• ,Deus Ateu

,O Poço - Estética e sociedade

Atualizado: Out 29

Por Alexandre Gnipper.

Trimigasi lendo Don Quixote


Uma crítica ao realismo ou um elogio à fábula.


Segundo Giorgio Agamben o trabalho do artista depende da capacidade de enxergar as trevas em seu próprio tempo. Atuando assim como um catalisador das contradições do espírito de seu tempo, o contador de estórias deve revelar o negativo da imagem do social. Sob uma perspectiva crítica, toda produção estética constitui uma partilha do sensível que contamina o inconsciente estético de imagens e sentidos, denotando que toda produção, no plano da cultura, possui intrínseco caráter político. Agindo no campo de batalha, que é o imaginário coletivo, o filme O Poço explícita o jogo de forças que agem sobre os nossos fantasmas e que vêm significar-se e consumir-se na imagem, não como real mas sim como vertigem da realidade.


Em um cenário cultural aonde o realismo impera no universo das narrativas, O Poço nos faz atentar para a metáfora e o símbolo como potências e instrumentos de descortinar o dito real, constituindo uma metáfora tão radical sobre a tessitura do social que acaba por se tornar obscenamente explícita. O filme nos apresenta uma leitura sobre o mundo dividido em classes sociais que ultrapassa as análises puramente classistas, se dirigindo à relevância do fator humano que habita e reafirma uma estrutura social marcada pela desigualdade.


No filme, o protagonista desperta em um poço com um buraco no meio, dividido em várias camadas, cada uma habitada por duas pessoas. Pelo buraco desce uma plataforma com um banquete que estaciona por um curto intervalo de tempo em cada andar. Sabe-se aonde começa o poço mas não se sabe aonde termina. Nessa distopia social marcada pela falta de empatia e cooperação quem está em cima come mais do que quem está em baixo.


Até este ponto a relação que a narrativa busca estabelecer com a realidade é bastante referencial, no entanto, no mecanismo estabelecido pelo sistema do poço a cada trinta dias as pessoas são aleatoriamente transferidas de camada, sem saber se no final de cada período serão transferidas à uma camada de fartura ou de escassez. O que se revela no decorrer da história é que tal procedimento de alternância de condições materiais, constituindo um experimental social macabro, possuiria como função despertar nas pessoas o sentimento de solidariedade para com aqueles das camadas inferiores, uma vez que se todos comessem somente o necessário haveria comida para todos, mas tal objetivo resplandece sob o signo da falência.


Dentro deste sistema rotineiramente disfuncional, e que revela o egoísmo dos indivíduos particulares, a normalidade instaurada é rompida pela presença do protagonista. Único personagem a optar por levar um livro (não por acaso “Dom Quixote”) ao confinamento, ele representa o poder da educação e da cultura como instrumentos de tomada de consciência. Ele é o único a enxergar que o bem estar de todos pode ser alcançado pela união da coletividade em prol do bem comum. Assim inicia sua desventura quixotesca em nome da conscientização coletiva, jornada esta marcada por decepções e aprendizados


A primeira tentativa se dá na base do diálogo, em seguida ele recorre à força. Ambos artifícios fracassam. Só então ele se dá conta de que precisa se comunicar através de um símbolo, algo que represente a falência do mecanismo “o poço” e que possa ser transmitido ao andar inicial, aquele em que é preparado o banquete. Ele quer raquear o sistema, e acaba revelando em seu percurso a barbárie coletiva e a miséria do indivíduo autocentrado, mas nem por isso deixa de acreditar na possibilidade de que seu gesto simbólico possa alterar as condições grotescas às quais são submetidos.


As ações dos indivíduos, encerrados em suas perspectivas individuais, resultam na guerra de todos contra todos, acabando por desprezar o fato de que a realidade a qual estão submetidos é resultado de suas próprias ações particulares, que coletivamente instauram um universo de condições de escassez e competitividade. A postura de aceitação passiva acaba sendo decorrente da falta de visão sobre uma perspectiva mais ampla, universal, do sistema. Construindo um mundo a partir de sua solitária passividade os indivíduos acabam por esquecer que, coletivamente, são os construtores desta realidade.


Assim como faz Beckett, O Poço explora o drama social a partir de seus fundamentos, tanto de suas estruturas dramáticas como das sociais; e assim como Brecht o filme explicita estes fundamentos derrubando a parede que nos faz ver a realidade como dado e a revelando como resultado de escolhas e ações individuais. O poço, tanto o filme como a estrutura, se trata de um mecanismo simbólico que instiga à reflexão sobre a realidade a partir de uma perspectiva não realista e, em última análise, sua efetividade é fruto dessa recusa à forma realista. Afinal, “somente podemos dialogar com a dimensão do inconsciente se utilizando da linguagem que lhe é específica” (JODOROWSKY): o universo simbólico.


Afinal, o realismo possui como efeito último a afirmação do real, o que leva a aceitação de suas contradições como dados insuperáveis. Somente a linguagem metafórica, ou simbólica, seria capaz de dissimular a simulação a qual nos habituamos a aceitar como normalidade, como dado.


Se a forma a realista busca expressar a realidade como ela é a produção dessas imagens do real possui como meta encobrir o fato de que são produzidas, o consumo de tais imagens constituem nossa tranquilidade, assegurada pela distância que nos separa do mundo e, desta maneira, pela exclusão máxima da realidade. Somente aquelas imagens que não se apresentam como sendo o real são capazes, portanto, de nos aproximar do real, uma vez que não pretendem se dissimular como sendo produzidas, como sendo arte. Grosso modo toda a arte é um simulacro, mas isto não significa que todas as suas formas se igualem.


No realismo a relação pulsão e apaziguamento transparece na imagem para nela ser ao mesmo tempo consumido e recalcado o mundo real, o acontecimento e a história. Consumimos o real a distância. Trata-se da recusa do real baseada na apreensão ávida e replicada de simulacros que, de alguma maneira, justifiquem a conduta hedonista, como estratégia do desejo de desculpabilizar a passividade.


Se a realização ideal do realismo é o documentário, a grande aceitação de narrativas realistas se justifica por nos apresentar um real que se dissimula como ficção, instaurando um distanciamento que simula uma aproximação, como se fossemos seduzidos por um real cuja crueza não conseguimos suportar a não ser como simulação de realidade.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

AGAMBEN, G. O que é o contemporâneo?

BAUDRILLARD, J. A sociedade de consumo.

BAUDRILLARD, J. Simulacro e Simulação.

FREUD, S. O poeta e o fantasiar.

JODOROWSKY, A. Psicomagia.

NIETZSCHE, F. A visão dionisíaca do mundo.

RANCIÈRE, J. A partilha do sensível.

RANCIÈRE, J. Políticas da escrita.


Ao leitor, obrigado por ler o nosso ensaio.


,Sobre o autor:


O autor Alexandre Gnipper Trevisan é músico, poeta, filósofo, dramaturgo e professor de filosofia, sociologia e artes.

Estamos em movimento. Inscreva-se hoje!

  • Grey Facebook Ícone
  • Grey Instagram Icon
  • Grey Twitter Icon
  • Grey Facebook Ícone
  • Grey Instagram Icon
  • Grey Twitter Icon