• ,Deus Ateu

,Sobre o documentário da Netflix, O Dilema das Redes

Atualizado: Set 29

Por Marcio Tito.


Esse modelo de apreciação é uma das coisas que mais me dá prazer aqui no Deus Ateu. Produzir conteúdo enquanto se conversa com um amigo, despretensiosamente, mas com os nossos saberes em latência. É um modo de eleger a oralidade, a informalidade e a intimidade como vetores relevantes para a organização do mundo ao nosso redor. Alexandre Gnipper, autor já publicado aqui no Deus, é quem debaterá comigo o documentário O Dilema das Redes, original da Netflix. Sem objetivo ou forma antes pensada, aqui estarão as nossas intuições:

Cartaz do documentário " O dilema das redes ", de Jeff Orlowski


MT – Alexandre, estou preocupado rs... Mesmo que sejamos amigos há vários anos, será que eu o escolhi para essa conversa, ou será que fui influenciado pelos metadados?


Alexandre – Pois é, Tito, são tempos de muitas dúvidas...


MT – Mas vamos falar sério... Eu acho que esse documentário contém uma coisa interessantíssima em sua receita, e essa coisa está apontada logo na epígrafe, que é uma frase do dramaturgo grego Sófocles. Ou seja, a dramaturgia é quem dará o tom da coisa toda. E há algum tempo, o Yuval Noah Harari, autor de “Sapiens” e “Homo Deus”, mais ou menos vai falar em um de seus livros que o triunfo do “bicho homem” sobre todos os outros animais se deu muito pela sua capacidade de criar narrativas, de produzir contextos capazes de agrupar sujeitos ao redor de objetivos. Bom, o Facebook nada mais é do que uma sobreposição quase infinita de narrativas que buscam o outro. Uma curtida, um comentário, um compartilhamento. Tudo isso narra algo, narra sobre algo. Como é que te parece começarmos essa conversa falando disso? Dos roteiros, dramaturgias e enredos que se criam nesse ambiente...


Alexandre - As bolhas virtuais têm isso de criar narrativas personalizadas, diferente da TV por exemplo que centraliza um discurso hegemônico. Sermos todos agentes de produção e compartilhamento de conteúdo não significa que tenhamos algo de interessante a dizer, mas certamente encontramos um canal para divulgar o que pensamos. O problema mesmo é a questão da “bolha”, isso anula o contraditório e a própria dialética mesmo, sem antítese não há síntese, não há troca, ficamos eternamente presos à tese, sem contradição, sem movimento. As ideias se congelam em torno do “mais do mesmo”. Isolados em nossas ilhas de opinião. É notório como o radicalismo e o extremismo tem se acentuado em nossos tempos. E a tese do doc é justamente que esses são fenômenos motivados pelas redes sociais. Em termos dramatúrgicos se trata da construção da sociedade do “não-diálogo”, da “não-oposição” de ideias. No final, me parece um elemento regressivo em nossa sociedade que realmente não sei aonde irá nos levar. Acho que o desafio parte por entender como a sociedade da informação se transformou na sociedade da alienação.


MT – Você falou das bolhas, do radicalismo e dessa tese que nunca ganha alguma síntese. Essa eterna divagação acerca do incerto e que de alguma forma procura um incerto para eleger, é muito próxima do autoritarismo, penso. O autoritarismo enquanto tese inegociável, justamente porque detida dentro da impossibilidade de duvidar ou ser duvidado, entende? Em algum momento do filme eles nos dizem que existiu um tipo de projeto voltado a fazer votar aqueles que não teriam de fato esse desejo, do voto, caso não fossem manipulados pela organização dos “designers do desejo” que constroem as redes sociais. Agora percebemos que os sujeitos têm votado de modo a revelar o fenômeno doentio que vivem e que é expressão maior dos ressentidos com e contra a partilha do social. Você percebe que esse projeto nos apresenta de fato aqueles que não deveriam talvez conversar com a coisa pública, ou essa minha fala já contém em si um ingrediente antidemocrático? rs


Alexandre - O autoritarismo tem suas raízes no ódio, na incapacidade da alteridade, e é um fenômeno anterior às redes sociais. Afinal a história nos prova que é mais fácil mobilizar uma maioria para perseguir judeus do que para ajudar uma minoria. Embora as redes sociais nos manipulem elas são apenas uma ferramenta. Se os usuários dessa ferramenta são mais mobilizados pelo ódio do que por sentimentos positivos essa ferramenta vai expressar isso de alguma maneira. O voto também acaba sendo uma ferramenta de expressão do ódio para aqueles que odeiam e de insatisfação para os insatisfeitos. Mas quando se trata de pensar a democracia, acredito que a grande questão é como as pessoas percebem a realidade, porque é essa percepção que mobiliza as suas escolhas. Na era das fake news fica claro como as percepções individuais da realidade são facilmente manipuláveis e de que no fundo não votamos movidos pela razão, mas sim por sentimentos profundos. O voto acaba sendo uma expressão do que percebemos e do que sentimos. Se um algoritmo for capaz de influenciar essas instâncias então o ato de votar acaba sendo um teatro que sustenta um simulacro de democracia. Mas de alguma maneira esse problema sempre esteve posto e, agora com os algoritmos, se trata de um mecanismo de manipulação mais refinado. Theodor Adorno escreveu que uma democracia só é realizada em uma sociedade de indivíduos autônomos. Para ele o problema girava em torno da educação e da cultura. Certamente ele ficaria abismado com a dimensão que a questão atingiu na era moderna.


MT - Falando em educação e cultura, vamos falar da cultura enquanto distribuidora da educação e da arte. A cultura enquanto ato de partilha das nossas filosofias, cosmogonias... Mas no caso das redes sociais, por que é que a cultura em si me parece muito mais com um modelo de exaltação do sujeito e cultivo da própria imagem? As pessoas se educando por meio do Facebook e por meio dos narcisos que atravessam o feed de notícias... Como vai a cultura e a educação no espaço digital e interativo?


Alexandre - Acho muito cedo pra entender as consequências das redes sociais para a cultura de um modo geral e para a educação. Mas hoje o que salta aos olhos é como, mesmo sendo um simulacro de interação- já que é mediado pelas telas- esse novo tipo de interação virtual tem capturado a atenção e o tempo das pessoas. Cada vez se lê menos, livrarias e editoras vêm decretando falência sucessivamente. E nós simplesmente não podemos pensar em uma educação sem os livros. Ler o um livro é também uma forma de aprender a ler o mundo, de fazer brotar pensamentos e intuições, a partir de um objeto fechado que sempre nos convida à uma reflexão, diferente da infinitude da linha do tempo de uma rede social que nos bombardeia de informações das quais não iremos nos lembrar no dia seguinte. Trocar os livros pelas redes sociais é um negócio bastante arriscado. É como se o excesso de informações nos preenchesse de um vazio, sem forma e sem conteúdo. Novos hábitos criam novas subjetividades. Parece que as subjetividades são cada vez mais controladas por algoritmos e por bolhas de conteúdo. O que é absolutamente nocivo não só para a democracia como para a cultura e a educação...


MT – O teatro e a arte de modo geral, tradicionalmente, nos oferecem uma catarse que aparece sempre depois do enredo. No facebook, tenho a impressão, a catarse está sempre ali. A catarse antes do enredo até! Catarse pós catarse, sensação sob sensação, um gozo automático e sumário, embora sempre ansioso. Receber, enviar mensagens, vistoriar as atividades dos colegas... Bom, estou sendo meio reflexivo, mas o que eu quero te colocar é mais dentro do filme, um pouco. Em alguma medida o que aparece no documentário é o homem branco, ocidental, economicamente ativo, como sendo a “vítima” desse capitalismo de vigilância. Como quando a Europa se revoltou com o nazismo porque estava posto ali o mesmo campo de concentração usado contra a África, pelos portugueses, mas agora reposto contra brancos europeus, e aí sim produziu-se com urgência um “Dia D”. Ou seja, brancos sendo tratados como africanos é o que se coloca mesmo como barbárie. Enfim, é uma elaboração que não vai ter interrogação no final... Mas já me parece que o capitalismo de vigilância não ganharia um documentário tão atencioso se estivesse “apenas” violando o desejo de africanos..


Alexandre – Perfeito, Tito. Se trata de sucessivas catarses sem enredo, sem narrativa. E historicamente sabemos o papel político que as narrativas hegemônicas possuem. Uma narrativa é também um elemento de dominação política. Ao se compartilhar a função de narrar a realidade, seja com os usuários ou com os algoritmos, a narrativa hegemônica se dilui, seja na “não-narrativa” ou nas infinitas narrativas possíveis. Se trata de uma quebra histórica em estruturas de poder moldadas ao longo dos séculos. O que fica evidente ao se tratar de uma história de “Frankstein”, onde a criatura foge do controle do criador. Mesmo o capitalismo quando surgiu em sua forma industrial trouxe a promessa de criar um mundo de abundância, quando o que se realizou foi o aumento das desigualdades e uma economia pautada pela escassez. Algo parecido parece ter acontecido com a internet, criada com a promessa da informação ao alcance de todos. Seu surgimento veio carregado de esperanças de melhorias que poderiam ser trazidas para o ambiente democrático. Agora o documentário nos aponta justamente para o oposto. No final, ambos os fenômenos de decepção quanto as expectativas são fruto de uma cultura e uma mentalidade em que o lucro determina os objetivos e as ações.


MT – Ale, esse formato aqui é uma livre associação intuitiva acerca de dúvidas rs, uma conversa despretensiosa, mas engajada naquilo que você e eu organizamos enquanto artistas, pensadores. Dentro disso, é muito instigante ver a sua organização. Você pega as referências e coloca cada qual na brecha que completa a dúvida seguinte, e não alguma potencial certeza acerca do que está posto em debate. Olha, você tem um trabalho em cima do Baudrillard, certo? Dá pra gente um panorama acerca do que você tem tratado com este autor, e produz algum link com o documentário, é possível?

O sociólogo e filósofo francês Jean Baudrillard (1929-2007)


Alexandre – Sim, Tito. O link é inevitável. Sobretudo por Baudrillard ser um dos poucos filósofos mundialmente conhecidos que assistiu ao advento da internet. Mesmo tendo falecido antes da era do Facebook suas reflexões não eram nada otimistas quanto aos rumos de nossa sociedade global. Seu trabalho gira em torno de uma caracterização do imaginário coletivo de seu tempo, que segundo ele é pautado pelo princípio da simulação ou do simulacro. Para ele o simulacro é a criação de uma hiper-realidade, mais real do que o próprio real, esse seria o crime perfeito pelo qual se aniquilaria a realidade, e do qual a cultura seria cúmplice. São reflexões dos anos 70, de uma época anterior as televisões de alta resolução ou aos reality shows, mas de alguma maneira significam de maneira muito palpável o que assistimos hoje. Suas reflexões partiram de um olhar para o surgimento das massas, onde as massas não seriam uma nova configuração do social, mas justamente a sua implosão. Seria então o advento das massas o fenômeno responsável pela crise do modelo de subjetividade moderna, pautada pela individualização subjetiva, substituída então por subjetividades massificadas, suscetíveis aos mesmos padrões mentais que as fazem consumir as mesmas mercadorias, a ouvir as mesmas músicas, a ver os mesmos filmes. Se trata da criação de um molde, de um padrão de subjetividade que se replica ad infinitum.


De alguma maneira também se trata da substituição da jornada do herói pela reafirmação do instinto de rebanho. A massa que se move em manadas é que cria a cultura do cancelamento, do linchamento virtual. É muito mais instintivo o ato de dar um like do que acompanhar uma narrativa. Um simulacro é a substituição de uma realidade pela sua simulação, oferecendo experiências substitutivas para necessidades tanto reais como construídas artificialmente. O Facebook não faz outra coisa se não nos oferecer aquelas informações que justificam nosso modo de pensar, sejam essas informações reais ou não. Se trata de um refinamento da simulação à qual alude Baudrillard.


MT – Tradicionalmente interrompo o papo quando me parece que já trouxemos matéria suficiente para o Google dos leitores rs. Acho que quem chegou até aqui pode, se quiser, correr atrás das nossas provocações. Você foi super abrangente e determinado na questão central. Trouxe um papo com o peso dos autores que busca no passado e presente e com o fôlego do jovem que você é. Valeu! O que acha?


Alexandre - Legal, eu que agradeço a oportunidade de trocar essas ideias, é sempre bom ter um estímulo à reflexão e poder colocar as ideias pra funcionar na troca.


Ao leitor, obrigado por ler o nosso ensaio.


,Sobre o convidado:


O autor Alexandre Gnipper Trevisan é músico, poeta, filósofo, dramaturgo e professor de filosofia, sociologia e artes.


Instagram: @alexandregnipper



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