J. 1988)

Segundo a perspectiva de Jan Murakovsky, o caráter semiológico da arte diz respeito tanto à obra de arte como signo autônomo, como também se refere ao contexto dos fenômenos socias criadores de uma consciência coletiva, propondo uma modificação da relação com a realidade objetiva e, portanto, uma modificação com a utilização usual dos signos. Um signo é um fato sensorial que se refere a uma realidade, que por meio dele pretende se evocar. Qual seria então a natureza dessa realidade a que se refere à obra de arte como signo? A obra de arte como signo é constituída pela significação que se encontra na consciência coletiva, se trata de uma realidade indefinida, em movimento, que está em permanente relação dialética com as outras esferas da cultura. Fazendo com que a arte enquanto fato semiológico possua uma dupla existência, tanto no mundo dos sentidos como na consciência coletiva.


A interpretação da arte como fato semiológico deve ser pautada pela dupla função semiológica da obra de arte: como signo autônomo de caráter simbólico e como signo comunicativo - dependendo a própria existência da arte da coexistência dessa dupla função, uma vez que a obra de arte reduzida à sua função comunicativa opera a diluição da forma artística nas outras formas de comunicação, operando o seu desaparecimento pela aniquilação da função simbólica.

Mais um exemplo. Para alimentar o debate, Sofia Bonati


Em última instância o procedimento da semiótica em relação às artes se trata de tornar objetivo o que se apresenta na obra como subjetivo, ou de explicitar os significados daquilo que se manifesta, os sentidos por de trás da aparência. Não se trata de uma redução ou de uma explicação, mas justamente de uma expansão do sentido e do significado através da análise das múltiplas relações e significações que podem ser extraídas da forma artística, em diálogo com o contexto cultural em que se encontra inserido tanto a obra como a análise semiótica. A semiótica das linguagens artísticas constrói uma interpretação dos fenômenos artísticos buscando a sua essência, traduzindo o que vê em discurso com o intuito de buscar os significados e relações que se escondem por de trás de uma aparência imediata, mas que nos afetam mesmo que a um nível inconsciente.


Para finalizar gostaria de aludir à análise semiótica que Michel Foucault realiza a partir do quadro “As meninas” do pintor espanhol Diego Velázquez, com objetivo de incentivar o leitor do presente texto e a buscar na análise de Foucault um exemplo concreto de Análise Semiótica aplicada às artes, podendo assim, ajudar na compreensão daquilo que em teoria se apresenta em abstrato.


Tal análise se encontra no primeiro capítulo de seu livro intitulado “As palavras e as coisas”, onde o autor propõe uma análise detalhada do quadro de Velázquez, buscando compreender a obra em todas as relações que se pode fazer entre seus componentes internos, em relação com o propósito do seu livro em questão- que se trata de traçar uma arqueologia do conhecimento humano a partir das mudanças ao longo da história nos modos em que as palavras e as coisas se relacionam.


Com a sua análise do quadro, o que Foucault nos propõe é um estabelecimento de relações entre palavras e imagens a partir das incertezas e ambiguidades presentes no quadro, sem que seja possível estabelecer uma regra geral ou uma hierarquia entre as linguagens. O quadro de Velázquez e as palavras de Foucault são irredutíveis entre si. O pintor se coloca em seu quadro assim como o filósofo se coloca em seu texto, o pintor olhando para o futuro, entrevendo a crise iminente do barroco e, o filósofo, para o passado, buscando desvelar os sentidos do olhar do pintor fixado na tela, que o observa desde um passado que fez germinar o seu presente.


Referências:

ABBAGNANO, N. Dicionário de filosofia. São Paulo: Martins Fontes, 2007.

BARBOSA, J; DESCARDECI, M. Percurso para compreender a semiótica: a cooperação entre epistemologia e o histórico da semiótica. In: Estudos semióticos, vol 8, nº1 (junho 2012). <www.fflch.usp.br/dl/semiotica/es>

BAUDRILLARD, J. El complot del arte. Ilusión y desilusión estéticas.

BARTHES, R. Elementos de semiologia. São Paulo: Editora Cultrix, 2017.

CASSIRER, E. A filosofia das formas simbólicas. São Paulo: Martins Fontes, 2009.

CAMPOS, H. Entrevista: Semiótica como prática e não como escolástica

<https://www.researchgate.net/publication/50361366_Haroldo_de_Campos_Semiotica_como_pratica_e_nao_como_escolastica>

ECO, U. Semiótica e filosofia da linguagem. São Paulo: Editora Ática, 1984.

FOUCAULT, M. As palavras e as coisas. São Paulo: Martins Fontes, 2000.

MUKAROVSKY, J. Escritos sobre estética e semiótica da arte. Lisboa: Editorial Estampa, 1988.

PEIRCE, C. Semiótica. São Paulo: Editora Perspectiva, 2008.

SANTAELLA, L. O que é semiótica.São Paulo: Editora Brasiliense, 1983.


Pesquisa de imagens: https://lugarnenhum.net/arte/geometria-psicodelica/


Ao leitor, obrigado por ler o nosso ensaio.


,Sobre o autor:


O autor Alexandre Gnipper Trevisan é músico, poeta, filósofo, dramaturgo e professor de filosofia, sociologia e artes.




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