• ,Deus Ateu

,Entrevista com Maria Thaís – Outros lugares de oportunidade!

Atualizado: Out 17

Por Marcio Tito.

A professora Maria Thaís Lima dos Santos, fundadora da Cia de Teatro Balagan


MT - Dentro do recorte do seu teatro, professora, existe também um recorte menos metropolitano e mais popular. Este me parece ser um desejo central em seu trabalho: A busca por perceber e entregar alteridades de modo cênico, assim, de modo geral, este ponto parece preocupar positivamente a construção simbólica do seu fazer. Esse princípio resiste até qual ponto no ambiente das experimentações cênicas digitais? Aliás, qual um bom termo para usarmos nessa hora de reconfiguração da cultura teatral (sumariamente lançada ao digital por alguns artistas)?


Maria Thaís - O fato de “Vagamundos – um laboratório cênico” indagar sobre como estamos conectados com o lugar em que vivemos não pretende dividir o mundo entre Metrópole x Interior e muito menos o que é popular ou não. Nossa intenção é prospectar outros sistemas de pensamento – que estão vivos, inclusive, na cidade.


E a virtualidade não é um pressuposto do laboratório, mas uma condição temporária. Estamos lidando com a condição digital, aprendendo com os seus recursos e nos parece que não é uma condição apenas do fazer teatral, mas da vida.


MT - O que é “Vagamundos”? Quais sistemas de pensamento são esses que a senhora aponta estarem vivos (inclusive nas cidades)?


Maria Thaís – “Vagamundos” é um laboratório cênico e se organiza em três etapas - abrindo terreiros, talhar e encantar. Investiga saberes e práticas pluriepistêmicas, oriundas das culturas indígenas, afro–diaspóricas, afro-brasileiras, afro-indígenas e caboclas, cruzando perspectivas e colocando-as em confronto - no sentido de situá-las diante de outras tradições cênicas (euro-ocidentais, euro-orientais, orientais, africanas, americanas), rasurando a pretensa universalidade da linguagem cênica. O estudo destas cosmologias nos permite distinguir, encarar as radicais diferenças e afastar-se da mera reprodução estética - que quase sempre resvala no senso comum, no clichê – ou na utilização de suas formas como “técnica”, que renovam os modelos hegemônicos mas que desconhecem seus modos de ser, de existir, suas categorias de análise e, principalmente, seus agentes.


As narrativas cosmogônicas, os cantos (as palavras torcidas) e o verbo (as palavras comuns) que, nestas tradições, não estão apartadas do território do corpo, serão as matérias condicionantes, e não apenas instrumentos expressivos ou resultantes estéticos. A partir delas podemos observar os modos de operar – as poéticas – e como foram, segundo Goldman (2015) “se transformando, na medida em que iam sendo combinados e foram sendo combinados na medida em que se transformavam, gerando uma infinidade de variantes... muito parecidas quando olhadas de uma certa distância e bem diferentes quando olhadas de outra.” As narrativas cosmogônicas são, para nós, um fogo de monturo que, apesar de apagado, reativa com o vento – ou seja, são saberes da origem, não visíveis, que se transmutam e se expressam em todas as formas de vida (no território, na língua, nos cantos, nas danças, na comida, nos saberes com as ervas, nas estórias, na religião), e que denotam sua resiliência, uma resistência silenciosa, na medida em que foram “obrigados a submergir para não serem mortos – um pouco como os encantados que passam de um plano a outro sem conhecer a experiência da morte.” (GOLDMAN, 2015).


MT – O teatro nasce porque o artista deseja participar do debate público, e deseja também atravessar as outras produções narrativas do espaço social, ou seja, o teatro é o nosso veículo para participar daquilo que a sociedade sempre discutiu e discutirá. Nesses termos, a fruição digital da experiência simbólica é capaz de deflagrar as mesmas questões ou, quem sabe, em um tipo de “sorte” que possamos ter dado rs nesse período, a senhora vislumbra que estamos em vias de ir além?


Maria Thaís - Seria prematuro responder sobre algo que desconhecemos. Não tenho experiência com fruição digital e reafirmo que a residência não é um laboratório digital. Creio que estamos sendo convocados a rever nossos procedimentos, a existir em condições adversas, a refletir sobre o que fazemos, com quem fazemos e para quem fazemos. Estamos no meio da travessia, acho difícil saber o que é ‘além’.


MT - A senhora colocou que lhe parece prematura uma decisão acerca disso que nos cerca enquanto situação coletiva, e concordo quando também aponta que estamos mesmo colocados em uma discussão acerca do que é que fazemos e como é que fazemos. Sendo assim, sem determinar nada, nessa primeira hora, fica a impressão de que fazedores e fazedoras de teatro (e outras artes presenciais) reaparecerão transformados. Sei que é um esforço abstrato, mas deixo aqui a sugestão para intuirmos juntos. Alguma obra de arte, em qualquer linguagem, no seu entendimento, pode nos trazer algum vislumbre desse tempo que está adiante? Por exemplo, em outro contexto de perguntas e respostas, aqui no site, o professor José Fernando Azevedo trouxe “Marcha para Zenturo”, da Grace Passô.


Maria Thaís - Desculpe, mas infelizmente não tenho como responder sobre o que está adiante. Como espectadora a minha percepção do que vejo é sempre no sentido de apreender a perspectiva da obra. E a prospecção sobre o futuro, pra mim, não é tentar encontrar um modelo que diga ou mostre “como deverá ser”. O que vislumbro para o futuro é a necessidade de assumir a responsabilidade de me interrogar sobre as escolhas que fazemos e o que elas perpetuam. É conhecer outros modos de apreensão do mundo. Pois, como afirma Vanda Machado, “só existe um tempo, o presente. O presente do presente, o presente do passado e o presente do futuro”.


MT – Se possível, comente conosco algumas experiências digitais que tenha acompanhado, destacando o que é que nelas interessa naquilo que está posto no desejo criativo da sua experiência da vez. O que é que alimentou digitalmente o processo de “Vagamundos”?


Maria Thaís - Infelizmente não sou uma consumidora da cultura digital e não me tornei uma espectadora digital. Não vejo séries, tenho assistido algumas experiências cênicas digitais para acompanhar o “movimento das marés”’. O que temos aprendido no abrindo terreiros - primeira etapa do laboratório – é que podemos estar em rede, para além do lugar que habitamos. Creio que é uma condição que desconhecemos.


MT - Nesta primeira parte, de “Abrindo Terreiros”, o que surgiu? Dessas coisas vindas, quais delas se comunicam diretamente com o teatro que a senhora sempre exercitou?


Maria Thaís - Ainda não chegamos na metade do “Abrindo os Terreiros” e como o objetivo não é encontrar nada, não é disputar centralidade, ou colocar verdades outras... nada surgiu além de perguntas e encanto. “Abrindo os Terreiros” talvez nos permita indagar com mais precisão sobre quais as noções e quais conhecimentos pautam o nosso fazer artístico. Não é um receituário ou uma conduta a ser seguida, mas uma observação de práticas culturais outras que portam dimensões outras para o fazer da arte. Não para serem reproduzidas, mas para abrir fendas, criar outros lugares de oportunidade.


Creio que todas as ações do laboratório são indissociáveis do meu fazer pedagógico e artístico pessoal e, principalmente, do coletivo Balagan, que foi onde exercitei coletivamente a criação cênica. Talvez ela seja vista por muitos na fronteira do popular, do folclore, do exótico, do regional, ou qualquer outro termo - mas são apenas categorias que, compreendo, fazem parte de um certo sistema de valores da arte, mas não definem o que fizemos em si. Não fizemos um teatro sobre essas culturas. Muitos de nós foram formados por elas, portanto, é parte do que somos.


Serviço Sesc: O que é Vagamundos?


O Laboratório é dividido em três etapas e acontece de setembro de 2020 a maio de 2021; inscrições serão abertas no dia 8 de setembro.


Em sua reabertura, o Centro de Pesquisa Teatral segue e fortalece o seu legado, de um espaço permanente de criações teatrais e de formação de atrizes, atores, dramaturgas e dramaturgos. Para tanto, o CPT_SESC recebe a diretora Maria Thais para coordenar a Residência Vagamundos – Um Laboratório Cênico. As inscrições são gratuitas e devem ser feitas a partir das 14h do dia 8 de setembro, no site do CPT (haverá processo seletivo para as vagas). As atividades, inicialmente online, começam em 16 de setembro de 2020 e vão até 30 de maio de 2021.


Fundadora da Cia Teatro Balagan, Maria Thais propõe neste laboratório um estudo das culturas indígenas, afro-diaspóricas, afro-brasileiras, afro-indígenas e caboclas, cruzando perspectivas e colocando-as em confronto – para situá-las diante de outras tradições cênicas (euro-ocidentais, euro-orientais, orientais, africanas, americanas). A ideia é criar um lugar de observação, experimentação e produção teatral a partir de saberes e práticas pluridisciplinares, Vagamundos será dividido em três etapas. Abrindo Terreiros, a primeira delas, é uma série de encontros online, voltados a exercitar a escuta de múltiplos saberes e conhecimentos que auxiliarão a reconhecer e distinguir as ferramentas e categorias que fundam os diversos pensares que convivem no Brasil nos dias atuais.


Já a segunda parte, Talhar, tem foco na prática e na experimentação. Aqui, serão criados estudos cênicos a partir de materiais narrativos diversos (orais, gestuais, sonoros, escritos). Durante as atividades, os participantes receberão visitas mensais de “parentes” – mestras e mestres, sabedores, artistas de diferentes tradições – que partilham suas formas de criar e produzir, conduzindo práticas e/ou apresentando seus trabalhos.


Por fim, a etapa Encantar traz o momento da partilha, de tornar públicas as linguagens experimentadas no processo.


VAGAMUNDOS, UM LABORATÓRIO CÊNICO

16 de setembro de 2020 a 30 de maio de 2021


Primeira Etapa - ABRINDO TERREIROS

Dia 16/09, quarta, das 14h às 16h - Abertura com Maria Thaís

De 23/09 a 29/10 - quartas e quintas, das 14h às 17h.

Grátis no canal youtube.com/cptsesc


Segunda Etapa -TALHAR

Voltado para candidatas/os que serão selecionados previamente.

De 11/11/2020 a 30 abril de 2021 (duração de seis meses) –

quartas, quintas e sextas das 14h às 18h.

R$ 50 (inteira) | R$25 (meia) | R$ 15 (credencial plena), mensais.


Terceira Etapa - ENCANTAR

Maio de 2021 – quartas, quintas e sextas-feiras, das 14h às 18h

R$ 50 (inteira) | R$25 (meia) | R$ 15 (credencial plena), mensais.

As inscrições estarão abertas de 8 a 22 de setembro aqui

(Haverá processo seletivo para as vagas).


Referência

https://www.sescsp.org.br/online/artigo/14700_CPTSESC+ABRE+INSCRICOES+PARA+VAGAMUNDOS+UM+LABORATORIO+CENICO+RESIDENCIA+ARTISTICA+COM+MARIA+THAIS


Agradecimento especial a Marcia Marques e Canal Aberto.


Agradecemos pela leitura da nossa entrevista.


,Sobre a entrevistada:


Fundadora da Cia Teatro Balagan. Professora do Departamento de Artes Cênicas (área de Atuação e Direção) e do Programa de Pós-graduação em Artes Cênicas da ECA/USP. Foi diretora (2007/10) do TUSP – Teatro da Universidade de São Paulo. Como diretora da Cia Teatro Balagan, realizou os seguintes espetáculos: Recusa (2012/13), Prometheus – a tragédia do fogo (2011/13), Západ – A Tragédia do Poder (2006/07), Tauromaquia (2004/06), A Besta na Lua (2003/04), Sacromaquia (2000/01). Dirigiu ainda: As Cadelas (1996/97), A Serpente (1995), Os Cegos (1994), entre outros. E, fora do Brasil, a Cia. Ismael Ivo (com produção da Haus der Kulturen der Welt) no espetáculo Olhos d’Agua, em Berlim/Alemanha (2004) e o espetáculo Dorotéia – um estudo (2004), de Nelson Rodrigues, no Festival Intercity São Paulo/2004, em Firenze/Itália. Colaborou (1999 a 2006) como diretora-pedagoga com a Moscow Theatre – Scholl of Dramatic Art, Moscou/Rússia, dirigida por Anatoli Vassiliev, onde foi coreógrafa do espetáculo Ilíada, dirigida por Vassiliev. Entre as inúmeras atividades artístico-pedagógicas destacam-se: Coordenadora do Núcleo Experimental de Teatro, do Sesi (2010/12); Curadora do ECUM – Encontro Internacional de Artes Cênicas e do Centro Internacional de Pesquisa sobre a Formação em Artes Cênicas (Pedagogia Russa/2010 programa com o Workcenter J.Grotowski e Thomas Richards/2011); Consultora Pedagógica da SP Escola de Teatro (2010); Professora do Departamento de Artes Cênicas (1993/2002) do Instituto de Artes da Universidade Estadual de Campinas – Unicamp; Responsável (1990/92) pela concepção, implantação e coordenação do projeto Escola Livre de Teatro, do Departamento de Cultura da Prefeitura Municipal de Santo André. Ministra oficinas e cursos em vários estados do Brasil e em países comoa Itália, Colômbia, Rússia, entre outros. É autora do livro Na Cena do Dr. Dapertutto: Poética e Pedagogia em V.E. Meierhold, Editora Perspectiva, SP, 2010.


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www.ciateatrobalagan.com.br


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