• ,Deus Ateu

,Até a última sílaba do tempo - Entrevista com José Roberto Jardim.

Atualizado: Out 21

Por Marcio Tito.

Foto cedida pelo entrevistado


Olho para o teclado e sinto que algo se anuncia. É aquela coisa que sentimos após o salto e antes da água. Um tipo de caminho sem volta e repleto de borboletas na ribalta do estômago.


José Roberto Jardim disse sim.


Senti urgência na elaboração dessas poucas perguntas. Havia a oportunidade de definir um importante ângulo para o retrato dessa sua época.


Lancei luz na melancolia tecnológica de suas encenações tão quentes e frias e elaborei um prospecto, cujo programa pretende ganhar duração no tempo e permanência no processo evolutivo, consequente, subjetivo e anacrônico do Teatro Brasileiro.


É fundamental delirar formalmente sobre as variadas nuances apaixonadas que compõem o trabalho deste artista. Portanto, aqui está a elaboração de uma chave, cuja fechadura será sempre mistério.


Essa entrevista inaugura um momento especial para o site deusateu.com.br, que nasce aqui e agora.


Ao longo de um total não previamente determinado, investigaremos a intuição dos criadores para extrair alguma ciência muito pouco exata e muito, muito viva, capaz de ser transformada em um livre processo a ser lido e experienciado.


A busca por narrar as ausências formais do processo criativo de um artista, que manifesta o seu universo subjetivo por meio de um misto entre intuição e cognição, parece estar no topo das questões que transam o nosso interesse imediato.


O inexplicável será o norte investigativo desse espaço simétrico.


Gozando do privilégio de termos acesso a uma das vozes mais densas e claras do nosso Teatro, José Roberto Jardim foi a entrevista que se fez inevitável.

Foto cedida pelo entrevistado


MT - Zé (JRJ), quando eu disser "a sua obra", estarei citando: Não Contém Glúten, Adeus, Palhaços Mortos, A Cor Que Caiu Do Espaço, O Poço E O Pêndulo, Desumanização e Há Dias Que Não Morro. Portanto, aqui detido nos seus mais recentes trabalhos com direção, cujo aproveitamento parece bastante satisfatório na hora de pensarmos as variadas potências que "a sua obra" exercita em cada um dos estilos que visitou, gostaria de iniciar voltando um pouco no tempo.


Relendo Não Contém Glúten, excelente texto do nosso amigo Sérgio Roveri, responsável pela nossa amizade, o grau de precisão entre as atmosferas propostas e os detalhes do cenário parece colaborar para que o texto se levante de sua dimensão impressa.

Essa qualidade pode extrair as sensações que o autor pretende revelar com a sua dramaturgia.


Muitas vezes, é assim que acontece na leitura do material e mesmo na encenação. Nesse caso, talvez pela sua intimidade com os materiais roverianos, espero que ele concorde comigo, o que vimos na cena foi um conjunto de paralelos que sensivelmente contam a mesma história que a dramaturgia, porém, por meio de mobilizações energéticas distintas, como se houvesse ali uma unidade de vozes que "sampleavam-se" endereçadas ao mesmo destino estético.


Formal e subjetivamente, no seu processo criativo concreto (com os atores e as demais áreas) como você trabalha? É da sua prática equalizar tudo segundo um padrão definido pela sua intuição de diretor, ou a busca está em ser capaz de criar uma sintonia entre o seu desejo e aquilo que surge "quase por acaso" quando as áreas tornam cena as teses que possuem acerca do texto? Alguns diretores lançam frentes de guerrilha e, do confronto com as áreas, extraem os seus materiais. Outros, poucos, encenam perigosas fissuras que traem a ordem balizada pela dramaturgia e pela direção e dão protagonismo ao perigo dos improvisos ou das cenas que nascem do imponderável (sempre presente no processo colaborativo). Não há padrão e cada obra "nos diz o caminho", mas, num plano geral, com foco no texto do Sérgio Roveri, como acontece para você?


JRJ - Tito, você me faz não só calar como me emocionar com a sua gentileza ao propor essa conversa, troca e, talvez, descoberta de muito mais sombras que claridades que julgava às minhas vistas. E não há preço para esse mergulho que me propõe pensar, pois sem o retorno, o contraponto, sem a presença/participação do crítico, aqui, esta palavra assume o que há de mais sólido, viveríamos em um eterno “diálogo entre surdos”, como chamava Tchekhov (e que a contemporaneidade redimensionou essa ideia ao desespero). Seríamos como o Ciclope caçando cegamente Odisseu (o OUdisseu, o seu ‘Ninguém’), seríamos um eco errante em busca do som primeiro que ainda sequer foi emitido.


Por isso, agradeço imensamente o seu convite, Tito, assim como o site Deus Ateu, não só pela amizade que você me rega, como pela admiração que tenho pelo seu entusiasmo incansável para com o Teatro. Essa deferência me envaidece muito, mas mais ainda por ver o que está para além disso: a sua vontade de expansão e explosão desse “algo” que a humanidade passará sua existência tentando definir com as cores de sua época e tensões nessa busca sisífica.


Conheço o Sérgio Roveri desde 2003, quando em uma festa paramos para falar rapidamente. Ele era, como ainda é, também jornalista da área cultural. Um mês após isso, estávamos sentados lado a lado, coincidentemente, na plateia do Sesc Consolação, assistindo ao Psicose 4:48, de Sarah Kane, com direção de Claude Régy e a vulcânica Isabelle Huppert, em cena por mais de 3 horas. A imobilidade dela com sua avalanche vocal de habitações múltiplas nos fez conversar por horas após a apresentação, consolidando, nesse dia, uma amizade e parceria que já conta com seis espetáculos juntos: cinco textos seus, que dirigi, e mais um que estive como ator, O Encontro das Águas, nosso debut.


Quando Roveri me apresentou o Não Contém Glúten, minha cabeça explodiu. Ele com sua genialidade dialogista, sua percepção cirúrgica para complexificar o que há de mais rotineiro em instâncias "sui generis", me deu um texto/espetáculo que até hoje é pragmático para mim e minha visão de busca cênica. Ter um texto com aquele casal e suas crises, de tessituras expressionistas, num espaço-tempo distópico, com ânsias e desejos labirínticos, foi a engrenagem perfeita para que eu pudesse reafirmar e aprofundar o que me era caro e essencial enquanto diretor e gerador de cena.


Imediatamente, comecei a trabalhar o texto como faço até hoje, com despudor em igual voltagem ao respeito pela engenharia e escritura do dramaturgo. Por conhecê-lo muito, comecei a ler e estudar o Glúten, buscando me contaminar da pulsão originária de Roveri para aquele texto, não sem buscar entender, e isso faço até hoje, onde eu me encaixaria nos vãos de sua narrativa com minhas idiossincrasias, entendimentos e limitações. Busco sempre o epicentro, o divisor comum entre o Texto e o que eu posso oferecer a ele com minha condução. Pois num texto dramatúrgico, há inúmeras portas de passagem apresentadas; é preciso ter serenidade para saber que não irá abarcar a maioria delas, muito menos passar por todas numa encenação. E nisso reside a beleza de uma grande obra: a sua polissemia inalcançável. Então deixo que o estudo incessante e obsessivo das palavras do texto me mostre, naturalmente, onde e quais serão as “portas” que conseguirei passar, assim como as quais que entreabrirei e quais que olharei sem caminhar a elas. 


Onde irei colocar a minha lente de aumento e transpor esteticamente para a cena?


Tenho completa consciência que esse processo se molda e varia por diferentes fatores, desde vontades imediatas ou pessoais, estados e humores, até incapacidade ou limitações minhas. O resultado final da obra encenada será sempre, acredito, o diálogo franco entre o que se viu e o que não se viu ali presente, resultando num retrato daquele encontro, daquele contexto em que veio à luz. Há uma frase de Fernando Pessoa que sempre uso para mim e nos processos de montagem sobre essa angústia companheira: “Uma obra para nascer deve pertencer a alguém, mas para que ela nunca morra deve ser estranha para quem a criou”. Busco fortemente isso.


Sendo mais pontual a sua pergunta, e me desculpando por essa digressão, comecei a trabalhar o belíssimo texto do Roveri como ainda faço até hoje: o leio inúmeras vezes e deixo que imagens comecem a me povoar a partir dele. Sem filtro. Sem regras. Apenas balizado pelo que Antonioni e Welles diziam: “Faço primeiramente um filme que me agrade, que eu queira assistir”. Assim, a partir das imagens, defino a que mais me encantou e deslocou. Começo, assim, a retrabalhar o texto em cima dessa descoberta e modifico, reescrevo rubricas, limpo trechos que considero as portas que não irei abrir ou conseguir em prol da condução que possa ser a mais potente pelas minhas mãos e elenco; retiro os nomes específicos/de batismo das personagens para acentuar o caráter de pulsões vivas, mais do que personalidades fechadas; lapido e desidrato frases para ganhar em poética rítmica de fala etc. 


Isso já me custou muitas crises comigo mesmo e com alguns autores, mas hoje me aceitei assim, pois isso é uma característica minha, e a forma que eu consigo estar presente, estar vivo ao realizar uma montagem. Talvez a única que consiga me enxergar. Tanto que só inicio um projeto, hoje em dia, após estarmos, (eu e autor, ou participantes) conscientes dessa maneira de trabalho que me ajuda a ser e fluir na criação da cena. Lembro aqui, Tito, que não chego ao desrespeito e destruição do texto, como pode parecer. Jamais. Mas também lembro de um ditado taoísta que diz que “o melhor discípulo é aquele que trai o seu mestre”, ou de Quintana ao dizer que “A maior prova de amor é o desrespeito”. Com isso, e depois disso tudo, que dura alguns meses de isolamento autoimposto para que as ideias se assentem em mim, crio previamente um texto base com anotações e novas indicações que vão desde rubricas a ritmos e coloraturas. Tudo que comecei a vislumbrar e pintar para o espetáculo, a priori, em minha imaginação.


E fiz isso no Glúten também: Adaptei para entender os caminhos iniciais pré-sala de ensaio e gerar as imagens que povoariam a todos: transformei as rubricas em projeções, que surgiriam ininterruptamente acima do palco num telão, como uma legenda de ações e gestos, uma vez que nesse apartamento o casal mal se movimentaria nem sairia do pequeno raio de suas cadeiras, posicionadas em um tapete circular de quatro metros de diâmetro, espaço que acentuaria o “não lugar”, o “limbo afetivo” em que eles estariam imersos e que quis localizar o espetáculo. Essa busca espacial é outra característica que tenho sempre comigo em meus espetáculos, que uso sempre como ponto de partida: a formulação do “onde” está e se passa a ação, assim como a sua abstração. Com isso, penso ganhar em poder fabular e amorfo a apreensão da plateia que pode, dessa forma, projetar ali, naquele palco, o seu lugar imaginado, o seu próprio labirinto prisional e dantesco, não encerrando o cenário em uma ideia única, imutável. 


Outro ponto de partida que sempre uso, e não foi diferente no Glutén, como já citei acima, é a minha vontade da não movimentação dos atores e atrizes em cena. É uma pesquisa de busca da “fotogramia” das ações. Como que, em uma pincela apenas, já mostrar, ou sugerir, o quê dali a plateia pode visualizar a parte e tomá-la pelo todo, assim eles poderão continuar mentalmente a pintura desse quadro propositadamente incompleto. Como um Schiele que, contraponto a prática vigente de sua época, não usava tintas exuberantes e muito menos cobria toda a tela com seu desenho: sua obra era a não “finalização de todo o quadro”, deixando que nossa imaginação voasse em sua falta, emendando cores e continuando os seus traços inexistentes. Acredito que, desse modo, posso colocar a plateia em um estado mais ativo e de outra apreensão com o que acontece sobre o palco.


A partir desses pedais e da desidratação do texto, do corpo a uma essencialidade em cena, começo o processo na sala de ensaio com a elocução/fala do texto com os atores. Busco mais a polissemia (do que se está sendo dito) do que a aritmética causa-efeito de uma didatização do texto-história. A palavra como mantra icônico entre som e significado. A “pausa” assume importância única no panorama sonoro que os atores irão se valer com seu texto e falas. Não uma ode ao silêncio, mas uma busca pela suspensão, um hiato que irá fazer ecoar nesse intervalo uma reflexão inesperada. Uma quebra de expectativa para que o público fique constantemente em estado apreensivo, ativo e no aguardo ansioso do que se materializará à sua frente, tanto imagética como sonoramente. É a compreensão sendo problematizada, mas sem nunca perder de vista o prazer e o encanto pelo universo que estamos propondo ali sobre o palco.


E com tudo isso, a busca pela excelência e rigor são os arremates necessários ao espetáculo, tanto técnica quanto esteticamente. Pois como Heiner Müller dizia: “O Teatro precisa ser Belo, mesmo quando apresenta o horror e o atroz. Ele precisa ser Belo, caso contrário, não poderá ser estranho e esquisito”. E aqui entender, e você por ser um helenista sabe, que uso o “Belo” num sentido maior e não reducionista. 


E venho tentando caminhar, espetáculo a espetáculo, incessantemente por esse viés mülleriano, assim como tentei também neste meu paradigmático Não Contém Glúten.


MT - Diante do absurdo, e quantos absurdos não temos visto, não há artista que não queira promover "a sua verdade" por meio do veículo que lhe cabe, ou seja, a obra de arte. No seu trabalho, (quase) nunca surge na cena uma voz claramente partidária, ou uma voz que lança alguma opinião que atravessa o universo da obra, talvez com exceção de uma fala, que suponho ter sido um "caco coletivo" no espetáculo Desumanização. Então, como é o processo político partidário em relação ao seu trabalho? Quase opinando de modo leviano, porque as variáveis são infinitas, mas, em geral, as obras que sobrepõem contradições anacrônicas lhe parecem mais ou menos interessantes que as obras que abrem mão da metáfora e atacam a política do dia de modo direto?


JRJ - Existem estéticas; que levam a éticas, e éticas a estéticas, como bem sabemos. E gosto de ver pluralidade, diversidades sendo executadas e ampliadas grupo a grupo, espetáculos a espetáculos. 


Igualmente prazer assistir a algo que dialoga imediatamente com o que busco e realizo, me ponho em comparação e estímulo, assim como me traz enorme deleite assistir ao que de mim se difere radicalmente. Pois isso, me nutre também, mesmo que não vá e nem pretenda enveredar por aquele rumo. Ver pesquisas distintas constrói um panorama de abordagens e reflexões que só enriquece o tecido simbólico que a arte e o teatro devem se vestir. Ficamos muito desprovidos de referências de afirmação e, especialmente, de negação. Assistir ao que se distingue de mim, me libera para que eu possa ir, ainda mais fundo no que quero e concebo, pois vejo que há caminhos e caminhos, se um já está sendo traçado com maestria e contundência por uns, devo eu, como parte dessa engrenagem polifônica do mundo, seguir com ainda mais afinco, o meu, de maneira ainda mais profunda e radical. Um pouco como os japoneses, que agradecem, depois de atividades públicas e até teatrais, dizendo entre aplausos “obrigado por suarem por mim”. Somos peças de diferentes matizes e com diferentes necessidades que, ao final, devem se somar. Assim penso. Uma ideia de coletividade e consciência do todo, e não a valorização restrita do seu. Sejamos legítimos e comprometidos conosco, isso já será muito em meio à aridez afetiva em que estamos aprisionados.


Por isso, acredito que uma obra artística será sempre política se for uma busca verdadeira, independente de sua literalidade ou abstração. Será potente, se vier como um rugido de dentro de si, de suas convicções mais lancinantes. Se for algo como um machado que fere o gelo. Se for algo apenas comparável à dor lancinante que se sente pela morte de uma pessoa amada.


Pôr questões em cena entre personagens, entre pulsões, é gerar atrito e fricção entre ideias, é criar uma emulação de pólis, onde a discussão se faz constituinte e regra primeira para se fazer drama, para se fazer, portanto, Política.


De novo, penso em Heiner Müller, esse artista de comprometimento e lirismos únicos, que afirmava “insatisfação com o mundo é a fonte de toda a inspiração, seja no teatro, nas artes visuais ou na literatura. Se você está satisfeito ou gosta do mundo do jeito que ele está, então você não precisa criar nada, pode reclinar seu corpo e descansar”.


Não à toa que busco aprofundar meus estudos e sensibilidades, assim como o uso dos meus expedientes de cena e encenação, de maneira incansável, porque acredito que isso possa criar fissuras e reembaralhamentos em conceitos, ideias e expectativas do "status quo" esterilizante. Eis a função maior da arte: fender o que está estabelecido e erigir, sob risco e perigo, o que ainda não está presente, o que não está sendo visto. Como Bertold Brecht em seu Pequeno Organon dizia: “devemos olhar o estranho com normalidade: e o normal, com estranheza”. Então faço o exercício de autorreflexão constante, sabendo que sou o que preciso ser, o que consigo ser, legítima e existencialmente. Novamente, vou usar outro grande que me acompanha sempre, Jean Cocteau, que me energiza quando diz “aquilo que tanto apontam em você, cultive, pois isso é você”.


E eis o que consigo ser ao fazer o que tenho que fazer e me manter nessa jornada rumo ao meu abismo interior, uma pólis estranha e subjetiva.


Quando o trabalho não surge de encomendas, se é que surgiram de encomendas em algum momento, você vem pautando a criação pelo seu "lugar de fala"? Como tem sido criar estéticas e revisões da vida neste tempo em que o artista fatalmente figurará ao lado de sua obra? A sua estética tem sido o resultado do diálogo subjetivo entre o público hipotético, o cidadão José Roberto, o artista José Roberto e as pautas que "cercam" (no bom sentido) a expressão? Parece possível elaborar um mecanismo dialético que responda somente a si e ao que se pode alcançar através do Belo? Ou talvez seja impossível, menor, e desinteressante realizar um Teatro cujas fronteiras não estejam borradas pelas forças do social? O Teatro precisa estar sempre contra alguma coisa ou alguém? Ou a oposição que o constitui, enquanto ciência, pode se limitar apenas a uma narrativa que contenha oposições, excluindo desse processo o mundo cotidiano e "real"?


JRJ - Penso, e aqui vou me permitir divagar em uma ideia paroxista, como seria uma arte feita por seres ainda não conhecidos? Por seres de outra galáxia, outra atmosfera, ou vidas de outra ordem que não a humana? Não sabemos. “O que podemos imaginar pode ser criado”, como disse Bourdieu. Então partimos de uma liberdade tanto quanto de uma limitação primordial. Talvez a sonoridade do piano tivesse a sua execução reinventada se surgissem pianistas com mais dedos em cada mão. Até lá, ele, ainda terá sua musicalidade limitada aos dez dedos, duas mãos, no caso solo, e o seu mesmo número de teclas brancas e pretas invariavelmente. Mas... e eis o que me ponho em êxtase ao pensar: as combinações dessas “limitações” (dedos, notas, tons, semitons etc.), combinados com a subjetividade de cada intérprete, ou seja, com o que há de mais interior do ser humano, com seu inconsciente, como também com sua fúria, seu amor, seu rancor, rapidez, força, delicadeza, medos, sentidos e erros, fazem dessa permuta intercambiável algo que gerará universos infinitos tanto quanto únicos e intransferíveis. E nunca deixou de ser “música de piano”, reconhecível e visualmente atingível, alcançável. Uma música de piano. Música. Mas agora não mais só uma música. Não. Agora um universo inteiro num pequeno grão de areia, diria William Blake.


Assim que penso sobre a busca artística, sobre a nossa jornada pelo Teatro. Usamos e recusamos a de modo insano, signos, características e limitações pertencentes ao mundo que somos e criamos, aparentemente de alcance ilimitado, porém, ainda insuspeitado. Como René Magritte, que fez tremer noções e referências no mundo pictórico ao, simples e genialmente, rearranjar em suas obras elementos dos mais triviais e reconhecíveis, apenas os transmutando de lugar, atribuindo-lhes outros significados inúmeros, por apenas os dispor onde não pensaríamos “realistamente” que seriam os seus devidos lugares. A quebra da ordem. A soma do que existe, O Mundo, com o que não existe igual, Sua Alma gritando em agonia. “Um pássaro de pedra; uma bola de boliche na praia; um anel gigantesco em torno de um piano; um copo d’água apoiado sobre um guarda-chuva; um ovo preso dentro de uma gaiola”. Quer algo mais revelador e teatral do que reler o mundo "simbólica e liricamente" por meio dele próprio e de seus elementos mais obviamente corriqueiros? Por meio de tudo que já habita e existe entre nós e que mal atentamos mais? 


E é aí que entramos também, Tito, nós, eu você e os que cavam suas sensibilidades rumo ao doloroso caminho de não querer estar onde estamos, de saber que tudo que os "status quo" nos oferecem é o achatamento da percepção e da reflexão, pois esse doloroso e terrível caminho é a única chance de continuarmos nessa jornada tão absurda quanto encantatória, que teve seu início num útero e terá seu fim numa tumba. E não há nada mais desesperador e prazeroso que esta caminhada tão patética quanto sem sentido. Por isso, nossa insistência no que não há explicação.


Quero que meu Teatro seja sempre uma tentativa minha de existência, uma forma de, pelo menos ali, naquele instante, naquela fração de uma hora, hora e meia, eu e os que ali se puseram em processo, possam vivenciar algo que faça valer essa via crucis tétrica. Algo que seja, para além do imediato, que ressoe minha pequena visão de mundo onde tanto empenhei, não sem tremor, e gozo, os meus medos, ansiedades, dores, sangue e morte. 


Experienciar algo, algo verdadeiramente único, ser atravessado por uma experiência... é o quinhão que temos e que talvez seja o que nos faça conseguir estar mais perto da imortalidade das Deusas e Deuses para além do pavor do silêncio final.


Assim acredito, assim penso, assim espero “till the last syllable of recorded time”.*


O leitor não precisa que eu penetre essas extraordinárias respostas-questões.


Considero essas e muitas outras intuições suficientemente respondidas, na paixão que estas linhas oferecem ao sacerdócio do Teatro e ao espírito de quem as leu com o coração disponível. E se for mesmo possível retratar o clarão que os artistas produzem quando as suas obras abalam a normalopatia dos dias, não me sinto capaz de duvidar que as palavras que do José Roberto Jardim deixem de realizar este processo. No projeto inicial desta entrevista, quando trocava áudios com o entrevistado, imaginei fazer algumas outras perguntas que nasceriam dessas respostas ainda desconhecidas; mas quem poderá, algum dia, me acusar de ter apresentado aqui um retrato incompleto?


Este artista é isto e é assim. É, sobretudo, um fôlego entre a autoria radical e a citação do mundo enquanto explanação de si. Um tumulto entre a constante consciência e a mais profunda reverência pelas coisas e pelos sujeitos que atravessaram e atravessam o seu fazer.


Considero o site deusateu.com.br muitíssimo bem nascido agora. Definitivamente acontecido pelo que se disse até aqui. Zé, muito obrigado pelo seu Teatro e pela conversa.

Foto cedida pelo entrevistado


Ao leitor, obrigado por ler a nossa primeira entrevista.


Till the last syllable of recorded time. Da tragédia Macbeth, de William Shakespeare.

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