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,Frágil Forte Frágil - Sobre a escultura de Gabriel Salvador

Atualizado: Jul 27

Por Marcio Tito.

Frágil, por Gabriel Salvador. Duas esculturas que funcionam separadas e agrupadas, e recebem o mesmo título, em qualquer dinâmica.


Sempre que luto para flagrar alguma "verdade" possível de ser compartilhada, entre o olhar especializado e os sentidos do público perante a experiência, firmo pé em tratar a obra através de metáforas, paradoxos e intuições. Volto a ser criança, mas então uma criança equipada com os mais diversos brinquedos simbólicos.


Guardada nas artes plásticas, existe uma pulsão lúdica, impossível de ser vencida pela razão adulta ou, quero dizer, exclusivamente pela razão adulta. É assim que resolvo (sem resolver) essa bonita equação entre a matéria artística e os intuitos subjetivos que existem entre o projeto do artista, a realização desse projeto e a sua comunhão final com o espectador.


Pela responsabilidade de não defrontar o material contra nada, mas sempre a fim de deixar essa minha análise perto e permeando o impossível do mistério da arte, prefiro me largar feito criança à frente da memória e à frente da beleza, porque toda dimensão artística, sobretudo e obsessivamente, entendo estar a serviço dela, da Beleza, em todas as suas frações e em cada uma de suas faces sublimes ou miseráveis.


Entendo que as obras de arte acontecem sempre ao mesmo tempo, por isso a memória no presente e as intuições do futuro atravessando o agora.


Assim, quando enfrento o meu vocabulário simbólico e sintático, em busca de colocar em palavras e símbolos as coisas que, por existirem, declaram não precisar mais das palavras e dos símbolos para serem o que e como são, apenas nomeio e enfileiro os procedimentos formais mais evidentes e seus dispositivos discursivos mais fundamentais.


Há sempre uma atmosfera que exala das obras, e o ambiente expositivo existe para extrair essa fragrância. Essa é boa parte da responsabilidade presente naquele que observa e também naquele que analisa o que observa.


Acontece que o compromisso da arte não faz ângulo somente em corações especialistas, e a obra, essa sim, deve se comportar entre os variados mundos que disputam entre si qual a semiótica mais capaz de narrar as fricções entre a obra e o tempo. Nós, artistas, espectadores e analistas participamos dessa partilha através de definições, pulsos, intuições e visitações não mediadas, simplesmente apaixonadas pela existência das coisas.


A obra de hoje, discutida com Bruna de Moraes, é um poderoso argumento para que possamos elaborar, para nunca responder, um prospecto espiritual acerca das mais nítidas influências dessa escultura perante aqueles que acessam sua notável expressão, e acerca das coisas que ela, enquanto imagem parada no ar, nos faz saber sem saber:

Frágil, por Gabriel Salvador


Conversa entre Marcio Tito e Bruna de Moraes, via whatsapp.


MT - Ferreira Gullar vai dizer* que Duchamp produziu como alguém, como um artista, claro, que sentia estar criando em um mundo pós-apocalíptico, no qual seria preciso eleger como matéria prima paus e pedras dos destroços da civilização. Quer dizer, Ferreira Gullar estava falando sobre o conceito não artesanal e, claro, ready-made, em uma distopia criativa na qual o artista deixa de ser aquele que elabora matéria e forma, para então apenas elaborar a organização e a leitura dos materiais que elege para compor suas obras. Agora sim, nesse mundo real, àquela época, na percepção de Duchamp, em que a matéria se apresenta quase que voluntariamente para todos, o artista seria mais propriamente também aquele capaz de organizar o mundo dentro de uma moldura e, sobretudo, capaz rebatizá-lo conforme a leitura estética que se impõe sobre aquilo. Nessa obra, Gabriel Salvador não produziu a taça e não produziu o metal dessas ferramentas. Não produziu o apoio de madeira. Quero dizer, Gabriel organizou esses materiais e criou um discurso espiritual, e, portanto, subjetivo, que envolve isso tudo em formato de obra. Como você assiste a essa produção simbólica, o que esse processo oferece para a arte contemporânea?


BM - Acho lindo começarmos esse bate-papo com Ferreira Gullar citando Duchamp porque, obviamente, foi essa a primeira leitura que tive: um ready-made! Sabemos do impacto estético e conceitual que os ready-mades tiveram na época, e faço uma pergunta à mim para responder à sua: Ainda faz sentido? Sim, claro e com certeza, já respondo. A partir do momento que entramos na chamada "Arte Contemporânea" misturamos todos os movimentos artísticos. Há os que já considerem o processo artístico atual como "Arte Pós-Contemporânea", o que para mim é uma grande bobagem. O que virá após os “pós”? Visto isso, retomar o processo artísticos com o que vivemos hoje é o que temos a oferecer à Arte, contemporânea.


MT - Gullar é base sólida, ainda que hoje seja visto como um "conservador". E eu ainda o acho tão vanguarda, tão inquieto e a fim de discutir todas as coisas.... Enfim, por que o ready-made ainda faz sentido para você?


BM - Ah meu querido, a maioria dos artistas que hoje tanto idolatramos também eram conservadores, muito machistas, outros bem escrotos. Então como não os conheci pessoalmente me atento apenas à sua obra. Caso contrário, odiaria todos.


MT - Essa questão é melhor ficar para uma biblioteca inteira em cima desse tema. Acho que não resolveremos essa disputa entre narrativas, ainda nessa década rs...


BM - Sabe por que o ready-made faz sentido para mim? Porque ele irrita as pessoas. Ele incomoda. Ele faz pensar. As vanguardas surgiram porque elas precisavam surgir, mudar, transformar: a visão de mundo, a visão do que é Arte. Para que a Arte serve? Para nada e para absolutamente tudo! Eu gosto muito quando alguém me provoca, dizendo: eu poderia ter feito isso. E eu respondo: mas não fez. Então faça! E aí sim poderemos ter uma boa conversa.


MT - O olhar do artista, no panorama do ready-made, é aquele capaz de transformar em estética a desordem dos objetos do mundo. Eu também gosto bastante, incomoda porque torna visível uma coisa muito simples: o artista vê diferente. O mictório, ou urinol, de Duchamp, grita isso há décadas! Bruna, as duas imagens que compõem a obra Frágil, como dialogam? Se anulam, se reforçam, criam uma terceira margem? Primeiro, a força solitária dentro do espaço frágil de uma taça de cristal, depois, o excesso de pesos dentro da mesma forma delicada. Essa taça meio cheia ou meio vazia... E que funcionam separadas ou reunidas...


BM - Quando você fala em estética e desordem e em tornar o visível o invisível, aproveito para incluir isso na leitura que tive da obra. A primeira foi: ready-made. A segunda foi: Arte Povera. Os elementos que o Gabriel escolheu são tão opostos que dialogam, e para mim se reforçam. Minha terceira leitura foi uma mistura de Edward Hopper com Afonso Tostes. Só faltou preencher a taça com um vinho tinto Château Malrome Cuvée Toulouse Lautrec, e aí sim os elementos virariam um só. Bem melancólicos. Outra coisa que me chamou a atenção foi o título: Frágil. Por que não: Forte? O artista escolheu qual leitura o espectador deve fazer. Se separarmos os objetos, sozinhos perdem sua força ou sua fragilidade. Acredito que assim se anulariam. Engraçado como o cenário no qual a obra é exibida muda a leitura, né? Eu gosto muito do fundo vermelho tendo a obra sobre o banquinho de madeira. Quando foi para o cubo branco, dentro de uma exposição, perdi toda a melancolia que senti no primeiro momento.

A inadiável tarefa de existir, Frágil, no eixo resistência / 2018


MT - Achei também instigante essa decisão do olhar, com relação ao título Frágil. E achei a obra bastante plural em relação aos contextos do fundo. Arte Povera? Depois me conte também desse encontro entre Hooper e Tostes na sua leitura.


BM - A Arte Povera é pobre, seus materiais não são convencionais nem merecedores do título "Obra de Arte", como as ferramentas enferrujadas de Gabriel. O Hopper é melancólico, fala da vida moderna (que é muito parecida com a contemporânea), as pessoas sozinhas, com uma taça de vinho, insônia, essas sensações, sabe? Parece tudo tão frágil. Já o Tostes traz uma forma na composição de suas ferramentas, visivelmente bem colocadas, com uma estética plástica.


MT - Sua leitura é quase espiritual, engajada em sentir através do seu sentimento humano livre de tecnicismo, embora você tenha o olhar treinado, é bonito isso... Bruna, aproveitando esse seu respiro, vou engatar uma pergunta que eu estava com dúvida, por ser desavergonhadamente subjetiva, mas.... Te parece a obra de um artista jovem como é jovem o Gabriel (1997)?


BM - No fundo vermelho não, no cubo branco sim.


MT - Por quê?


BM - Cismei com o fundo né? Mas é que para mim ele é um complemento, quase uma moldura para o ready-made.


MT - Perguntei ao Gabriel se o fundo, os fundos, deveriam ser lidos como parte do conjunto... pega, né?


BM - Não sei se o Gabriel classificou a técnica e irá apresentar seu trabalho como ready-made. Mas para mim é uma fotografia. Quase uma pintura hiper-realista.


MT - Pega muito, pelo menos me pegou!


BM - Mas isso são leituras, algo que eu também amo nas vanguardas e na arte contemporânea. No Realismo só era possível uma interpretação. Agora podemos ter todas. Todo espectador é um crítico de Arte de acordo com suas referências e sua bagagem.


MT - Você entende que a obra funciona "melhor", ou se comporta positivamente diferente se entendida como fotografia e não como escultura? Gabriel entende como escultura, aliás, define como escultura.


BM - Quem sou eu para contrariar o artista? Brincadeiras à parte, eu gosto do trabalho. Ele apenas me afetou mais como fotografia, mesmo porque não o vi pessoalmente. Esse encontro poderia mudar minha percepção, ou não. O gosto pessoal é a chave do subjetivo. Mas devemos sempre respeitar o trabalho.


MT - Não foi desrespeitoso, achei, na verdade, bastante interessado em compreender as dimensões (e possíveis dimensões). Embora esteja ótimo o papo contigo, o leitor está em outro tempo, que não este do nosso whatsapp rs, vou encaminhar para a conclusão... Bom, a obra Frágil poderia funcionar como um símbolo para o temos feito atualmente? Como vai a nossa produção estética, vai nessa direção ou está em conflito com o posicionamento desse trabalho?


BM - Agora que eu abri um vinho? Vamos continuar esse papo em algum momento, como em vários outros que tivemos. Acho que todas as obras produzidas sempre conversam com o que estamos vivendo. O que cada artista está vivendo é um reflexo do mundo. No momento atual essa obra me afetou. Acredito que todos estão se sentindo frágeis e procurando forças em seu interior. Não consigo generalizar "nossa produção", porque as Artes englobam tantos campos! Mas em Artes Visuais, que é o meu campo, eu acho que é um belo caminho, ainda mais sabendo que é um jovem artista. Essa sensibilidade me deixa feliz. Não sei qual será o caminho do artista, mas é para frente, mesmo que ele tenha que olhar para trás para buscar inspiração.


MT - Ah! A arte traz mesmo esse desejo de viver e, bom, vinho ajuda a trazer essa euforia.... Aliás, saudades de um bom papo junto de algumas taças! Sua percepção foi bastante perspicaz, e concordo que somos muitos e diversamente anacrônicos, ainda que sempre ao mesmo tempo... O Gabriel tem um trabalho curiosíssimo (sobretudo focando na experiência do Ateliê 3/4, com a Lívia Ranaldi e o Yuri Godoy). Então, vamos olhar de perto para ele e eles, sempre. Com essa sua desenvoltura e despretensiosa análise, toda investigação é instigante, Bruna. Aproveite seu vinho! Aqui, fica o sabor de festa também, e muito obrigado pelo papo, pela disponibilidade, pela fábrica de generosidades que você é e foi agora com o Deus Ateu, comigo, com o artista e a nossa época...


BM - Tito, você sabe o quanto te admiro né? Lindos trabalhos fizemos juntos. É um prazer participar desse projeto e obrigada pelo convite. Agradeço também ao Gabriel por colocar a obra no mundo e assim essa conversa acontecer. Com certeza irei acompanhar os trabalhos dos artistas e do Ateliê 3/4. Parabéns a todos e espero te ver logo.


MT - Depois a gente faz uma conversa para falar da nossa estrada rs. Muitíssimo obrigado! Um beijão. Te espero outras vezes.... Sigamos!


Ao leito, obrigado por ler a nossa entrevista.


Sobre a obra: Ano - 2018.

Título: Frágil.

Tamanho - 30cm x 8cm aproximadamente

As taças, enquanto discurso visual, podem funcionar unidas ou distintas de si.

Exposições: Mostra BA, Espaço Di Grado 2018.

Atelier 3 Quartos: Artistas Residentes 2019.


Gabriel Salvador, atualmente estuda Artes Visuais no Centro Universitário Belas Artes de São Paulo, e tem foco em técnicas de escultura, gravura e pintura. Sua produção gira em torno de conceitos que expõem crítica à sociedade atual. Além disso Gabriel Salvador, Lívia Ranaldi e Yuri Godoy trabalham na construção de um espaço de produção e fomentação artística na cidade de São Paulo. O Atelier 3quartos se encontra na Vila Mariana na Vila das Cores.


Bruna de Moraes é Atriz e Artista Visual de formação. Seu foco de pesquisa é no campo da Performance. Tem experiência como supervisora e coordenadora de equipes educativas em museus e instituições culturais e atualmente trabalha como pesquisadora e arte-educadora em projeto social.


Artistas do Atelier - gabrieldolabellaarte@gmail.com @atelier3quartos @liranaldi @yurigodoyarts @salva.arte.salva @salvadolabella


*Argumentação Contra a Morte da Arte / Ferreira Gullar.



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