• ,Deus Ateu

,Experiência Universitária em Design e o “tamo perdido?”

Atualizado: Out 21

Por Larissa Fagali.

O Universitário em Design e suas dúvidas inquietas. Ilustração de Larissa Fagali para o projeto de TCC Venvê.


Por quatro anos da minha vida, a faculdade de design gráfico consumiu meu tempo - e da melhor maneira possível. Um pouco dessa vivência que discuto com você, leitor, baseia-se na minha experiência pessoal e tangencia a dos outros universitários que cursam design gráfico, especialmente os da Anhembi Morumbi, onde busco minha graduação que, se Deus quiser, virá ao final deste ano. Assim, farei a identificação de um coletivo por alguns amores e dores em comum que citarei aqui ao descrever alguns pontos da jornada da graduação.


O ingressar na faculdade, por si só, já simboliza uma grande mudança. Lembro-me bem de ouvir os veteranos e alguns amigos mais velhos falando que a faculdade abriria novas portas, que serão “os melhores anos da tua vida!”, entre outras frases que aumentaram em muito as minhas expectativas. O que não é dito, por fim, é a dificuldade de aprender um vocabulário completamente novo e específico, como encarar as responsabilidades e as frustrações, como definir o seu caminho para o futuro e como se sentir seguro profissionalmente com o passar dos anos.


Por isso vou abordar algumas das inseguranças que vivi e que percebi somente ao começar a dar aulas voluntárias e discutir o TCC que, por acaso, trabalharemos um diálogo similar ao que tratarei aqui.


O que define a profissão é exatamente a expertise sobre o assunto proposto e o vocabulário específico é importante para tal definição - dito isso, recomendo ler “O Que É [e o que nunca foi] Design Gráfico” do André Villas-Boas. Então, ao vermos a grade do curso antes de ingressarmos, surgem vários termos que não sabemos o que é - e que são atrativos exatamente pela “cara de coisa difícil e chique”, o qual é um estereótipo péssimo do fazer design. Inclusive, até termos iniciado a faculdade, poucos sabem o que é design. Design gráfico muito menos. Design é deixar bonito? Design é desenhar? Design é fazer arte? Arte é design? O que é design?


Gostaria deixar aqui registrado que mais da metade da minha sala disse, no primeiro semestre, que estava fazendo Design Gráfico porque gostava ou sabia desenhar. Isso já demonstra uma grande falta de conhecimento sobre o que é design e o que faz um designer gráfico - e por isso não os culpo. Sabemos que, socialmente, a profissão não é clara no imaginário das pessoas como são as outras áreas clássicas, as favoritas dos pais e mães, por exemplo, e isso se dá ao fato de ser uma profissão relativamente recente, ainda que seja algo que devemos lutar para mudar.


E nada define melhor a experiência da faculdade de design gráfico senão quitar uma dúvida para aparecerem várias outras. Não acredito que isso seja somente na área que cito, mas vou me ater a ela. Primeiro, descobre-se o que é design. Depois, descobre-se as milhões de coisas que um designer gráfico faz. Então, quais os desdobramentos de cada uma e por aí vai. Existem alunos que se enchem de referências para entender completamente as possibilidades dentro da área, buscam pela compreensão não somente mercadológica, que muitas vezes acaba em design para consumo e capitalismo, mas também social, e outros que se contentam em ver o mínimo do conteúdo programático e tocar o barco para outra área ou ser um profissional “ok”.


No meio de 2020, eu e Giulia Wenzel decidimos, por um motivo que não descobrimos muito bem até hoje senão vontade, que iríamos abrir uma aula de “reforço” para os alunos de Gráfico e quem mais quisesse. O conteúdo foi montado a partir do que eles apontaram ter maior dificuldade e, surpreendentemente para um curso que carrega no nome “Design Gráfico com Ênfase em Tipografia”, a matéria que apontaram como mais difícil era Tipografia. E não que houvesse poucas aulas sobre isso, pois a maioria deles já teve aula com Waldemar Zaidler e Érico Lebedenco, professores com os quais aprendi muito de tudo e sou muito grata de dizer que tive tal privilégio, mas eles não compreendiam muito bem os termos. Eles não compreendiam muito bem por uma questão de maturidade, também, pois sabemos que o ingressar na faculdade os deixaram bastante agitados, mas compreender as terminologias era um ponto complexo que acabamos percebendo não somente durante as aulas de Tipografia, mas um pouco em todas as outras.


Em algumas reflexões sobre o assunto, imaginei que realmente, no início, é como pegar um novo dicionário e decorá-lo enquanto faz as coisas que ali estão descritas. A gente entra na faculdade de design sem compreender muito bem o que tá rolando e ver todas essas coisas maravilhosas e aparentemente complexas assustam um pouco.


Algo que dificulta em muito o acesso aos conteúdos de design é que a bibliografia costuma ser cara (para um bolso de estagiário e as prioridades de muitos), isso se não está esgotada em português e sobraram apenas usados no valor de 800 reais (confira os livros da Cosac Naify para derrubar uma lágrima pelo bolso universitário), ou as bibliografias de pontos mais específicos em design gráfico que ainda não possuem tradução, o que gera uma barreira linguística. Já não bastasse toda a confusão sobre as traduções de industrial design da maneira como veio para o Brasil, termos tipográficos e os outros usos corriqueiros do inglês em vez de traduções que são fixas e coerentes! Isso também se agrava pelo fato de ser uma profissão recente e que há ainda poucas referências nascidas aqui, se comparadas aos Estados Unidos e Europa. Já deixo registrado que é de nossa obrigação mudar isso e mostrar a capacidade acadêmica e produtiva do designer gráfico brasileiro.


Uma das maiores problemáticas no ensino privado é que, de fato, há muita interferência burocrática e muita influência do capital na forma como os cursos são conduzidos. Por experiência vi grades sendo reduzidas em horas e qualidade- apesar da luta dos professores e coordenações- matérias fundamentais sendo substituídas por matérias com nomes em inglês (o que eu diria que é uma grande influência do mercado publicitário no fazer design) e profissionais frustrados saindo de cursos que não foram o suficiente para o seu descobrir profissional.


As vastas possibilidades de se trabalhar com design gráfico fazem com que a experiência universitária falte em vários pontos. Hoje se trabalha num modelo generalista, em que se pede o testar dessas possibilidades, tal como fazer um projeto de cada aspecto, mas não discute-se muito da experimentação, do procurar seus caminhos, assim como não é trazido todo o conteúdo necessário para um graduando ter segurança no mercado. Um exemplo grande a se citar é a famosa problemática do freela. Ouvi e ajudei, por várias vezes, alunos e amigos a solucionar a frase “como eu cobro por esse job?” sendo que nem eu tinha base suficiente para tal.


Ou seja, se o ensino privado de design é focado no mercado, pois funciona quase como uma grande bolsa de valores, como é possível faltar em matérias de gerenciamento de projetos justamente para o mercado? Ao mesmo tempo, também não foca em um ensino que quite questionamentos básicos sobre “o que eu vou fazer agora que me formei?” pois a maioria dos alunos ainda sai inseguro das possibilidades e não compreende muito bem o que faz bem. E não que seja ruim ser generalista, mas é a saída de maior frequência, pois em momento algum ou em momentos muito breves e não suficientes houve um direcionamento e um incentivo a tornar aquele aluno em um profissional que possui uma área específica. Isso só acontecerá numa especialização, pós-graduação ou mestrado, por exemplo, e são poucos alunos (ao menos do que pude ter contato) que o fazem.


Deixo claro que isso não é somente um problema da faculdade de Design. Além disso, eu tenho esperança de os veteranos formados hoje com todas essas percepções do que está errado e o que está certo, tenham a consciência de que é possível procurar um ensino melhor para quem ingressa hoje nas universidades, ou minimamente, temos o poder de estender a mão e quitar tantas dúvidas que, infelizmente, não são quitadas ou são feitas tardiamente. A experiência universitária em Design não deve se ater somente a fazer design para mercado, mas buscar pela compreensão daquilo que existe como possibilidade. Uma das máximas frustrações é vermos nossos colegas se descobrirem e sentirmos que estamos patinando. Com isso, digo que devemos aproveitar o que nos é oferecido, mesmo que não seja o suficiente, e aproveitar esses grandes anos de mudança profissional e pessoal que temos durante a faculdade para procurar as nossas vontades, procurarmos ser profissionais melhores e realizados. Isso não tem que ser utópico. O mercado merece designers gráficos bons, coerentes, coesos, cheirosos, felizes e contentes, exatamente para que possamos nos impor como uma profissão em ascensão e ensinar a importância do que fazemos.


Com isso, fecho esse texto dizendo que, apesar de todos os apesares, a faculdade mudou muito em mim e de fato foi uma época espetacular. E por isso agradeço a todos que participaram dessa jornada, principalmente os mais novos, pois mal posso esperar em vê-los como colegas de profissão.


Agradecemos por ler o nosso ensaio.


,Sobre a autora:


Larissa Fagali, ou só Fagali, é estudante de Design Gráfico do 8º semestre pela Universidade Anhembi Morumbi. Atualmente trabalha muito, faz freela e, mais o importante, desenvolve seu TCC sobre experiência, experimentação e identidade em Design Gráfico, onde trata especialmente sobre tipografia, sua paixão que descobriu durante o último ano.


Behance: https://www.behance.net/fagali

E-mail: fagali.larissa@hotmail.com

Estamos em movimento. Inscreva-se hoje!

  • Grey Facebook Ícone
  • Grey Instagram Icon
  • Grey Twitter Icon
  • Grey Facebook Ícone
  • Grey Instagram Icon
  • Grey Twitter Icon