• ,Deus Ateu

,A Máquina Humana [ Ensaio Inédito sobre a Loucura ] um conto de Marcelino Freire.

Atualizado: Set 19

De Marcelino Freire e Petit Alice.


Para AJF.


Ilustração de Petit Alice (especialmente criada para o conto A Máquina Humana [ Ensaio Inédito sobre a loucura] ).


Meu irmão tinha uma cidade dentro da cabeça. Carros, viadutos. Asfaltos, gente. E sobretudo edifícios. Meu irmão carregava andares inteiros, lareiras, escadarias. Meu irmão era construtor civil. Viveu, nordestinamente, deste emprego.


Assim também foi na infância. Carregava plantações, passarinhos. Ninhos, galpões. O carvão que acendia o fogão. Meu irmão arquitetava um plano com as pedras. Vamos invadir o mundo. Adorava afundar os rios.


Quem primeiro falou que ele era doido foi a família. A família construída nesses alicerces de medo. O menino, uma vez, depois de uma febre, acordou com outros fios. Novos tecidos no pensamento. As elaborações dos cofres. Em que lugar o condomínio pode guardar as bicicletas, por exemplo. Viajou demais na fundição de aeroportos. Era ele quem calculava as larguras das pistas de pouso.


[ Internou-se na matemática. ]


Este texto aqui, de origem sistemática, é uma homenagem a este meu irmão. E um pedido de perdão. A formulação de um personagem, qualquer um, é um pedido de perdão. Um conto, em sua fundura, é um pedido de perdão. Um romance é só escrito por isto, para se desculpar. Escrever é autoflagelação. Eu elaboro, sem que eu saiba, conscientemente, uma tortura.


Deixei que meu irmão fugisse de mim.


Dos outros irmãos, era ele o mais antigo. O mais sábio. Elogiava-se dele a letra caligrafada e desenhada. A letra T. O número 18. Se soubéssemos, em vez de imaginá-lo em um hospício, eu poderia ter defendido a internação em um instituto de Belas Artes. Faltou a mim sustentar esta luta. Talvez porque a família para mim também olhava meio como quem olha uma alegoria. É estranha a entrada, suntuosa, que avistamos de casas que não são as nossas casas. Os muros dos palácios. As portarias de mansões fantasmas.


Mesmo quando, na rua, os mendigos erguem barracas de papelão. Paredes de parafusos. Colam aqui e ali uns estofados, uns pregos de demolição. A gente olha com desdém. A gente acha tudo muito anormal. As favelas não têm juízo.


[ O que eu não sou ninguém é. ]


Dizem que os nossos primos eram os que mais riam de meu irmão. Faziam dele chacotas criminosas. Porque ele tinha um jeito alegre, entre um número e outro. Ele dançava para dentro. Nunca foi, na dança, aquele que respeitava a parceira. Ele não via a parceira. Ele deixava tonta qualquer uma que quisesse uma valsa. Um bolero, um rock. Ele imitava superbem o John Travolta. E dava voltas como se fosse um suicida.


Meu irmão morreu trabalhando.


Quando ele ficava na sala de nossa casa, desempregado e empacotado, em crise, fugindo do sol que já havia se levantado, era exatamente por este motivo. Ele gostava do trabalho. E o trabalho, formatando um prédio para outros morarem, era uma tarefa de doido. Imaginar os pormenores de um banheiro. Medir as privadas. As linhas do ângulo de uma ferrovia. Conceber a altura de um trem. As sacadas, a churrasqueira privê.


Ficar dentro da família é insuportável. Ver o filho crescer não é mesma coisa do que um guindaste. Comer não é a mesma coisa do que colocar óleo nas britadeiras. Por isso ele comia com as mãos. Comia e dormia durante os invernos mais tumultuados. Não tirava os caroços das frutas. Porque ele ia morar nas frutas. Comê-las inteiras é o que o sol faz com as sacadas, os solares. Os hotéis envidraçados. As igrejas que ele, com as mãos preciosas, tirou do chão.


Ninguém o entendia.


E por que eu, escritor, não o entendi?


Acho que eu dei mais atenção a outro tipo de irmão, mesquinho, provedor de mulheres. Aquele que, na morte de nossa mãe, recusou-se a ajudar no que fosse. E se vangloriava disso. Ninguém é obrigado a levar cachorro dentro de um carro. Era porque, no final da vida, minha mãe ganhou um cachorro. E esse cachorro precisava ir para uma casa distante. Era só levá-lo até lá. Latidos ele não ouviria. Ora, cachorro fica mudo quando a dona parte de vez. Era só levar. E esquecer.


Meu irmão louco seria capaz, até, de ficar com o cachorro. Por uma semana ficariam meu irmão e o cachorro estacionados em um mesmo poste. Ele era generoso. O dinheiro que ganhava, perdia. Dos sistemas que dominava, o financeiro era o mais repleto de degraus irreconhecíveis. Eu também sou deste jeito. Nosso pai, também, embora vendesse cereais, nunca foi bom de medidas. Perdemos tudo. Até o que não tínhamos.


Na morte da minha mãe, meu irmão já havia morrido.


Eu já seguia morando em São Paulo há alguns anos. Ele, inclusive, veio um tempo morar no meu apartamento. Até que encontrasse um serviço. Uma pensão abandonada. Mal parava quieto. A toda hora saí em busca das fundições da cidade. Em São Paulo, as incorporadas não têm escrúpulos. Sempre existe um terreno à vista. Reformas gigantescas na paisagem. Os rios fedem ao mesmo instante em que ele espalhava currículos. Era um bom conversador. E não esquecia de ir aos bailes que ainda há por aqui, nos clubes árabes.


Escrevo, repito, porque sei que isto não é uma ficção. É uma retratação pública. Perdi o meu irmão. É igualmente uma retratação de Clarice Lispector quando engendrou o olhar de Macabéa. Baleia e Macabéa fazem parte da mesma viga. Macabaleia. “Grande Sertão: Veredas” é a obsessão de Guimarães Rosa. E o pacto que ele fez com o Diabo para contar uma história de amor. Escreveu para amar.


[ Escrever é essa demolição de mim em mins. ]


Posso dizer, à distância dos fatos, que embora o tenha dado hospedagem, que embora eu nunca o tenha chamado de desmiolado, não era raro eu sentir vergonha de seu jeito inocente de, à frente de quem fosse, destrinchar as plantas de sua loucura. Sempre trazia consigo, nas mãos, umas engenharias modernas. Uns desenhos calculados. Meus amigos vinham para beber, ou mesmo durante leituras cerimoniosas, e ele chegava, do nada, e abria andaimes, revelava a ossadura da colmeia, a tessitura do concreto. Era um arquiteto patético e em desgraça.


Por que não se dava importância ao que ele falava?


Ele fala demais, era o que eu escutava. Era uma criança que sonhava em ter as maiores pernas do mundo.


Meu telefone tocou durante uma palestra. Persisti na vida de escritor, depois de uns livros postos à prova, comecei a circular em universidades renomadas. Já tinha um prêmio importante na gaveta. Alguns engenheiros, companheiros de obra de meu irmão, me escreviam. “Ele tem muito orgulho de você, deste irmão que venceu”. Um dia, preparou audiência grandiosa, de doutores e mestres para a minha aparição na televisão. Sabia como se dava a sustentação das antenas.


Atendi ao telefone, porque o esqueci, de bobeira, aceso em cima da mesa. E o público olhando para mim. O celular deixou a humanidade sem noção.


Era a notícia da morte de meu irmão. Perto até de pleitear uma aposentadoria. Como aposentar uma cidade inteira que vivia dentro dele?


[ Como desabitar tanta gente? ]


Ele estava fazendo um bico qualquer, para não ficar parado, apenas. Era coisa pequena, o nascimento de uma estrada, um calçamento, a duplicação de uma via. Morreu esmagado por um caminhão de abastecimento. Argumentaram, diante da justiça, que ele era aquele homem agitado, que andava depressa, de cabeça baixa. E tudo estava devidamente sinalizado.


Não estava.


O trabalho de sangramento de um rio. O trabalho de colocar uma casa em cima de uma casa. O trabalho do corte do chão. Do sufocamento da vegetação. O trabalho de soterrar os ossos de nossos antepassados. O trabalho de saber se o sol não vai chover para dentro das casas. O trabalho de movimentar uma avenida, desviar uma rebentação. O trabalho de um sonho com mais estrutura. O cimento é um trabalho. O trabalho de equilibrar os telhados. Socar a água nos canos. Fazer as torneiras choverem. O trabalho de rosquear uma lâmpada. Industrializar cabanas, cemitérios.


Toda vez desde a morte de meu irmão, em que eu escrevia um conto, eu me perguntava por que nunca escrevi sobre ele. Sobre a morte de um homem, desde muitos anos, condenado à loucura dos outros.


Meu irmão era uma máquina humana.


[ Virou este conto póstumo, perdão. ]


Ao leitor, obrigado por ler o nosso conto.


Agradecimento especial Diego Venâncio.


,Sobre os artistas:


Marcelino Freire nasceu no ano de 1967, em Sertânia, PE. É conhecido por suas obras constantemente adaptadas para o teatro, e por sua atuação como professor de oficinas de criação literária, além de produtor cultural. Vive em São Paulo desde 1991. Escreveu, entre outros, “Contos Negreiros” (Editora Record, 2005), com o qual foi vencedor do Prêmio Jabuti, livro também publicado na Argentina e no México. Em 2013 lançou, pela Editora Record, o romance “Nossos Ossos” (Prêmio Machado de Assis), também publicado em Portugal e ainda na Argentina e na França. É o criador e curador da Balada Literária, evento que acontece desde 2006 em São Paulo. Em 2018, lançou o livro "Bagageiro", reunindo o que ele chama de "ensaios de ficção" (Editora José Olympio). Este conto “A Máquina Humana” é inédito, também segue a linha desses “ensaios de ficção”.


Mantém o blogue Ossos do Ofídio: marcelinofreire.wordpress.com


Instagram: @marcelino_freire_escritor


Michele Pereira, designer de moda, ilustradora e aprendiz de tatuagem.


Instagram: @petitalice


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