• ,Deus Ateu

,Melhor que telemarketing – Um conto de Katia Calsavara

Atualizado: há 4 dias

Por Katia Calsavara e Matheus Alexandre.


Você pode não acreditar, mas eu sou mãe de família. Mãezona, do tipo que sofre pelos filhos e tudo. Minha menina mais nova hoje tem 24 anos e não admito que ela faça a mesma coisa que eu. Tenho mais três homens, tudo adulto, dois casado, até hoje não sei como criei todos sozinha. A Leila me deu muito trabalho quando era pequena, vivia doente, internada com asma, aliás eu também tenho, passo uns perrengue quando muda o tempo. Eu trabalhava como faxineira de hospital na época, ganhava menos de um salário, a gente quase nem tinha o que comer em casa, era tudo contado mesmo. Você me vê aqui agora e pode não acreditar, é um direito seu, mas eu gosto muito do que faço e não troco por nada – esse parque é minha casa.


Depois que todo mundo cresceu, a vida melhorou um pouco, mas também tava chata pra cacete, sabe? Eu fazia faxina pra fora, tinha duas casas fixas, a dona Poliana e a dona Carmem, cada dia eu ia numa, tava numa situação já bem melhor. Elas era ótimas patroas e tudo, me davam coisa, mas já tava ficando sem emoção, cê entendeu? As casas eram fácil de limpar, não tinha bicho nem filho, mão na roda, pouca roupa suja. Eu fazia a limpeza dando cambalhotas. Os meninos tudo já tavam trabalhando, ajudavam um pouco em casa, depois o Kléber e o Klóvis saíram, fiquei eu, a Leila e o Kledir, que saiu depois, foi morar com a namorada. Menina, era um tal de ficar de lá pra cá no ponto de ônibus lotado, uma canseira lascada, que eu larguei de vez. Agora fico por aqui, faço uma coisa diferente, tô mais viva também, tô cheia de amigo no bairro.


Começou quando eu vim passear aqui uns dias, fiquei sentada só observando a veiarada trabalhar. E o que tinha de véia, hein? Achei bonito tudo aquilo, elas conversavam entre si, contava uma coisa pra outra, levava um lanchinho na bolsa, comiam junta e tudo. Achei bonito mesmo, cê entendeu? Fiquei comovida. Voltei outras vezes, conversei com a Regina, que na época eu não conhecia e hoje ela é minha parceira. A gente rende o serviço uma da outra, às vezes, tudo na amizade. Nas primeiras vezes, comecei a chegar junto, conversar com os hómi, daí já foi, pega na mão, pega na perna, pega você sabe onde e vamo ali no arbusto comigo, cê entendeu? Foi natural, eu não tive que fazer força, não. Curti pra cacete.


Claro que no primeiro ano eu ficava ainda meia sentida, tinha medo que meus filho descobrisse. Mas como eu sempre fui muito discreta, não uso nem maquiagem nem nada, nunca precisei me montar, logo fui achando uns cliente fixo, que me achavam muito diferentona, nunca usei anel, colar, salto, essas coisa. Sempre fiz a linha neutra, gosto mais. Daí me organizei, tenho tudo certinho na cabeça, os dias bons que os clientes vinha, o medo foi passando. E eu penso assim, quanto mais discreta, melhor, né? Hoje eu gosto, vou te dizer. Tem seus perrengues, mas eu gosto, melhor que telemarketing. A Marina, aquela ali que fica lá do outro lado, tá vendo? Aquela, de cabelo comprido branco no meio da costas, de rabinho, viu? Então, essa sofre todo dia, chora pra burro; eu não, chorei poucas vezes, já tô acostumada.

Ilustração de Matheus Alexandre (especialmente criada para o conto Melhor que telemarketing)


Quando a tarde é boa eu faço uns quatro, cinco programa. E tem de tudo viu? Tem hómi de 30, de 50, 80, 90, e você tem que ser tipo psicóloga, enfermeira, médica deles. Tem gente de todo tipo, hómi doente, hómi que não consegue se levantar sozinho, hómi que você tem que ajudar a calçá as meia, subi a cueca, tem de tudo, tem de tudo. Não vou te dizer que é um trabalho fácil porque não é. Tem hómi que gosta que a gente faça xixi em cima dele. Eu faço, né?


Mas não aceito filha minha na prostituição. É uma vida perigosa, isso é mesmo, você vive sempre no limite. Vixi, mas já fiquei de calcinha na mão, como dizem; uma vez, o cara fez o que quis, me bateu e saiu correndo. Ah, meu filho, agora eu me defendo, levo essa faca bem afiada na bolsa e já ameacei várias vezes. Não paga pra ver o que eu faço com o pau da pessoa.


Mas eu acho que a minha filha desconfia, porque ela já namorou um rapaz que a mãe dele era de programa, mas isso quando ele era bem pequenininho, nem casada ela era. Daí ele foi descobrir depois de adulto e começou a tratar mal a mãe, falava várias, destratava mesmo. A mulher entrou em depressão, foi ficando fraca pra cacete, pegou meningite naquele surto que teve e morreu. Ele se sente culpado pela morte da mãe até hoje. A minha filha fala, “eu não, mãe, eu não critico as mulher de programa, eu acho que elas fazem por amor aos filho, porque precisam”. Isso me deixa mais aliviada, sabe? Aqui eu faço meu lanche com as menina, converso com um monte de gente, conheço as velharada toda; meu ponto é aqui mesmo, nesse banco que você tá sentada.


Esses dias eu atendi um rapaz que ficava me falando, você não combina com isso aqui, você é mulher de família, sai dessa, abandona essa vida. Eu disse, “eu não, cê tá loco? Pra quê se aqui eu tenho minhas amiga, a gente dá risada da cara dos cara, ganho um dinheirinho, porque também não é muito, né?" Eu faço por trinta, trinta e cinco, depende. Mas aí se a pessoa já quer uma coisa mais completa, dá para tirar aí uns sessenta, setenta, depende do dia.


O Seu Valter vai chegar daqui uns quinze minutos, se quiser você pode ficar pra conhecer ele. Tem 82, mas limpinho, limpinho, sabe? Não é desses veio que cheira mal, não, que baba na gente. Essa é a pior parte, quando a pessoa dá pra babar em você. Isso eu não gosto e tem bastante porque a gente não deixa de atender a pessoa só porque ela é velha, não. O Valter é um dos meus preferido. Faz o serviço na gente rápido, não fica de enrolação, não tem aquele bafo nojento, tipo cocô, de véio descuidado. Ele é casado, tem filho, mas gosta de uma mais novinha assim que nem eu, tô com 64 agora, vou fazer 65. Eu me cuido, não fico comendo pão o dia inteiro. Se eu tivesse lá em casa, ah, menina, eu ia me largar no pão em frente à televisão, vendo aqueles programa de receita. E aqueles bate boca de família? Eu não, tô fora, ficar dando audiência pra loucura dos outro.


Olha lá o velho, chega aqui, Valter. Essa é a Bruna, tô dando entrevista, tá pensando o quê? Sou famosa, meu bem. Fala pra ela, Valter, porque é que você me escolhe sempre. Não sou a mais gata do parque? Há quanto tempo você me conhece? Já uns cinco, seis anos, né? Não tinham nem pintado a fachada do museu ainda. Bom, hoje a gente vai pra qual hotel? Melhor o Pitangueiras ou o Charme?


Se quiser, Bruna, você pode vir com a gente.


Ao leitor, obrigado por ler o nosso conto.


,Sobre os autores:


Katia Calsavara, jornalista, é formada pela Faculdade de Comunicação Social Cásper Líbero e também cursou Letras na FFLCH da Universidade de São Paulo (USP). Especializada na área de artes cênicas, escreve sobre o segmento para a Folha de S.Paulo, entre outros veículos. Foi editora-assistente da Revista da TAM, da revista Flashback (editora Abril) e repórter do caderno Folhinha, da Folha de S.Paulo. É também atriz e bailarina clássica formada pelos métodos da Royal Academy of Dancing (Londres) e Centro Pró Danza de Cuba. Como atriz, estreou no espetáculo A Incrível Façanha do Homem (1993). Na companhia Os Satyros a partir de 2009, participou dos espetáculos Roberto Zucco, dirigido por Rodolfo García Vásquez (prêmios Shell, APCA e CPT de 2010), “Satyros Satyricon”, “Criança Cidadã”, “Vestido de Noiva”, “Liz”, ”Adormecidos”, “Não Morrerás” e “Não Vencerás”. É uma das fundadoras da Abominável Companhia.


Instagram: @katiacalsavara


Matheus Alexandre da Silva, 22 anos, Artista autodidata. Conhece o mundo através das ruas de Curitiba-PR.


Instagram: @_profanart_


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