• ,Deus Ateu

,Nelson Rodrigues – Uma entrevista com Priscila Gontijo

Atualizado: há 4 dias

Por Marcio Tito.

Foto exposta na mostra "Nelson Brasil Rodrigues – 100 anos do Anjo Pornográfico"


Entrevista captada via aplicativo Whatsapp.


MT Priscila, como você descreveria para alguém que não teve contato com a obra de Nelson Rodrigues o estilo do autor? Quer dizer, segundo qual ângulo o dramaturgo fica mais nítido? Nesse momento eu quero definir qual Nelson discutiremos.


PG Oi, Tito. Para quem não conhece a obra do Nelson... Eu não gosto de terminologias estanques e nem Nelson gostava, mas o Sábato Magaldi, que foi um crítico muito importante que organizou o teatro completo do Nelson, eu acho, dividiu de uma forma interessante para conhecer a obra. O primeiro volume é de peças psicológicas, o segundo de peças míticas, o terceiro volume de tragédias cariocas e o quarto de tragédias cariocas II. Eu acho que a tragédia carioca, essa terminologia de tragédia carioca, ela é a melhor forma para distinguir a obra do Nelson. O Nelson acordou com o Sábato, com essa divisão, apesar de saber, e o Sábato saber também, que as peças psicológicas tinham um pouco de míticas e as míticas um pouco de tragédia carioca. Foi só uma maneira de organizar a obra. Eu vejo o Nelson como um autor de tragédias, só que com humor. Então “tragédia carioca” resume bem isso. É um escritor único e, quando o autor é único e ele é muito original, fica difícil colocá-lo em algum termo, em alguma terminologia. O que o Nelson escreveu modernizou o teatro. Ele é pai do teatro moderno brasileiro. Tem gente que discorda disso e isso também não é um vaticínio rs, ou uma frase determinista. Mas, de alguma maneira, ele revolucionou sim a linguagem teatral porque, antes do Nelson, a escrita principalmente na dramaturgia, tinha algo de pomposo, de literário, literário no sentido de “não teatral”, digamos.


O Nelson poetizou a gíria carioca. O Nelson era jornalista, começou aos treze anos trabalhando em jornal, ele era repórter, repórter policial. Então desde muito pequeno - porque o pai dele era dono de jornal e os irmãos trabalhavam em jornal- ele esteve exposto tanto à linguagem das ruas, porque ele era repórter policial, de crimes mesmo, quanto ele esteve exposto às tragédias pessoais. Viu o irmão ser morto na frente dele, dentro da redação, por uma mulher que queria matar o pai, Mário Rodrigues e, não encontrando o Mário, matou Roberto. O Roberto Rodrigues era caricaturista e que desenhava muito bem!


O Roberto influenciou muito a obra do Nelson. Era um sujeito melancólico, de uma obra melancólica, trágica, tensa. Com traços expressionistas, e eu acho que isso influenciou muito a obra do Nelson, assim como as tragédias pessoais. Essa morte do Roberto por essa mulher que veio matar o pai deles, porque saiu no jornal uma notícia de adultério sobre ela, e, não encontrando o pai deles, mata o Roberto na frente do Nelson, essa morte é fundamental para a obra que vem posteriormente. A obra do Nelson é marcada por adúlteras, crimes e assassinatos. Ele falava “criei o teatro desagradável”. Ele falava muito isso: “Criei uma obra desagradável, mórbida”. A morte está muito presente na obra e na vida do Nelson. Mas o Nelson tinha muito humor e tinha um olhar muito agudo para a realidade. Não só por conta de ser um grande leitor de romance e um grande leitor de Dostoiévski. Ele falava muito da obra de Dostoiévski.


Ele é ultra influenciado pela obra dostoiévskiana, que é trágica também, tensa, forte, polifônica. Ele foi influenciado pela leitura de diversos romancistas, até romancistas de menor quilate. Ele gostava dos romances de folhetim, digamos assim, “menos refinados”. Ele leu de tudo, era um leitor voraz de romances. O pai era dono de jornal, então ele tinha esse contato frequente com todos os jornalistas. Ele cresceu no jornal, cresceu na redação, então ele tinha esse ímpeto na escrita, da “urgência da redação de jornal”. Isso está presente em toda a obra: “Boca Ouro” é uma obra que corta toda hora pra redação do jornal, então você acompanha várias tramas, várias camadas, várias camadas de conflitos e três versões da mesma história. Então você vê que é um cara muito influenciado pelo cinema, pelo romance, pelas entrevistas, pela linguagem cotidiana e de rua.


E pelas leituras, principalmente por Dostoiévski. A função como repórter foi fundamental para a criação do teatro do Nelson e pra essa dramaturgia inovadora, onde ele colocava a linguagem popular na boca das personagens e isso era único e inovador. Tanto é que ele foi diversas vezes ele foi criticado – Isso é teatro? E diziam: Isso qualquer um faz, escrever assim qualquer um consegue! E ele dizia – Mal sabem as pessoas o trabalho que isso me dá! Porque na realidade o que havia ali era um garimpo de frases muito grande.


Ele poetizou a gíria. Ele fez uma mistura de “linguagem das ruas” com a linguagem refinada. Ele descobriu uma linguagem teatral muito próxima das ruas e extremamente poética! Concisa, telegráfica e urgente. Sem palavras desnecessárias, sem brincos e colares, sem enfeite! Era uma linguagem... não gosto de “essencial”, mas é isso, só o que seria necessário para o conflito se estabelecer...


MT Priscila, é muito bom te ouvir falar sobre isso. É saboroso. Bom, me surgiu outra questão a partir da sua colocação - esse tragediógrafo da vida brasileira que tocou a linguagem com tanta singularidade e opinião, parece indissociável daquilo que entendemos como "questões cotidianas", ainda porque foi jornalista por vocação e profissão. Partindo dessa "definição" fica difícil fugir do exercício de "trazê-lo" forçadamente ao que se passa entre nós atualmente. Priscila, na minha mente algumas frases “rodriguianas” disputam o nosso contexto mais explícito, quero dizer, tanto vejo aquele "nunca amou quem não quis morrer junto da pessoa amada" como subterfúgio retórico para minimizar a importância de uma quarentena diante do amor épico, quanto vejo Nelson apontando o cuidado com o ser amado, como máxima para um amor perfeito e ideal. Isso é muito mais uma reflexão do que uma pergunta rs... E você, já pensou sobre isso? Alguma intuição ou provocação nesse sentido?


PG – O que me vem disso que você escreveu é que o Nelson era um frasista. Ele criava “máximas”! Ele conseguia um “efeito das frases”. Há um conceito criado pela Flora Sussekind, na verdade criado pelo próprio Nelson, mas que a Flora conseguiu analisar muito bem, chamado “fundo falso das frases”. Ela conceitua isso a partir do “Bonitinha, mas ordinária” – em que o Edgar diz à Ritinha: “Essa frase tem um fundo falso, e a verdade está lá dentro.” Através de silogismos, paradoxos, hipérboles, o Nelson cria um efeito com esse fundo falso, então não dá para levar ao pé da letra, entende?! Primeiro que ele era muito irônico! E segundo que ele usava do senso comum para, de alguma maneira, subverter o senso comum.


O Nelson não era um inimigo do clichê e do senso comum, pelo contrário, ele se utilizava do senso comum e dos clichês para encarar o absurdo do clichê, o absurdo do senso comum que a gente usava sem se dar conta do absurdo que tem “ali dentro”. E o paradoxo “o casto é o tarado”, não é bem essa a frase rs. Até os títulos são paradoxais. “Perdoa-me por me traíres!” Toda a obra dele é construída em cima do paradoxo. Então “quem nunca desejou morrer com o ser amado não sabe o que é o amor” está sim construído em um “universo rodrigueano”, que leu muitos romances do século XIX, como eu disse, um dostoiévskiano nato, que leu Balzac, Vitor Hugo e é intenso! O Nelson tinha uma intensidade, uma tragicidade e um senso da realidade muito específico e idiossincrático que tem a ver com as tragédias pessoais que ele viveu, e com a sua personalidade intensa, telúrica- tanto é que a obra dele tem uma tinta muito forte. É trágica. Exagerada. A construção frasal do Nelson é através da hipérbole, do paradoxo! “O mineiro só é solidário no câncer!”, mas o Nelson tinha essa visão moralista também, de casar, de conhecer o amor, mas, ele tinha também uma visão aguda da relação amorosa e do casamento “que era a junção de duas solidões”, ele falava isso! E ao mesmo tempo ele era muito irônico.


Ele também tem uma frase que diz “o único amor possível é o impossível”, não exatamente assim, mas uma frase ligada à impossibilidade do amor acontecer se vivido integralmente, de forma cotidiana... Então... É difícil ver as frases fora do contexto da obra e colocá-las assim de maneira explícita. Ele era um autor explícito, mas tinha um fundo falso, então ele está sempre dando rasteira. Ele está sempre, de alguma maneira, colocando uma lente de aumento para subverter. É uma inteligência muito aguda, é um mestre.


MT – Como é bom falar de Nelson!


PG – Foi o meu Mestrado, tenho adoração mesmo! É bom lembrar que o Nelson era antes de tudo um provocador, né?! Um autor disposto a ir às últimas consequências da linguagem. Ele transgrediu todas as regras da dramaturgia, ele instaurou tanto em “Vestido de Noiva” quanto em “Valsa número 6”, por exemplo, uma dramaturgia do delírio, mas sem perder a crítica feroz, o espírito de folhetim, a urgência das ruas, a linguagem telegráfica, a poética da gíria carioca.


Nelson tinha um temperamento apaixonado. Adoro uma frase do Nelson que me faz ler a obra por esse prisma: “O quase não é categoria”. Nelson não deixou pedra sobre pedra, criticou os padres de passeata, as estagiárias da PUC, a esquerda, a direita e até o meio jornalístico do qual fazia parte. Ele seguiu solitário porque fez um teatro desagradável, sem concessões. E por isso imortal. Sua obra perdura porque ultrapassou os limites da linguagem teatral. E escancarou o núcleo familiar brasileiro. É muito impressionante ler uma peça do Nelson em voz alta, ler todos os personagens, é de uma musicalidade vertiginosa.


Nelson tem muitas camadas. Geralmente as pessoas ficam na leitura da pornografia, da questão erótica, mas vai tão além disso.


MT – Eu estava mesmo me organizando para pontuar isso... Esse provocador, sobretudo filho de uma época que marcadamente apontava o autor como figura central em uma obra teatral, perde lugar na experiência do teatro de grupo? O teatro de grupo e uma autoria como a de Nelson são água e óleo para o teatro contemporâneo? Qual a herança de sua obra? O que em nosso teatro ainda reluz o teatro de Nelson?


PG – Um texto dramático do nível o Nelson sempre vai contribuir. Gênios são raros. Em cinco milhões de cretinos, um é gênio. Assim, eu sempre fui de teatro e grupo, embora tenha trabalhado com grandes encenadores como Antunes, Abujamra... Mas era um grupo. Trabalhávamos como grupo. E tive a minha companhia, a companhia da Mentira. Inclusive foi ali que comecei a encenar as minhas peças, então o teatro de grupo não exclui fazer uma peça de um grande autor. As coisas não são excludentes. Nelson sempre vai ser importante como Shakespeare, Beckett, como Grace Passô, e como Racine, Ibsen, Tchekhov. Temos aí um dramaturgo de uma estirpe muito... Bom, nem todos os países tem um dramaturgo como Nelson Rodrigues.


Na América Latina, por exemplo, desconheço. Agora tem vindo muitas dramaturgas mulheres e graças a deus o leque está se abrindo, mas, ainda assim, essas obras ficam. Elas têm um valor insuperável. Eu trabalhei com uma atriz do Uruguai e uma paraguaia no Antunes que sabiam tudo de Nelson! Sabia mais que eu, inclusive, na época eu achava que elas sabiam mais que eu. O Uruguai tem universidades muito boas, essa menina estudava em uma famosa. Eu também trabalhei muito tempo dando aula na periferia, no vocacional, e tinha um menino que sabia tudo do Nelson! Inclusive, fui contratada para discutir e encenar e refletir a obra do Nelson. Eles só queriam encenar Nelson. E eles são muito jovens e contemporâneos, da periferia. Então não tem limites. O Nelson não tem limites. Se você está aberto, tem ouvido e é sensível, você vai gostar da obra. É uma questão de ouvido e sensibilidade. Então seja nos centros ou “não centros”, em qualquer lugar o Nelson instiga.


É uma obra poética. E as obras artísticas, fundamentalmente, são artísticas por conta da linguagem. O que importa é a linguagem. E a linguagem do Nelson é potente, de muito rigor. É rigor com a palavra. É única essa obra, que revolucionou o teatro brasileiro. Então não dá pra negar isso. O teatro de grupo se faz a partir dessa história. O Nelson leu coisas da tradição- até para revolucionar foi importante. As coisas não são excludentes, a minha postura é essa. Eu sempre fui de teatro de grupo e sempre montei Nelson. Estudei Nelson com o Antunes, com o Abujamra, na Cia da Mentira, no Rio desde o Tablado, bom, só frequentei teatro de grupo. Tanto é que eu me tornei dramaturga no teatro de grupo, porque é o teatro de grupo que dá essa abertura para que atores escrevam, que novos talentos surjam, diretores escrevam, e inclusive esse era um pressuposto no CPT, o ator criador. Então eu sempre tive a perspectiva do grupo e nunca neguei Nelson Rodrigues. Então ele me ajudou a ser dramaturga. Ele inspira. Como dizia o Abujamra “O que é bom é meu!” rs.

Priscila Gontijo, a nossa entrevistada


MT – Perfeito! Penso que as coisas se comunicam e se atravessam de fato produzindo um híbrido que deságua em um teatro pulsante como o nosso. Eu queria isso mesmo, que pudéssemos amontoar intuições, certezas, paradoxos rs... Fiquei feliz com o seu apetite para o debate. Espero que o público persiga também essa variedade de olhares, mas sem perder a direção, porque é uma variedade centrada em perceber o que há de coletivo e fértil no Nelson. Obrigado! Temos um documento!


PG – Hoje em dia o Nelson está bem fora do debate, né?! Mas não posso mentir e dizer que não gosto de sua obra.


MT – Precisaremos ser “ex-covardes”.


PG – Exato. Perfeito.


MT – Acho que quando você diz que Nelson é gênio e que não podemos sair negando gênios por aí, é a parte mais aguda para o contemporâneo. O teatro de grupo que apontei acima, acho que sempre - sempre não - mas boa parte de sua experiência, vai sempre se pautar por colocar aquele autor em um debate heterogêneo, quando na verdade eu acho que naquela época era o grupo que precisava lidar com a heterogeneidade do próprio autor, posto em sua originalidade.


PG – As pessoas de teatro acham um absurdo uma dramaturga gostar de Nelson hoje em dia.


MT – rs... Gosto dessa frase. Posso publicar até aqui?


PG – Coloca o que você achar necessário, é uma análise da linguagem rs, mas, só um apontamento, porque comentei isso sobre ser dramaturga e gostar de Nelson, mesmo fora do debate, acho que Shakespeare também está. Acho muito complicado analisarmos uma obra segundo a lupa de 2020, entende? Outra coisa, não acho Nelson machista no teatro. Pelo contrário! As personagens femininas são o grande centro de sua obra. As personagens masculinas são bobas, bom, não é que são bobos, não “bobos”, são complexos também... Edgar é maravilhoso, mas as mulheres tem o grande lance. Zulmira, Alaíde, a Lúcia, enfim!


As personagens femininas do Nelson são donas da própria libido e eu acho isso fundamental, é o grande lance. E ele tem uma frase rs, que acho importante sublinhar, que diz assim: “A adúltera é mais pura porque está salva do desejo que apodrecia nela.” Então eu acho que é preciso ler o Nelson sob uma ótica um pouco mais profunda para não cair em extremismos... Tanto que a maioria das atrizes querem fazer Nelson. São personagens deliciosas com facetas, e rebeldes! As mulheres do Nelson são... bom, são o grande achado da dramaturgia dele. Mas nem vou ficar defendendo isso, porque acho rasteiro entrar nesse debate, entende? Acho que obra é linguagem e a poética que o artista cria seja homem, seja mulher. Você pode ser uma pessoa que, enfim, mas o que importa é a linguagem, em uma obra de arte.


MT – De fato as mulheres da obra do Nelson fazem o mundo girar. Gosto de terminarmos nesses “dois pontos”.


PG – Irretocável, perfeito, Tito. Falei muito?


MT – Falou o essencial!


Ao leitor, obrigado por ler a nossa entrevista.


,Sobre a entrevistada:


Priscila Gontijo é escritora, dramaturga e roteirista. Mestre em Literatura e Crítica Literária, (PUC/SP), doutoranda em Literatura Comparada (USP), integrou o Núcleo de Dramaturgia do CPT – coordenado por Antunes Filho. É autora de peças como “A vida dela”, “Deadline”, “Funâmbulas” e do romance “Peixe cego”- (7Letras) finalista do Prêmio São Paulo de Literatura 2017. Participou de diversas salas de roteiro, entre elas a 4ª temporada da série #MeChamaDeBruna; foi vencedora em ambas categorias (argumento e roteiro originais) do ProAC de Telefilme da cidade de São Paulo para a TV Cultura com o telefilme: “IRINA" e contemplada no Núcleos Criativos do Fundo Setorial com roteiro de longa-metragem para a ParanoidBr. Atuou como professora de Roteiro do curso técnico Filmworks III da Academia Internacional de Cinema AIC/SP e atualmente desenvolve roteiro de série para a Conspiração Filmes.


@priscilagontijo

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