• ,Deus Ateu

,Carta de amor a Jean-Michel Basquiat.

Atualizado: Jan 4

Por Larissa Nunes.

Revisão: Aline Machado

Jean-Michel Basquiat. Foto: Lizzie Himmel - Brooklyn Museum - 1985


Garoa. Novembro, 2020.


O corte é eterno.


Qual é a coisa que te mais faz sentir raiva? Onde você quer cortar? Não é problema meu.


Sabe, quando dobrei a esquina hoje, senti raiva pois precisei voltar. Subi 12 lances de escada para pegar a máscara que esqueci de colocar. Abarrotada no meu espaço. Em todas as vezes que usei máscara, eu nunca me esqueci de colocá-la. Às vezes a coloco antes de trocar de roupa. Às vezes me imagino fazendo amor e me pergunto se estou de máscara ou não. Me diz onde tá doendo, quando me mandar uma mensagem.


Quando me mandar uma mensagem, não vou precisar traduzi-la, porque você é macio.


Eu te leio bem.


Você nunca sabe onde sua raiva está. Parece até uma mulher negra.


Mas caminha tão bem por entre as cores, que tudo que você traduz na sua obra já está armado, gigante, feito para massacrar o óbvio desse país. Você esmaga o óbvio com seu Nike SB tamanho 42.


Você ainda calça 42? Você ainda gosta de pisar nas coisas? Tem pisado no coração de alguém?


Me perdoe a dramaticidade é que eu esqueci a máscara.


Eu estou aflita. 12 andares.


Mas eu estou te olhando agora. E quando faço isso gosto de deixar todo o mundo bem distraído. O bom de te escrever enquanto você está longe é que eu não preciso te encarar - você sabe que eu odeio isso. Prefiro que alguém me olhe com os binóculos dos dedos. Prefiro que você me veja de longe mesmo, com a janela embaçada. Mas sua presença que tempera os caminhos está lá, está aqui, está e está.


Eu desejo que todas as presenças sejam tão secretas e calorentas como a sua.

Eu gosto de quem fala baixinho.


Você ri alto que parece que saiu de um filme - um filme de efeitos gráficos astronômicos.

Sua pele tá cheia de rabiscos, já posso intuir - espero que você não esteja comendo giz.

Pare de balançar tanto a perna como se quisesse sair da sala.


Você parece balançar a perna pra vida às vezes. Sinto sua falta.


Eu escrevi essa carta pensando em frases que eu poderia digitar e você leria rapidamente - se você tivesse Whatsapp.


Atrasado.


Eu desejo que você mostre esse bilhete pra mais alguém, curioso e orgulhoso de ter recebido esse atrevimento da minha parte. Fui atravessada pela tua sombra, em alguma esquina - de novo elas. Eu espero que você sempre retorne, das esquinas que tiver que passar.

Sem título (Vênus / O Grande Círculo), 1983


Um beijo de língua,

que tanto se ausenta

Vênus. 2000. AC.


Agradecemos por ler a nossa carta de amor.


,Sobre o artista:


Jean-Michel Basquiat (1960-1988) foi um comovente pintor e grafiteiro nascido no Brooklyn, Nova York, EUA. As pinturas de Basquiat foram reflexos da cultura popular e não-oficial em que vivia. Para a autora, suas obras expressavam acontecimentos cotidianos da vida negra, referências de marcas, música, artes visuais, produzindo subjetividades no trivial. O diálogo do texto tenta imaginar um encontro (ou encontrar o imaginário) nessa distância vivida em tempos de pandemia e como a era da informação se infiltra nos nossos afetos.


,Sobre a autora:


Larissa Nunes é atriz, cantora e escritora paulistana. No teatro e no audiovisual coleciona alguns trabalhos em destaque como a série "Coisa Mais Linda", da Netflix (2019-presente); Desde 2017 desenvolve sua escrita através de blogs como Medium, ZineZona e dramaturgias para formatos cênicos, no qual segue em formação com outros autores, além de compor seus trabalhos musicais. Larissa é cantora e seu trabalho também está disponível nas principais plataformas digitais.


Instagram: @1larissanunes @roxapoeticascenicas



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