• ,Deus Ateu

,As Pessoas que eu Traduzo – Entrevista com Claudio Assis

Atualizado: Out 29

Por Marcio Tito.

Claudio Assis nos bastidores de Piedade


Diálogo captado por meio do aplicativo Whatsapp:


Claudio Assis – Vamos fazer a entrevista?


MT – Vamos! Agradeço a disposição! Claudio, o meu desejo é cercar as intuições, falar das coisas que terminam com vírgula, com “dois pontos”... Começando por “Piedade”. Esse é um projeto “antigo”, certo?! Quero dizer, data de antes da eleição do atual presidente, certo?! Nessa direção fiquei curioso por saber se você foi fazendo ajustes no projeto do filme para que o resultado ficasse mais dentro do tempo presente, ou se as coisas antes pensadas acabaram mesmo indo de encontro com a realidade a qual estamos inseridos atualmente. Considero o filme profundamente conectado ao tempo presente. Isso foi um “acaso” simbólico ou foi um desejo seu e da equipe de nos oferecer uma certa revisão fiel dos encargos do tempo contemporâneo? Em resumo, você foi adequando o filme ou o espírito sempre foi mesmo esse, ainda que a configuração política não fosse exatamente a atual lá no início do projeto?


Claudio – O filme, o “Piedade”... Nós não temos piedade de ninguém! A vida é feita de misérias absolutas. Esse projeto é “antigo”, mas é moderno, verdadeiro, do hoje, do amanhã e do sempre. E sempre nós viveremos assim, sempre viveremos na miséria. Entende? A pessoas que estão me “ouvindo” entendem? Então, o que eu quero dizer, é que ninguém tem piedade de ninguém, ninguém. A vida é uma miséria absoluta. Nós estamos fadados ao fracasso. E sempre essas questões serão recorrentes. Falou?


MT – Entendo sua perspectiva e partilho dela quando os dias estão difíceis... Mas... Eu vou te dizer que, pelo menos para as pessoas com quem eu tenho conversado sobre o filme, não fica uma energia pesada com relação a obra. Ainda que não tenhamos piedade um dos outros é uma obra “otimista”? Ou essa falta de piedade nos condena à barbárie...? Ou essa falta de piedade nos levará até um outro “nível de vínculo”? A experiência de muitas pessoas vendo o filme foi da mais gostosa representação, pessoas que se sentiram representadas pela forma com que você decidiu mostrar as coisas...


Claudio – Eu acho incrível como as pessoas observam e analisam esse Cinema do qual eu faço parte. Eu, quando fiz o BIG JATO, quis mostrar que as pessoas são totalmente necessárias. Quando eu faço “Piedade” eu também quero demonstrar que as pessoas são necessárias, que a vida é necessária, que a vida é fundamental... Quando eu quero fazer “Os Anões”, “O Gigante Pela Própria Natureza”, eu também quero demonstrar isso, então eu não sei, cara, sinceramente. Faço questão de demonstrar que eu tenho uma força, que as pessoas que me cercam também tem essa força. Uma força que vem do interior. Que vem da gente saber o que a gente quer. Que a gente quer fazer, que a gente quer demonstrar...

Claudio Assis nos bastidores de Piedade


MT – “Que a gente quer ter voz ativa no nosso destino mandar, mas eis que chega a roda viva...” e a roda viva sendo mesmo essa falta de piedade entre nós. Mas deixa eu te perguntar! Quando estamos fazendo uma obra de arte não estamos em um lugar seguro, às vezes os símbolos vão indo e perdemos o controle. O que eu quero perguntar é sobre o processo em si. Você apertou muitos “parafusos” para dizer o que queria? Como se deu a formatação do material, o processo em si, com toda a equipe?


Claudio - A vida, meu bem, a vida não é feita de coisas fáceis. Quando você quer falar de alguma coisa, fazer uma obra, você tem que buscar no seu interior, na sua “busca”. Você tem que buscar, você tem que remanejar, trazer pra cá todas as coisas, as conquistas e misérias que você absorveu no seu convívio, então fazer um filme é você dar um depoimento à humanidade sob o seu olhar e isso não é fácil. Isso é uma coisa que requer muito de você, de coisas ancestrais, de coisas que você quer falar, dizer, mostrar, que coisas que você quer bancar!


MT – Concordo contigo. A obra de arte é uma confissão do artista, mas em festa, em esplendor! Claudio, qual dos teus filmes mais te arrancou essa dor? Qual roteiro mais te rasgou, quero dizer, a fábula, a história mesmo... E não estou falando do que você gosta ou não gosta, mas daquele que te queimou em alguma parte tua que já estava ardida e--


Claudio – Não faço obras de arte pra me “desconfundir”. Eu faço obras pra me confundir. Eu desconstruo a miséria humana, entende? Pra mim todos os meus projetos são necessários, fundamentais. Eles falam de algum sentimento, de algum “sentido da vida”. Eu falo dos momentos da vida que estou vivendo agora. Now! Falo de um tempo que é um “tempo do tempo vivido”.

Claudio Assis e o parceiro e ator Irandhir Santos


MT - Qual o seu processo de partilha com os atores? Primeiro, como você reconhece que eles estão dentro dessa experiência que você propõe, ou como você os traz pra dentro disso? Vi o Matheus Nachtergaele dizer em uma entrevista que você tem uma coisa de saber trazer a “vocação do projeto”, que você sabe envolver, que você sabe fazer uma crítica bacana, na hora certa, de um jeito que constrói e que o instiga como ator... Claudio, o que é um ator para você?


Claudio – O ator, pra mim, é a “alma do negócio”. É a peça fundamental que eu posso trabalhar. É essa pessoa que eu traduzo, entende? A imagem da qual nós dependemos! Então eu não sou ninguém se não trabalho com um ator que mereça ser formado, ser contemplado. É fundamental. Eu trabalho só com atores que querem fazer o “meu cinema”. Estou dizendo que o que eu digo a eles é o que estou dizendo ao meu filho agora. Trabalho com honestidade.


MT – O ator tem essa coisa de “dar carne ao espírito da criação”, mas para encerrar, me diz aí um filme contemporâneo e brasileiro que carregue esse tipo de “fúria” que está presente no seu trabalho. Um filme que transcenda o trabalho de fato!

Claudio Assis e o elenco em uma pausa nas gravações


Claudio – Não vejo nenhum. Eu não tenho mágoa, eu não tenho lágrimas, eu não tenho nada a ver com nenhum filme brasileiro que pareça com o meu cinema.


MT – Obrigado pela disposição! Confio e gosto do seu cinema e admiro o seu trabalho. Abraços!


Claudio – Abraços!


Ao leitor, obrigado por ler a nossa entrevista.


,Sobre o entrevistado:


Claudio Assis dirigiu mais de dez filmes. Sendo suas mais recentes produções: Amarelo Manga, Baixio das Bestas, Febre do Rato, Big Jato e Piedade. Festejado diretor, já foi premiado nos mais diversos e respeitados festivais nacionais e internacionais.


Instagram: @_claudioassis__

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