• ,Deus Ateu

,Narciso em férias – Uma entrevista com o diretor Renato Terra

Por Marcio Tito.

Pôster do documentário Narciso em Férias


Caetano Veloso, uma experiência radicalmente autoral e jovem que tomou para si a missão de distribuir no tempo da vida brasileira a atitude João-Gilbertiana de Brasil e mundo, esteve preso numa prisão.


O artista Caetano Veloso, multifacetado pensador e performer sonoro, músico, escritor e letrista, que em seus discos e entrevistas deflagrou os seus próprios “Casa Grande e Senzala” e “Viva o Povo Brasileiro”, ou tudo o mais que se poderia chamar de invenção intelectual e prática do Brasil moderno, já esteve preso.


Caetano, essa interferência universalmente brasileira e anacrônica dentro do bioma da cultura latina e do mundo foi algemado, sequestrado e trancado na cela de uma cadeia.


Eu começaria esse texto assim. Dizendo apenas: “Caetano Veloso” e, abaixo, anexando a transcrição da conversa que tive com o excepcional diretor Renato Terra, que juntamente com Ricardo Calil promoveu ao audiovisual o depoimento do artista, narrador e sujeito Caetano Veloso.


Caetano, que é verbo em Djavan e sentimento em Johnny Hooker, torturado pela ditadura (pois ouvir torturas é estar torturado também) em 1968, esteve preso.


O documentário “Narciso em Férias” inscreve Caetano na narração dos fatos que viveu e que a ele se referem. Uma revista com fotografias do planeta Terra, um retrato de si quando preso e a história oficial, como foi e está contada no arquivo militar, são os dispositivos que ajudam a expressar Caetano.


O Caetano avô, que na tela revive os calores do Caetano mais filho do que homem maduro - pois àquela ocasião era apenas um jovem de 26 anos - é quem narra os eventos do dia da prisão, da temporada preso e da soltura sem pé nem cabeça.


Uma obra de arte está sempre cercada por escolhas (e cada escolha carrega um sem fim de decisões). Assim, ao vermos o fluxo na tela, tão calidamente derramado entre um frame e outro, nos apresentando um Caetano que fala como quem pensa, e que pensa como quem sente, é simples constatarmos que este grau de sobriedade esquiva ao acidente e é, sobretudo, o produto de uma arquitetura absolutamente bem orquestrada por algum maestro que se esconde.


Terra e Calil, os maestros, propondo muito mais a promoção de um tempo espaço do que uma moldura explícita e que influenciasse o entrevistado, atravessam todas as barreiras da assinatura.


O documentário deixa evidente a percepção de que o maior perigo para uma obra de arte seria a muito explícita assinatura do artista que a realizou. Logo, como se houvesse a mais atávica resistência ao gesto de grafar um nome dentro daquelas imagens pensadas, Caetano, ao terminar de lembrar e falar, é um homem sem nome, sem cor, sem governo, sem profissão, porém atravessado pela história de um povo.


Um sujeito que acumula tempos, lembranças e desejos.


Os diretores, diante da conclusão, transformam-se em um par de sujeitos sem rosto, sem política, sem direitos, mas atravessados pela responsabilidade de produzir para todos os tempos um depoimento cujo valor é primeiro espiritual, antes de ser comercial, fílmico ou mesmo audiovisual.


São sujeitos cuja responsabilidade social, afetiva e humana transpassa o que poderia haver de tecnocrata no fazimento de um filme. Diante dos créditos, é perceptível a atmosfera da obra.


Sujeitos de vários tempos, locados na hora do filme, logrados na importância atemporal da obra. Tudo isso, porque este é o contraditório recurso da arte, oferta ao público um Caetano mais Veloso do que nunca, e um filme absolutamente dirigido e não dirigido, porque perfeitamente dirigido pelos artistas Renato Terra e Ricardo Calil.


Na dissolução do sujeito e na elevação do tempo-espaço é que a obra se ergue até que não pudesse mais ser outra ou vir batizada por outro nome. Precisava ser um capítulo do livro que é monumental, precisava ter Paula, Renato, Ricardo e Caetano, a parede e a camisa.


Precisava da luz, do cinema incompleto, dos Beatles, da revista e, mais do que nunca, estar pensada e dita em língua brasileira.


Como teria dito o cineasta iraniano Abbas Kiarostami “O maior elogio que recebi foi quando uma expectadora estranhou eu ter dirigido o meu filme, porque ela tinha certeza de que não havia diretor algum”.

Caetano, aos 26 anos, fotografado na prisão


Abaixo a entrevista:


MT - Renato, obrigado pela generosidade, pelo espaço... Quando surgiu o projeto do filme e quando ele já estava em percurso, no roteiro, ou na prática, o que é que você não quis que o filme fosse? Quando a gente pensa na obra, acho que quase sempre, a gente já sabe de antemão o que é que não quer realizar ali. Então... o que é que você desde sempre quis que o filme não fosse?


Renato Terra – Pô, eu que agradeço o seu interesse pelo filme, por essa conversa... Bom, no primeiro momento eu tinha muitas ideias do que eu gostaria que o “Narciso em Férias” não fosse. Eu não gostaria que fosse um filme que trouxesse em primeiro plano “informação”. Imagens dos lugares, depoimentos de várias pessoas como numa reportagem. Que trouxesse a informação em primeiro lugar. Porque isso foi algo que aprendi lá atrás, quando fiz “Uma noite em 67”, lá em 2009, com o João Moreira Salles que foi produtor executivo do filme. Ele me falou que “o bom documentário é aquele que não quer ensinar nada, não quer ser didático e quer provocar uma experiência”. Eu fiquei com essa ideia na cabeça, de transformar o documentário em uma experiência sobre a prisão do Caetano. Então, em primeiro lugar, não poderia ser informativo e didático, pois para isso já se tem internet, Wikipédia... O próprio “Verdade Tropical”, que tem o capítulo “Narciso em férias” que conta sobre antes, durante e depois. Essa é a função do jornalismo. Aliás, uma coisa muito legal foi que após o lançamento do filme descobriu-se muitas coisas sobre a prisão do Caetano.


E eu não queria que fosse um filme militante. A força das memórias do Caetano e o Caetano dialogando com as memórias dele é o alicerce do filme. Isso tem uma força, e um carisma, e uma potência que você não precisa de outros recursos para que isso se torne comovente, intrigante, emocionante, envolvente... Então a gente tinha sim a ideia de entrevistar o Gil e talvez o Perfeito Fortuna, mas, quando vimos o depoimento, ficou claro que o filme deveria ser aquilo. Minimalista. Que era pra tirar trilha, movimento de câmera, entrevistados, imagens de arquivo para irmos em busca do essencial, dos gestos, das palavras, do discurso, das pausas e silêncios. Tudo isso ficou muito evidenciado quando tiramos o “supérfluo”. A ideia de ser só o Caetano não estava presente desde o começo, mas já havia o projeto minimal. A gente foi mais radical ao longo do processo.


MT – Que interessante! A sua elaboração foi bem de encontro com o que eu já estava pronto para perguntar. Estou meio que me dividindo entre entrevistador e apreciador do trabalho feito por vocês. Então, bom, eu acabei sacando no filme um certo “lugar do teatro”, que seria essa confiança tua na potência do narrador que está ali como senhor do tempo espaço, do fluxo, das palavras. As imagens se projetam e surgem como experiência. Agora, num comentário mais técnico, como foi a escolha do enquadramento, da câmera em si. Cenário, figurino, embora isso tudo tão bem posto e tão natural, houve ou não alguma produção para dar o acabamento da fala?


Renato Terra – Sou muito estudioso do cinema e adepto do Eduardo Coutinho. O Coutinho, documentarista brasileiro, criou um gênero, um cinema todo baseado na fala, na maneira como os entrevistados dele se expressam. Para isso temos maneiras de conduzir a entrevista, de pensar as câmeras, o enquadramento, para que tudo isso se torne mais natural. No caso das câmeras que você pergunta, primeiro, é importante que a equipe de filmagem seja pequena, para que não se crie uma expectativa. Uma equipe pequena, afetuosa, que deixe o entrevistado à vontade. No caso do “Narciso” tínhamos duas câmeras e o que pedi para o Fernando Young, diretor de fotografia, foi que houvesse uma câmera bem fechada no rosto dele e outra em plano aberto. Porque eu queria que os períodos mais claustrofóbicos narrados pelo Caetano fossem em plano fechado, como quando ele narra o período na solitária. Tudo foi em plano fechado nessa hora.


A locação foi um cinema abandonado na cidade das artes, aqui no Rio. Uma obra imensa e faraônica da prefeitura que nunca ficou pronta direito. Ela tem aquela parede cinza e gigantesca, que remete, mesmo sem ser, a uma prisão. Trouxe um pouco essa atmosfera poeticamente. Eu não queria que fosse mais um depoimento gravado na casa ou no estúdio do Caetano. Dentro dessa opção minimalista, quisemos que tudo que estivesse enquadrado ajudasse a contar o que o Caetano estava narrando e provocasse uma imersão. O cenário funcionou bastante bem.


Já na hora das entrevistas, eu aprendi muitas coisas ali para deixar o Caetano entrar em um fluxo de consciência. Interrompia o mínimo possível, só para conduzir de novo para a narrativa. Foquei nas memórias, perguntas muito pequenas que tentei fazer no momento certo. Sem interromper o raciocínio dele, só para retomar a narrativa e isso é bem difícil. Não tem regra. Você não sabe a hora certa de fazer uma pergunta. Tem que ficar sentado, olhando para ele, ouvindo, sem olhar para a lista de perguntas. Atento ao corpo, os olhos, os silêncios, as pausas. Às vezes um silêncio é eloquente e diz muita coisa. E você não pode interromper um silêncio, por mais longo que seja. Então tem toda uma maneira de lidar com o entrevistado que veio dessa influência do Coutinho, que tem a ver com o que resultou disso...

Colorizado por Luis Capellão. @lfcapellao @filmecolorido


MT - Que bom que te perguntei isso. Você foi para lugares que eu como expectador não soube ver! Renato, eu fiquei muito impressionado com a percepção que tive da tão pouca idade do Caetano no período descrito no doc. No filme, nas memórias, fica muito clara a sofisticação dele naquele período, intelectualmente falando, sobretudo. Essa energia se impôs ao trabalho ou foi uma organização que já projetasse esse efeito? O jovem Caetano fica tão evidente e vívido na tela...


Renato Terra - Essa característica do Caetano de hoje dialogar com o Caetano dos 26 anos, acho que é uma coisa muito dele. Ele é um espírito jovem. Quando preso, na época da ditadura, quando de fato jovem, ele tinha uma coisa de ser um espírito maduro. E hoje, aos 78... ele é jovem. Essas duas forças, a juventude, a maturidade, elas dialogam de um jeito único dele. Ele subverte essa coisa mais óbvia de ser jovem quando jovem, e maduro quando maduro. Além disso, não houve roteiro, havia uma pauta com os pontos que queríamos perguntar.


Que era sobre um general... um capitão que ficava olhando o Caetano e depois chamou ele para falar de Marcuse, e dizer que ele entendia melhor o Caetano filosoficamente do que todos os outros generais que estavam envolvidos. Isso eu esqueci, aí o Ricardo me lembrou e eu fiz a pergunta. Foi a única edição. Tornamos isso mais cronológico. O resto todo foi na ordem da filmagem. Quando o Caetano se emociona com a Revista Manchete e quando lembra do sargento que o deixou encontrar a Dedé, a gente interrompeu. Na retomada eu sugeri que viesse com “Hey Jude”, para trazermos energias boas de volta, uma atmosfera boa de volta para a entrevista. Então até esse corte é cronológico. Ou seja, a gente não fez um roteiro, mas havia uma sequência de perguntas e tem também a cronologia do relato, que foi fundamental para o Caetano entrar no fluxo e lembrar, ficar relaxado. Respeitamos tudo isso na edição final.


MT - Sua fala foi super completa. E reparei que você disse coisas que nós, o público em geral, não tínhamos como saber sobre o filme. Muito interessante! Dentro disso, já te agradeço pela fala, pela disponibilidade e pelo trabalho tão cuidadoso.


Renato Terra- Valeu! Eu que agradeço! Abração!


Agradecemos por ler a nossa entrevista.


,Sobre o entrevistado:


Diretor formado em publicidade pela PUC-Rio, fez sua monografia de conclusão de curso em 2003 sobre a Era dos Festivais. Este assunto viria a ser o tema de seu primeiro longa-metragem, Uma noite em 67 (2010), em parceria com Ricardo Calil. Também trabalha como jornalista na revista Piauí e como cronista na Folha de SP. Dentre seus filmes mais recentes – “Narciso em Férias”, “Eu Sou Carlos Imperial” e “FLA x FLU –40 minutos antes do nada”.

Instagram: @renatoterra


Narciso em Férias - Dirigido por Ricardo Callil e Renato Terra, o filme é produzido por Paula Lavigne e coproduzido pela VideoFilmes, de Walter e João Moreira Salles. Fez sua estreia no septuagésimo sétimo Festival Internacional de Cinema de Veneza, na Itália. No Brasil, o filme estreou no dia 7 de setembro via Globoplay.


Uma realização UNS PRODUÇÕES.

Coprodução: VideoFilmes

Direção e roteiro: Renato Terra e Ricardo Calil

Direção de Fotografia: Fernando Young

Produção Executiva: Paula Lavigne

Direção de Produção: Henrique Alqualo

Montagem: Henrique Alqualo e Jordana Berg, edt.


Agradecimento especial a Luis Felipe Capellão.


@caetanoveloso

@unsproducoes

@ricalil

@paulalavigne

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