• ,Deus Ateu

,O homem oco - Um conto de Nick Farewell

Atualizado: há 4 dias

De Nick Farewell e Junior Santos.


“É assim que acaba o mundo.

Não com um estrondo,

mas com um gemido.”

Os homens ocos

T. S. Eliot

Ilustração de Junior Santos (especialmente criada para o texto O homem oco)


O horror. O horror. O capitão Kurtz sempre repete essas palavras toda vez que encontra pela frente uma cena como esta. Duas crianças mortas e um pai suicida. Mas isso é a sua rotina. Ontem mesmo, baleou um traficante que teve que levar até o hospital. Logo depois que ele foi transportado até o IML e o mal-estar aumentou quando soube que era um de menor. Daremos um jeito. Disse o tenente Sanches com um amargo sorriso complacente. Kurtz era um soldado exemplar. Três promoções em dois anos. Capitão aos 28. O melhor aluno da escola preparatória, o mais promissor oficial da sua companhia. Mas há algum tempo ele anda preocupado. Começara a beber. Não conseguia mais permanecer insensível. A sua vó dissera quando criança. Você tem coração frágil. A preocupação aumentou na primeira visita ao médico. Ele disse depois de olhar o raio X. Estranho. Muito estranho. Está faltando um pedaço do seu fígado. Não, não se preocupe. O estranho é que isso não está interferindo no funcionamento do resto do seu corpo. É como se não fizesse mais falta.


Kurtz saiu atônito. Parou de beber. Disse que ia voltar na semana que vem. Enquanto corre pelo beco, de repente lembra que pode não ter mais fígado. Um tiro. Abaixa. Fecha a rota de fuga. Toninho, vai pela rua de trás. Júnior, cerca pelo fundo. Era uma denúncia anônima. Suspeito de um crime hediondo. Estupro seguido de morte. Outro tiro. É o Toninho. Kurtz corre o mais rápido que pode. Não confio muito nesse Toninho. Tem o ódio nos olhos. A cena é terrível. Um homem baleado na cabeça está caído a poucos metros do Toninho. O soldado treme e continua apontando o revólver para a cabeça do homem já morto. Murmura. Ele não merecia viver... Não merecia… Júnior chega pela rua de trás e fica cabisbaixo. Kurtz já não sabe mais o que fazer, nem o que sentir. O que não sabe é que nesse exato momento, o seu estômago desaparece. Todo aparelho digestivo deixa de existir no seu corpo. E o pior ou melhor, sequer se dá conta disso. A única coisa que sente é que toda aquela cena não causa mais nenhuma reação.


Kurtz volta ao médico. O médico faz cara de espanto. É impossível. Todo o seu aparelho digestivo desapareceu. O seu fígado, pulmão, baço... Está faltando um lado da traqueia. O seu sistema auditivo não existe!


O capitão sorri. Eu sei. Eu já não ouço mais gritos de pessoas mortas à noite. O único órgão que existe é o coração. O médico fica estupefato. Como esse homem continua vivo? O que está acontecendo? Kurtz se levanta. Doutor, esta é a minha última visita. Esses sumiços de órgãos não afetam a minha vida, certo? E para mim também não faz a menor falta. Então, licença. Vou continuar vivendo.


Ele sai pela porta do consultório se sentindo ótimo. É um dos poucos homens que sabe sobre o seu destino. Kurtz divaga sobre o porquê da sua escolha. Sou um policial. É isso que eu sou. Nada mais. Recebo ordens e cumpro. Chamada urgente. Um filho aparentemente drogado ameaça matar a mãe. Sanches é rápido. Kurtz nunca sentiu tanto o barulho da sirene. Nunca se orgulhou tanto da sua patente. A sua arma nunca pareceu tão reluzente como agora. Vinícius anuncia. É polícia! Mais uma cena terrível. Kurtz já não se abala mais. O corpo de um homem jaz no chão. Possivelmente o pai do homem que ameaça agora a sua mãe com o revólver. Está drogado. Passa repetidamente no nariz a manga da sua camisa. Sai fora! Mato essa mulher! Kurtz oscila entre frieza e ironia involuntária. Essa mulher é sua mãe. Larga a arma. A mulher está no pior estado possível. Não diz nada. Não sente, não mexe, não pisca.


Toda cena mergulha numa poça de sangue e silêncio absoluto. É o pior estado de um refém. Quando chora ou esperneia é porque ainda existe algum sentido. Mas quando entra nesse estado, significa que sabe e sente que não há mais saída nem esperança. Para ela, estar viva ou morta, já não faz mais a menor diferença. Droga. Ele esboça um sorriso que não consigo compreender. Não. Eu sei o que significa. Não! Um tiro. Todos viram o rosto. O cheiro de pólvora misturado com sangue é insuportável. Mas eu não sinto mais nada. Kurtz levanta o braço. Outro tiro. Todos saem cabisbaixos.


Nesse exato momento, o coração do Kurtz desaparece. O horror, o horror. As palavras viram eco dentro do seu corpo vazio. Ecoando para sempre sem encontrar a saída de um homem completamente oco. Só resta saber se quando a sua alma abandonar o corpo a sua essência vai continuar existindo. Enquanto isso, as palavras ficam ecoando infinitamente.


Ao leitor, obrigado por ler o nosso conto.


,Sobre os artistas:


Nick Farewell, publicou 7 livros e o primeiro romance GO foi escolhido pelo MEC e está nas bibliotecas dos colégios do Brasil todo. Outras obras são: "Manual de Sobrevivência para Suicidas (Poesia, 2010), "Mr. Blues & Lady Jazz"​ (Romance, 2011), "Uma Vida Imaginária"​ (Romance, 2012) e "Reversíveis" (Teatro, 2013), "Não existem super-heróis na vida real" (HQ, 2017) e "Valdisnei Um Dois Três Quatro da Silva" (Romance, 2017). Participou também de seriado "Destino São Paulo" (HBO, 2012), "Tempero Secreto" (GNT, 2016), longa Superpai (2015), Porta dos Fundos (FOX, 2017). Foi finalista dos prêmios New Hampshire Theater Award de melhor texto e peça (EUA, 2016), Prix Jeunesse de melhor animação (2017) e Roteirista no Prêmio HQ Mix (2018).

Instagram: @nickfarewell


Junior Santos, tem vinte e quatro anos, é artista plástico, ilustrador e quadrinista profissional autodidata, nunca se formou em nenhuma das áreas em que atua profissionalmente, com exceção do cinema. É formado em atuação e arte cinematográfica pela “Verzini Escola de interpretação e cinema”.

Começou sua carreira profissional aos 19 anos trabalhando como ilustrador e artista conceitual para filmes, desenhando e criando storyboards e personagens. Dois anos depois migrou para os quadrinhos, e criou sua primeira HQ “A Rua da Luz Vermelha”. Em 2019 com 23 anos sua HQ participou do concurso online criado pela plataforma de quadrinhos “AGAKÊ” no qual foi campeão. Atualmente trabalha ilustrando livros, contos, capas de discos e quadrinhos.

Instagram: @juniorsantti



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