• ,Deus Ateu

,A minha alma de ator - Entrevista com Matheus Nachtergaele

Atualizado: Out 29

Por Marcio Tito.

Acervo da produção / Imagens do "Conscerto" sendo realizado em palco.


Em meio à crise pandêmica que marca essa época, Matheus Nachtergaele reelabora sua peça “Processo de Conscerto do Desejo” para a qualidade de uma experiência digital, junto à plataforma do Sesc, denominada #EmCasaComSesc. Teremos, como ponto de partida, o confronto entre essas dimensões, que disputam a produção sensível desse artista focado em fazer valer tanto seu processo biográfico e sua percepção qualitativa do processo estético. Uma entrevista que se faz manifesto acerca das mídias e da ocupação dessas mídias, e também confissão, prospecto espiritual, prece e testemunho concreto acerca do ser artista diante das condições do mundo.


Sobre a peça:


Matheus interpreta os poemas de Maria Cecília Nachtergaele, sua mãe e extraordinária poeta, que precocemente cometeu suicídio.


Material transcrito diretamente de uma chamada de vídeo realizada no app whatsapp:


Matheus Nachtergaele - MN - Por conta da pandemia, surgiu esse novo formato lindo. O Sesc sempre dá as mãos pra cultura e educação no Brasil.


Marcio Tito - MT - é um Ministério da Cultura...


MN - Eles inventaram essa modalidade nova, em que você faz uma adaptação da sua peça, ao vivo, de dentro da sua casa. Eles oferecem um equipamento higienizado e um técnico que possa estar na sua casa controlando a transmissão, caso haja algum problema, já que você está em cena.

O Conscerto sempre, obviamente, foi uma coisa bem psicanalítica. O desejo é aquilo que nos move, e o Conscerto, com "s", é o desejo de "consertar" o que nos move. E como eu tinha que desconstruir isso tudo, pra fazer nessa forma (eu faço com músicos, com plateias...) chamei de Desconcerto. E adorei a experiência.

Por conta da pandemia eu acho que essas lives teatrais ganham o "status de teatro".

A impossibilidade de nos encontrarmos garante nessas lives o frisson, a emoção do ao vivo. Apesar do delay, não é uma gravação. Você se sente ao vivo. E realmente foi bem emocionante reconstruir o espetáculo a partir da desconstrução dele.

Reordenei os poemas. Eu não fiz como eu faço, escolhi uma outra música (já que eu não teria meus músicos).


MT - O texto você mudou bastante. Percebi pela cadência.


MN - Eu inverti a ordem!


MT - Por quê?


MN - O espetáculo não é realista. Ele é um concerto mesmo, de poemas, músicas. Ora sou eu mesmo e ora sou minha mãe - vestido da minha mãe. Fazendo minha queixa como filho e também homenageando a beleza de ser filho de uma poeta apesar do suicídio.

Pelo falecimento recente do meu pai, eu quis olhar para a câmera como quem deixa uma carta de suicídio. Como se aí a Cecília estivesse falando os poemas pro papai. Escolhi um lugar da câmera, na casa, onde eu pudesse ter vários planos para não ficar repetitivo.

Acervo da produção / Imagens do "Conscerto" sendo realizado em palco.


MT - E profundidade!


MN - Sem mexer com a câmera e ter profundidade, sim. Com a luz que o Sesc me cedeu eu fiz uma luz bonita, que veio de fora. Usei luzes da própria casa.


MT - Com relação a parte orgânica e biológica da sua interpretação, como é e como foi esse trânsito entre teatro e teleteatro, a live cênica?


MN - Estabeleci que eu estava fazendo uma carta por vídeo, como se fosse para meu pai. Coloquei isso dentro de mim. Não que isso importasse tanto para o resultado. Mas pra mim, como intérprete, isso importava. Como não estou no teatro, precisava de intimidade. Cada vez que eu me afastava da câmera, eu tinha que ganhar em teatralidade. Isso eu aprendi fazendo cinema. Sou um homem de cinema, principalmente. Minha relação com a câmera é treinada, ela é aguçada. Minha relação com os diferentes tamanhos de lente, e proximidade da câmera. Quando você está ao vivo no teatro você nunca está em um realismo. Está sempre em uma cerimônia religiosa, de celebração, de missa pagã com a dilatação que o teatro permite.


Diante da câmera você está sempre em uma verdade interior. A câmera rouba a verdade. Você é flagrado. Eu dei uma ré no meu processo. Procurei fazer a peça, entre aspas, mais naturalista, eu fui aquecendo o meu corpo de ator, a minha alma de ator.


MT - Eu ouvi a Nicole Cordery dizer que quando ela se prepara para fazer, pra ela, naquela hora, é teatro, mas ela sabe que quando ela faz, aí não é exatamente teatro. Tem isso na sua fala? Você preparou um "desconcerto teatral" para um instante não presencial e...


MN - Eu faço questão de repetir: a pandemia permite que essas lives sejam teatro.


MT - Que bonito!


MN - ... A impossibilidade de não ser é que dá a essa experiência uma...


MT - Licença poética!


MN - É a única maneira de fazer. Então a adrenalina é muito parecida. Não tem como retornar, como repetir. Está acontecendo, a plateia está ali. Eu fiquei pensando que se parecesse muito a coisa do teleteatro. Fernanda Montenegro, Sergio Brito, Fernando Torres, fizeram por tantos anos os clássicos do teatro na tevê. Me pareceu uma experiência parecida com essa. Mas mais radical ainda. É uma câmera só. Dentro da sua casa. Sem o auxílio.

Acervo da produção / Imagens do "Conscerto" sendo realizado em palco.


MT - Como um Pret à Porter, do Antunes Filho.


MN - É isso. Eu amei ter feito. Achei que foi um passo no meu processo. Aprendi coisas que eu não sabia. Camadas da interpretação. Eu me emocionei muito em um certo ponto!É claro que a emoção da do teatro não é a mesma emoção da vida. Ela é uma emoção poética. Ela é uma intuição, um trabalho sobre a emoção. Mas em um certo momento eu tava cenicamente tomado. Mesmo. A partir daí, esqueci que havia uma transmissão e um delay. Na parte final do Desconcerto eu tava muito... "virado no exu", como se diz (risos). Eu tava descobrindo uma coisa que eu não sabia. E é por isso que eu uso um nome bem psicanalítico. Eu descobri, de uma maneira surpreendente, durante a live, o quanto eu não tenho a ver com os poemas da mamãe. O quão livre eu estou desse material. Como papai morreu, em dezembro, eu entendi, durante a live, que a maioria dessa escrita era pro papai, ou se relacionava com ele.


E me libertei de um certo mal-estar por ter sido ou abandonado ou causador da morte da mamãe. Descobri que é uma delícia fazer como ator os textos dela, e finalmente fazer com ela alguma coisa. E essa peça é isso. Eu sou arauto dela. Tenho 50% de corpo. Contrário ao desejo dela, independente dela querer, fizemos isso juntos. Sou outra pessoa depois da live. A gente tem que aprender nas horas difíceis, e pelo menos isso a pandemia me ensinou. Percebi que nem tudo gira em torno do meu umbigo.


MT - Matheus, no teatro a gente vai ter o comentário do público muito depois, alguém que diz ou escreve, na live a coisa é na hora, você leu os comentários depois?


MN - Não tive acesso a isso. Só tive acesso ao material, um vídeo tecnicamente muito bem acabado, para que eu pudesse postar nas redes. Mas recebi muitas, muitas mensagens carinhosas, de pessoas que respeito e que gostaram do trabalho. Mas no teatro as pessoas respondem na mesma hora também, de modo subjetivo, na energia que se estabelece.

Imagem do dia 13/04 no Sesc Ribeirão Preto. Mais recente apresentação do espetáculo, "Processo de Conscerto do Desejo" tudo isso antes do importante isolamento social que vivemos (2020).


MT - Isso é lindo e eu concordo, Matheus! Bom, no youtube tem os comentários que foram feitos em tempo real, estão salvos.


MN - Verei. Tomara que sejam bons. Tomara que eu não fique triste.


MT - São bons! Elas, as pessoas online, repetem o que você diz. Em alguns momentos elas digitam as falas que passam...


MN - Como se ecoasse...


MT - Exatamente!


MN - Os poemas da minha mãe são muito bons. Ela era uma moça comum, filha de quatrocentões paulistas. Muito culta. Precocemente linda, culta e mãe, morreu com 22 anos. Já tinha lido todo Shakespeare, toda Virgínia Woolf, todo Molière, então era uma pessoa com conteúdo, mas destinada a ter uma vida careta, mãe de família, não fez faculdade, tocava violão muito bem, gostava de cantar, escrevia, era uma artista! Morreu nos anos de chumbo, morreu no tempo sombrio da ditadura. Não se deu no casamento, não se conformou nessa estrutura mediana. Ela não coube. Ela não coube ali.

Os textos são concisos, são carinhosos, muito bonitos. Muito sucintos, muito sem gordura. Muito já trabalhados. Ela deixou tudo em uma pasta, assim, tudo passado à limpo, eu acho que todos os excessos ela tinha tirado, é tudo pronto para ser publicado, ela tinha feito isso.


Muitas pessoas que escrevem bem e que eu respeito, gostam. Realmente, e se é que se pode dizer isso, é uma pena que ela tenha partido cedo. Ela poderia ter, se continuasse escrevendo, ter sido uma boa representante da poesia feminina no Brasil. Eu acho muito protofeminista o discurso dela. E em um caminho que eu não vi ainda. Não é queixoso...

Espetáculo "Desconcerto", para a plataforma do Sesc. Matheus transforma o "Conscerto" enquanto o público comenta ao vivo (com palavras).


MT - Não, não tem nada de queixoso!


MN - Existe um "assim está sendo". É muito bonito, não há questionamento. É no sentido do que está sendo, assim está sendo.


MT - Um retrato...


MN - Quando eu recebi os poemas das mãos do meu pai eu tinha 16 anos.


MT - Por que você recebeu nesse momento?


MN - Foi em um dia terrível. Foi quando eu soube que ela tinha se matado. No final dessa conversa horrorosa, ele me deu e falou: "Mais que isso não sei dizer". "Tome aqui os textos dela. Se você quiser, tente descobrir, se você quiser descobrir". Então comecei a conversar com ela, amar esses textos, conversar com a mamãe através desses textos.


MT - O seu pai viu a peça?


MN - Meu pai viu a peça uma vez.


MT - Basta, né?


MN - Foi o que deu pra ele. Meu pai nunca falou sobre a minha mãe antes desse dia. E nunca falou da minha mãe depois. Nunca. Só das coisas que ela gostava. Era a maneira dele falar dela. Por isso as músicas estão lá. Aqui, no Desconcerto, como eu não podia ter ninguém comigo, porque a ideia é essa, eu ator que se apresenta da sua quarentena para as outras quarentenas, eu não podia ter as músicas, eu coloquei um Mahler. Que é o Mahler utilizado no Morte em Veneza, no filme.


MT - Além de adaptar, você escreveu algo?


MN - Tenho um texto de apresentação que eu fiz pro Conscerto/Desconcerto, onde eu conto o que aconteceu. Eu falo em blackout, aí a peça começa e então é tudo texto da Cecilia. O que eu fiz foi organizar o material e intercalar com música. Mas não tem uma obrigação realista, então eu procuro apresentar a mamãe, seus conflitos de mulher e mãe. Depois eu vou partindo para os poemas de voo maior, mais poéticos, até os poemas mais desesperados, que eu chamo de zona vermelha, onde se suicida, onde ela tem uns poemas mais duros. É isso. É uma celebração.


Desde o primeiro dia, há 5 anos atrás. Desde o dia em que dedilhou músicas no violão, desse dia eu entendi que ia ser muito forte, porque tinha 800 pessoas no teatro, na plateia em Ouro Preto. E era uma leitura só, e as pessoas saíram completamente comovidas no final. Não tinha procurado patrocínio, não tinha botado uma lei, nada. Pedi o teatro para as meninas, pra Andréia e pra Marieta, e, em duas semanas, montei a luz. Chamei o Luã Belik, meu amigo, violinista e estreei.


Fui construindo o espetáculo diante do público. O que vai ser provavelmente uma metodologia que vou utilizar a partir de agora. A ideia de um processo... A ideia é muito forte, então você já apresenta ela depois de um breve esboço e vai entendendo o resultado dela junto com a plateia.


MT - Matheus, você disse uma coisa muito bonita. "Eu sou 50% a minha mãe, portanto ela está fazendo "sem querer" esse espetáculo".


MN - É...


MT - Então eu pensei que você está fazendo uma autoficção não autorizada e biográfica, né, de alguma forma. Essa referência veio de algum lugar, você criou isso do zero, aconteceu dentro do processo e você se percebeu dentro dela.


MN - Acho essa coisa foi sendo criada dentro dos anos, você falou de um jeito lindo "esse auto...", como é?


MT - Autoficção não autorizada e biográfica!


MN - Não sei se eu criei. Provavelmente é fruto das minhas experiências anteriores, no Teatro da Vertigem. Todo teatro que eu fiz, fiz pouco teatro, mas muito intensamente, mas não tanto quanto fiz filme, por exemplo. Todo teatro que eu fiz pretendeu ser uma oração pagã, uma prece pagã, então isso veio sendo construído desde o meu início.


Abri um pouco isso no CPT, do Antunes. Essa intuição estava na construção do Teatro da Vertigem, nos espetáculos, que sempre têm isso de ser uma cerimônia. E eu sempre era o mestre de cerimônias. Enquanto eu estive no Teatro da Vertigem - isso num acordo mútuo entre o grupo, eu e o Antônio Araújo - depois eu fui embora, fui porque quis. Parti pra reconstrução do cinema brasileiro. Saí no “Apocalipse”, cheguei a ensaiar um pouquinho o “Apocalipse”, mas não era mais possível, eu tinha feito “O Livro de Jó”... E surgiu o cinema. A televisão começou a me procurar. E com 8 horas de ensaio diário, de segunda à sábado.


MT - O teatro! Mais uma vez a presença, constante, obrigatória.


MN - Um ano e meio de processo pra cada espetáculo, mas foi bom eu ter saído. Porque eu tinha me tornado... bom, primeiro eu tinha esse chamamento pra retomada do cinema brasileiro. Segundo, eu tinha me tornado protagonista do “Teatro da Vertigem” e, ao mesmo tempo, pro grupo isso já não era exatamente bom, era importante que eu saísse e eles retomassem a ideia de um grupo, sem uma estrela dentro, né? Foi uma coisa dolorosa, mas necessária para todos.


MT - Bom, já encaminhando pro final...


MN - O papo tá ótimo, ainda mais na quarentena que a gente...


MT - Então vamos!


MN - Mais um pouquinho (risos)


MT - Matheus, todo ator, até por ser ator (risos), tem a tendência a interpretar - claro! - trazer emoções de forma estética, lírica, lúdica. Quando você começou a criar o espetáculo, você se viu fazendo uma personagem? Lutou com isso, insistiu nisso?


MN - Eu procurei dançar os poemas. Fiz uma partitura lírica, sonora, emocional. Apesar de a emoção do teatro não ser a emoção da vida.


MT - Isso é maravilhoso!


MN - O que eu procurei sempre foi não fazer uma personagem, mas um mestre de cerimônias que fosse eu e a minha mãe ao mesmo tempo. Que você pudesse ver eu e a Cecília e ao mesmo tempo o Matheus. Não queria me fazer de Cecilia, nem um "auto depoimento".


MT - Eu não tenho notícia de processo similar no teatro. Alguém chegou a dizer que parece tal coisa, ou você já encontrou algo?


MN - Não.


MT - Eu, quando assisti ao vivo, e ao vivo sem estar presente, jamais tive essas percepções. As coisas estão reveladas, "desescondidas" e escondidas. Elas estão na verdade do teatro, como você disse. É muito curioso!


MN - Quero dizer algo engraçado: as personagens não são sempre "eu". De acordo com a história a ser contada eu me encontro, mas não sou eu. Eu gosto muito de trabalhos com construção econômica, no “Piedade” foi assim, na construção do Aurélio, e eu gosto muito do resultado, por exemplo.


MT - Eu gosto muito também.


MN - Eu acho, por exemplo, no “Febre do Rato”, no “Baixio”, sou eu. Sou eu. Não construí. Só botei um leve sotaque pra poder existir, um sotaque pernambucano para existir naquele universo, com aquele personagem.


MT - E quando você se dá conta de que você está dividindo o papel com a personagem? É durante, depois, quando você vê?


MN - Não tem uma escolha psicológica aí, é durante o roteiro. Eu não posso correr. Ou porque o texto me puxa pra isso, ou porque a obra como um todo permite e quer isso. O processo do “Febre do Rato” foi muito interessante. O Cláudio queria que eu fizesse o poeta, o Zizo, sempre foi assim. Desde a época do “Amarelo Manga”, que a gente já falava desse filme. Depois no “Baixio das Bestas”, era a parte terrível de mim, o machista, o misógino, a parte que é terrível em mim, mesmo! Eu cheguei a ler o roteiro como Zizo e tudo, na “Febre do Rato”. Eu li e achei que tinha que ser o Irandhir, por muitos motivos. Porque ele é pernambucano mesmo, porque fisicamente ele se parece com o Cláudio mais do que eu, porque eu sou amigo íntimo do Cláudio e não me sentia à vontade pra fazer o Cláudio, porque pro filme e achei que era melhor que fosse o Irandhir pela energia que ele carrega enquanto ator, e o Cláudio ficou muito penalizado e me disse: “Então você não vai fazer o filme, porque eu não tenho personagem, a não ser o poeta, que eu sempre fiz pra você, que eu fiz pra você, na vida toda”, e desligou o telefone, triste. E eu muito triste que eu não ia fazer. Aí eu reli o roteiro e tinha um personagem que ele havia escrito para um senhor de idade e que fosse negro. E ele havia pensado em chamar o Antônio Pitanga. Eu sempre brinco: “Já roubei personagem teu, Antônio", então retornei depois de uma semana para o Cláudio e disse: "Posso fazer o Bazinho?", e ele disse: "O Bazinho é um velho preto".


"Deixa eu fazer o Bazinho... vou ficar dentro do filme, assistindo junto com você, ser o melhor amigo de você, sendo o melhor amigo, que é o que nós somos", e eu fui pra esse filme sem construção. Eu quis assistir ao filme dentro do filme. Acho um dos meus melhores trabalhos.


MT - É belíssimo!


MN - Mas, obviamente, ninguém notou muito não rs...


MT - Não? Mesmo? Eu acho maravilhoso!


MN - E eu acho que é um dos meus trabalhos mais fodidos!


MT - Com relação ao “Piedade”: esse processo se impôs também? É sempre igual? É personagem e você sabia que seria personagem, isso veio no meio do processo...


MN - No Piedade, a fábula é clara. É um texto diferente, do Hilton Lacerda. Diálogos extensos e a minha posição ali era... não era de protagonista, mas de pessoa que faz mover o drama. Ele é um agente do capital. Ele não tem caráter, como o capital não tem caráter.


MT - Ele é uma pulsão.


MN - Ele não tá por cima da carne seca, ele também é um fodido. Ele é um bolsominion. Não se parece comigo, o Aurélio. Em nada. Nada. Eu realmente compus uma personagem. Não me senti comprometido com as cenas do Aurélio. Eu não sou. Nunca. Esse aí não se parece comigo, sabe?

Foto do filme Piedade / Matheus Nachtergaele e Cauã Reymmond contracenam. Dir. Cláudio Assis. Da fotógrafa Suazanne Tierie


MT - Você imprime um comentário. É engraçada a construção, pois ao mesmo tempo em que você, ao mesmo tempo que move a ação, e que eu acredito nos desejos dele e sei como ele é, eu percebo o comentário do ator, de forma muito delicada, um comentário de ator, com relação à isso. Como uma legenda que nos diz "acredita em mim, sim, mas não vem comigo, não".


MN - Aí já é sua leitura (risos)


MT - Só aproveitei a oportunidade de dividir contigo (risos)


MN - Eu gosto desse trabalho. Acho um trabalho maduro. Econômico. Eu podia ter me animado nessa caricatura, sabe? Naquele momento já, eu tinha e sentia as pessoas que iam vencer a eleição, o brasileiro que ia vencer as eleições. Apesar de eu ser também paulista, ter meus interesses financeiros, ser gay, não me pareço com...


MT - Mas cada coisa em seu lugar! (risos)


MN - Eu sou do Brasil com S. Estou completamente deprimido com o que acontece agora. Eu me sinto desolado.


MT - Eu também... podemos fechar assim? Eu gosto de fechar com essa chave sobre depoimento de vida, sobre o que a gente quer, seu desejo, isso organiza. Sobre como as coisas estão.

Matheus sorri.


MT - Vou transcrever com o maior carinho...


MN - Adorei, Tito.


MT - Um grande abraço! Obrigado!


Matheus envia um beijo. E sorri.


Ao leitor, obrigado por ler a nossa entrevista.



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