• ,Deus Ateu

,Ensaio sobre a perversão I: O amor, o cotidiano e a clínica

Atualizado: Ago 25

Por Caio Ribeiro.

William-Adolphe Bouguereau (1825-1905), Dante e Virgílio, óleo sobre tela, 281x 225 cm, 1850. Conservada no Musée d’Orsay, Paris, França.


Perversão


Falar de perversão em psicanálise sempre será polêmico, seja pela divergência teórica dos estudantes das estruturas, seja pela densidade do tema. O que acontece é que muitos psicanalistas não reconhecem a perversão como uma estrutura clínica, tal qual a neurose e psicose, mas sim como uma variação. Independente do viés ideológico, o que sabemos é que existe um sujeito que funciona de determinada maneira, seja ele perverso ou não, e que precisamos saber como dialogar com esta construção de desejo. A grande dificuldade de provar a existência (ou não) desta variação psíquica na clínica é que o sujeito que até então reconhecemos como “perverso”, dificilmente irá se sentar em nossas poltronas, ou deitar em nossos divãs; isso se dá, pois a estrutura perversa, além de não reconhecer sua Falta, não a admite e, sendo assim, cria uma forma de negá-la, afastando o sujeito da clínica.


Perversão & Psicanálise


É interessante observar como o tema da perversão causa curiosidade em grande parte das pessoas com que tenho contato, e até um certo fascínio. Algumas dessas pessoas relatam que se sentem atraídos por este mundo (como se fosse um “submundo”) e imaginam como algo “secreto”, como uma experiência sexual vivenciada sem limites ao extremo. Algumas vezes até acho engraçada essa fantasia em torno do tema e o quanto as pessoas parecem querer aproveitar desta experiência, como se fosse algo muito distante de nós mesmos sem perceber que a própria perversão também percorre nossa constituição.


A palavra “perversão” vem do latim pervertere, que se refere ao fato de saber qual o caminho certo, mas optar pelo errado. A partir do século XX, Freud passa a pensar a perversão para além da visão estereotipada e oriunda do caráter sexual moralmente desviante que era até então pensada pela medicina, o famoso psicanalista começa a pensar sobre uma sexualidade que está presente na criança, reconhecendo a existência de uma pulsão, que difere do instinto. Se o instinto é visto como um impulso sazonal que ora está presente e ora ausente e que possui um objetivo claro e único, a pulsão é vista como uma força constante que tem um circuito que pode se alterar, segue caminhos que podem se “desviar”, não seguindo uma rota predestinada e, provocando, através disso, a variedade e diversas possibilidades de experiências sexuais e formas de sentir prazer.


A sexualidade infantil deve ser pensada como uma base inicial para a sexualidade que será vivenciada na vida adulta; é uma sexualidade que se materializará de inúmeras formas nesta criança que possui o corpo tomado por estímulos externos- neste período a voz está muito presente, o cheiro, o olhar, os excrementos, o chuchar... Esta sexualidade é formada a partir de parcialidades, de elementos que constituem um corpo, mas que não é entendido ainda como um corpo completo e, a partir dessa relação, cria-se os pontos que vão chamar mais ou menos atenção em qualquer sujeito que retornarão em uma fase mais desenvolvida.


Após essa breve e resumida introdução sobre a ideia de sexualidade infantil, podemos pensar em um ponto anterior, que é a chegada da criança ao mundo e a inserção na lei: Independente do motivo de termos nascido, é importante lembrar que nascemos frutos de um desejo, e não necessariamente um desejo de amor. Este desejo pode ser de vingança, de reparação, de aviltamento etc. Chegamos ao mundo como uma folha em branco, embora com uma articulação de desejos do Outro já estabelecida, e recebemos dela tudo que nossos cuidadores herdam da cultura, assim somos afogados com diversos significantes. Nesta primeira relação enxergamos a pessoa que cumpre a função materna como o modelo de potência e cuidado na qual ninguém pode separar. Imagine a criança acostumada com o olhar da mãe voltado para seu corpo, a colocando neste lugar de desejo. Atraente, não?


A partir disto a criança se desenvolve e procura se adequar ao desejo da mãe para não perder este lugar tão importante no qual já está acostumada e, então, nesta relação aparece uma terceira figura, o pai. O pai surge como o representante da lei que vai interromper essa relação de amor e, com isto, a fantasia da criança de que ela possui tudo aquilo que o Outro deseja começa a desmoronar, uma vez que os olhos da mãe que até então estavam totalmente focados nela agora passam a olhar para outros lugares.


As estruturas clínicas em psicanálise nada mais são que formas do sujeito desejar e se colocar no mundo e serão definidas de acordo com a forma que esse sujeito vai lidar com a saída dessa relação de amor e subjetivar a lei imposta. Para saída desse momento de extrema angústia será criado um modo de defesa que na perversão podemos encontrar controversas na tradução do termo: recusa, renegação, denegação, desmentido, desautorização, entre outras. Independente do termo escolhido, a ideia é o que importa: o sujeito vai desautorizar essa experiência, vai reconhecer que ela aconteceu, mas fazer com que tenha “desacontecido”, o perverso vai desmentir esta cena: o que ocorreu no nível sensorial não é integrado na forma de transformação da relação com o outro, e não um simples outro, mas o Outro da lei. O perverso é aquele grande conhecedor da lei, ele se familiariza dela mas a nega, e denega como forma de não se reconhecer como um ser faltante como as outras pessoas.


Jean Pierre Lebrun nos faz uma reflexão interessante em seu livro sobre a perversão comum, garantindo que para se viver no mundo é necessária uma massificação da atitude perversa, pois caso contrário se torna insustentável viver. Como exemplo, reconhecemos o prejuízo que estamos fazendo ao meio ambiente, mas criamos aparatos para não enxergar a realidade drástica, vivenciamos diariamente com o que nos machuca, mas nos comportamos como se nada houvesse: negamos a dor e denegamos a vida em sua dimensão ordinária.


Amor, Gozo & Perversão


O passo inicial para falar sobre o amor é entender através da dimensão da falta e reconhecer: amar é ser faltante. Quando amamos um Outro, enxergamos nele algo que falta em nós e imaginamos que irá nos suprir e, acima de tudo, que também iremos supri-lo. Na neurose existe essa fantasia de amor e a ideia de gozo geralmente está afastada dessa dimensão, diferente da perversão, que existe uma fantasia de gozo que afasta o amor.


O neurótico evita qualquer coisa que possa “estragar” o amor, enquanto o perverso evita qualquer situação que possa trazer o amor, pois amar implica na falta e no desejo. A pergunta perversa é: “E, se de fato, eu desejar, e esse desejo mostrar minha insuficiência? E se quando eu amar, eu me enxergar faltante e incompleto?”, quando desejamos, apontamos o que nos falta, então para tentar não desejar, o perverso cristaliza seu único desejo; e podemos pensar nesta pontuação citando a eleição de um fetiche, elucidando esta ideia através de um exemplo: Imagine que você é um homem e conhece uma mulher, no primeiro encontro ela expõe seus desejos e ao fazer isso você se entende como insuficiente, afinal, se ela está mostrando seus desejos é porque algo está faltando e, se essa falta está presente, você também se vê como faltante. Para fugir dessa relação angustiante, ao invés de desejar a mulher inteira, você passa a se relacionar com seu sapato, reduzindo a mulher enquanto um objeto desejante a um objeto que não deseja nada e, se este objeto nada deseja, então nada lhe aponta, e a partir daí consegue conviver com sua ilusão da completude do gozo.


A partir disso vemos que a perversão é “pobre”, pois a cena criada de forma cristalizada não permite que ela se movimente como na neurose, ficando restrito à busca de uma montagem de cena perversa perfeita que naturalmente não irá existir, o que vai levar à repetição deste sujeito.


Perversão & Clínica


O melhor elemento que vai caracterizar a perversão é a terceirização da angústia, que é o que traz o fascínio a nós, comumente neuróticos. O neurótico é aquele sujeito que vai ter que lidar com a falta o tempo inteiro e a partir disto procurar elementos para cobrir o vazio. Essa falta faz com que o sujeito neurótico deslize pelo mundo e se relacione, crie. Ah! E como o neurótico cria... o neurótico cria cultura, cria histórias, cria romances, ele cria!


A falta, que é normal em todos os seres, movimenta o neurótico e o faz ir em busca desse encontro, o leva a “tentar outra vez”, mas lidar com esta falta leva também ao sofrimento- e é quando passamos a enxergar o perverso como um Outro de grande sabedoria: O perverso sabe lidar com a angústia terceirizando-a a partir de um método que faz com que o Outro se angustie no lugar dele, e o modo que ele se coloca no mundo e lida com esse sofrimento que é oriundo da existência.


O sujeito perverso é o sujeito que menos procura o auxílio de uma análise por não querer ver que algo lhe falta, diferente do neurótico, que vem para a clínica por conta de uma incerteza, de uma indagação sobre sua própria forma de atingir o gozo.


No fundo, o neurótico não sabe o que lhe faz gozar, não entende porque se sente atraído por relações que são prazerosas, mas em alguns pontos alcançam o desprazer e o incômodo e, com isso, cria-se uma necessidade de preencher o conhecimento que se tem sobre si a partir do que o outro vai falar sobre ele, diferentemente do perverso que é alguém que não duvida da sua forma de satisfação, é alguém que sabe como gozar e a forma de atingir este gozo é peculiar.


O que seria preliminar ao neurótico na cena sexual, é finalizador para o perverso, que não consegue ir em frente com o medo da exposição de sua falta, então para que o perverso procuraria a clínica? Particularmente possuo três suposições: (1) Quando seu caminho de gozo se perde e o deprime; (2) quando tentam angustiar o seu analista com a ideia de que não podemos fazer nada contra sua transgressão junto à lei; ou para (3) esfregar em nossa cara o quanto somos limitados enquanto seres humanos, ao contrário dele, que procura vivenciar todos seus extremos no alcance absoluto, que nada pode apaziguar.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS


FERRAZ, Flávio Carvalho. Perversão. 5. ed. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2010. 146 p.

FERRAZ, Flávio Carvalho. Tempo e Ato na Perversão. 2. ed. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2010. 117 p.

FREUD, Sigmund. Escritos sobre psicologia do inconsciente, volume III. Rio de Janeiro: Imago, 2007. 205 p. Tradutores: Luiz Alberto Hanns e Claudia Dornbusch ; Consultores da teoria da tradução: João Azenha Jr. E Susana Kampff Lages.

FREUD, Sigmund. Um caso de histeria, três ensaios sobre a sexualidade e outros trabalhos, volume VII. Rio de Janeiro: Imago, 1996. 329 p. Tradutores: Jayme Salomão.

FREUD, Sigmund. Um caso de histeria, três ensaios sobre a sexualidade e outros trabalhos, volume VII. Rio de Janeiro: Imago, 1996. 329 p. Tradutores: Jayme Salomão.

KRAFFT-EBING. Psychopathia sexualis: as histórias de caso. São Paulo: Martins Fontes, 2000. 305 p.

LEBRUN, J.-P. A perversão comum; viver juntos sem outro. Rio de Janeiro: Companhia de Freud, 210. 352 p.

RIBEIRO, Caio. O triunfar sobre a castração: uma análise psicanalítica da perversão a partir do filme "crash - estranhos prazeres". 2012. 67 f. TCC (Graduação) - Curso de Psicologia, Centro de Saúde, Universidade Nove de Julho, São Paulo, 2012. Cap. 5.

ROUDINESCO, Elisabeth. A parte obscura de nós mesmos: uma história dos perversos. Rio de Janeiro: Zahar, 2008. 222 p. Tradução: André Telles ; Revisão Técnica: Mario Antônio Coutinho Jorge.

SAFATLE, Vladimir. Fetichismo: colonizar o outro. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2010. 151 p.

VALAS, Patrick. Freud e a Perversão. Rio de Janeiro: Zahar, 1990. 119 p.


Ao leitor, obrigado por ler o nosso ensaio.


,Sobre o autor:

Caio Ribeiro - CRP: 06/130984

Psicólogo Clínico com ênfase Psicanalítica.

Graduação em Psicologia pela Universidade Nove de Julho

Especialização em Psicologia Organizacional e do Trabalho (ênfase em saúde mental) pelas Faculdades Metropolitanas Unidas (FMU)

Especialização em Psicologia Clínica e em Teoria Psicanalítica pelas Faculdades Metropolitanas Unidas (FMU)

Certificado em curso complementar em Psicanálise Lacaniana pelo instituto Real Psicologia

Certificado em curso complementar em Psicanálise Freudiana pelo instituto Real Psicologia

@caio_psycho e @psiquespaco


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