• ,Deus Ateu

,Adão e Eva e o tamanho das coisas

Atualizado: Ago 10

Por Sérgio Roveri e Leonardo Fernandes.

Ilustração de Leonardo Fernandes (especialmente criada para o texto ADÃO E EVA E O TAMANHO DAS COISAS).


Assim que a moça do noticiário terminou de explicar, no horário nobre, como seriam os próximos dias, dias em que não haveria chance para abraços e beijos, dias em que os apertos de mão teriam o peso de um ato de violência, dias em que a proximidade entre os corpos pertenceria a um passado condenado à morte por decreto, ela olhou para o homem que dormia ao seu lado no sofá, para aquele sono que ela não sabia quando havia começado, e entendeu que, finalmente, ela e ele agora eram vanguarda. O destino, pensou, acabara de nomear os dois Adão e Eva de um mundo que amanheceria embrulhado em papel filme: caberia a eles ser os pioneiros desta nova civilização que a moça do noticiário descreveu tão bem na televisão.


Sem tirar os olhos do homem que dormia ao seu lado, ela compreendeu que tantos anos de distância e indiferença não tinham sido em vão: agora ela, ou ela e ele, caso um dia ele resolvesse acordar, poderiam ensinar que este novo mundo que brotaria naquela noite não era apenas um mundo possível, mas era um mundo habitável. Era o mundo dela, afinal. E era o mundo dele. Um dia, antes da separação dos continentes, porque ela já entendera que os continentes também se separam na vida dos casais, havia sido o mundo dos dois, um mundo destruído por uma pandemia particular de origem desconhecida, mas cujos sintomas eles estavam cansados de apresentar.


Mas não havia tempo a perder com devaneios. Ela sabia que na manhã seguinte os dois filhos, os vizinhos, os amigos mais próximos e na certa até alguns repórteres estariam à sua porta logo cedo para que ela lhes ensinasse como era possível viver assim. Assim sem beijos, sem abraços, sem mãos que se tocam ao acaso, sem corpos que se deitam sem grandes explicações além daquelas ditadas pelo desejo. Ela tinha de se preparar, tinha de ser sucinta, porque com os filhos, os vizinhos e os amigos ela poderia se perder em explicações e exemplos intermináveis, mas na televisão seu tempo seria curto, ela sabia que dariam a ela não mais que um ou dois minutos para ensinar como seriam os próximos meses. Ela pensou em acordá-lo para que juntos formulassem a aula e afinassem o discurso, mas recuou. Na última vez em que ela o acordou, ele perdeu a paciência e berrou o resto do dia. Ela se lembrava bem daquele dia: tinham caído as Torres Gêmeas. E era isso que ela queria contar quando o acordou.


Antes de ir atrás de papel e caneta para anotar o que deveria ser dito no dia seguinte, perdeu mais alguns minutos a observar o homem que dormia ao seu lado. Os braços dele tinham se tornado mais flácidos e volumosos, e ela imaginou que talvez fosse confortável algum dia voltar a ser enlaçada por eles; a porção da barriga dele que escapava da camisa também parecia ser maior que no ano passado. Olhando assim, mais de perto, ela percebeu que não se lembrava de quando começaram a aflorar aquelas dobras tão simétricas que agora praticamente escondiam o pescoço daquele homem. Ou, sendo mais precisa, que tinham se apossado do pescoço daquele homem, assim como as dunas de areia primeiro se apossam para depois apagar a paisagem ao seu redor. Ela nunca tinha visto dunas de areia, mas tinha apreço pela imagem.


E então ela se perguntou por que, ao contrário do que ocorrera com o homem que dormia ao seu lado, os demais objetos de afeto da sua vida tiveram suas medidas amputadas pelo tempo. Como aquele sapato de camurça cinza que hoje chicoteava seu calcanhar, como a aliança com seis pedrinhas de brilhante e seu nome gravado no verso que agora empacava logo na primeira falange do seu dedinho, como o seu vestido de festa, o único, cujas costuras laterais arrebentaram num grito uníssono na tentativa de ultrapassar seu pescoço no réveillon do ano passado. O tempo, concluiu ela, diminuíra tudo aquilo que um dia foi belo e caro em sua vida.


Ela se levantou às pressas, antes que a ideia lhe fugisse, abriu a primeira gaveta da estante, arrancou uma página em branco do caderno de receita e escreveu nela, em letras espaçadas, o primeiro tema de sua aula: De como as coisas crescem na ausência de amor.


Junho de 2020.


Ao leitor, obrigado por ler o nosso conto.


,Sobre os autores:


Sérgio Roveri é um dos nomes mais importantes do nosso teatro recente. Vencedor dos prêmios Funarte de Dramaturgia, Cidadania em Respeito à Diversidade, Diversidade e Cidadania e Shell, Roveri é também um criativo roteirista. Biógrafo de Gianfrancesco Guarnieri e também jornalista com longa experiência cultural, Roveri é certamente um dos mais montados e marcantes dramaturgos do teatro brasileiros. É jornalista, dramaturgo, roteirista e contista.

@sroveri


Leonardo Fernandes é formado pelo Centro de Formação Artística da Fundação Clóvis Salgado – CEFAR. Ganhou o Prêmio APCA de Melhor Ator 2016, tem em seu currículo prêmios e indicações e, mais recente, estreou Casa Submersa, em festejada montagem com direção de Kiko Marques para o Sesc SP. Jovem talento e ator obstinado, Leonardo Fernandes é hoje uma referência na construção de personagens e no processo criativo de um ator posto em sala de ensaio. É diretor teatral e ilustrador.

@fernandesleofernandes

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