• ,Deus Ateu

30 ANOS BLUES – Andradina & Dida – Macunaíma’s “in” Santa Cecília

Atualizado: Out 21

Por Marcio Tito.

A dupla de cineastas posa para a divulgação de 30 ANOS BLUES


Vinte e poucos anos jazz, ou sobre o que o filme diz quando opta por não dizer:


São Paulo, com seus expedientes fluidos e suas amizades sobrepostas num entre-casas onde ninguém mora, é a cidade brasileira que mais se parece com o país da Internet. A irresponsabilidade paulista, filha de uma utopia que nos diz que ainda haverá algum café parar especular na Bolsa do café dos fantasmas que andam ao redor da Estação da Luz, é o que de fato nos constitui como a pior solidão do país. A pior solidão é a companhia de um paulista! - Foi o que disse Nelson Rodrigues, outrora.


Diria eu que, dentro de um filme de Andradina Azevedo e Dida Andrade, o pior casamento é o casamento com um paulista, mas também, a pior volta para casa é a volta para casa dos pais paulistas e, finalizando com a mesma faca, o pior ateliê é o ateliê do paulista!


É terrível sermos esses filhos e pais de ninguém e de coisa nenhuma, mas atados ao concreto dessa cidade, é o que nos resta para a busca de sermos felizes, ou ao menos, na hora da busca de sermos pelo menos “filmes” mais ou menos felizes.


Andradina Azevedo e Dida Andrade mostram que o desejo finge realizar algo (porque finge não ter percebido qual a sua “falta fundamental”).


“É impossível ser casal, ser artista, andar de carro sem falar, ser um mecenas que não transa os consagrados e as consagradas artistas e, finalmente, é impossível romper sem se sentir culpado pela nova direção.” Andradida e Dida são os Raskolnikov das pequenas coisas.


Raskolnikov da banalidade que sentem, da falta de significado que sentem todo dia, toda hora e dentro de todas as relações.


Frágeis, sentem sempre que a culpa aparece antes do gesto. Frágeis, choram antes do choro e perdem o falo muito antes da castração.


No fundo, no fundo, esse Raskolnikov é coisa diferente, pois em si, são eles mesmos as velhas que sabem que não farão nenhuma diferença ao curso da história -mas que, falando disso da forma como falam, poderão fazer diferença ao curso do cinema brasileiro.

Dida e Andradina retratam a geração pós-guerra no Brasil, cujo grande conflito se deu na “bomba-Collor” dentro da economia criativa dos anos 90.


A cidade espatifada culturalmente e cercada por uma elite que imprimiu prédios no horizonte, na obra da dupla, é menos que uma caricatura amarga, porque é uma caricatura amarga adoçada com adoçante (que emagrece e mantém as aparências, porque no final de contas o que importa é o corpo estar magro, ter namorada magra ou gozar com a novinha, o corpo, mas nunca o sujeito).


O que significa a cena do ateliê onde aqueles “artistas” com suas “liberdades” não oferecem nada para nossas sociedades?


Significa que “Estamos todos à mercê de artistas desconectados do real, apaixonadamente presos no período romântico da literatura e, sobretudo, órfãos da dimensão do trabalho que nos une enquanto miseráveis em busca de algum amparo social (sobretudo no terceiro mundo).”


Talvez a obra nos pergunte a cada improviso... Qual o dever do artista no terceiro mundo?

Dida Andrade e Andradina Azevedo. Na tela, ao fundo, cena de Bruta Flor do Querer -2013 (o primeiro longa da dupla)


Parte II

Porque talvez seja sobre a cidade:


São Paulamente falando, o cigarro que você fuma no bar aonde você vai -porque é o bar que você prefere e porque hoje você prefere bares que te completam enquanto invenção de si- é o cigarro que te inventa melhor diante do outro.


São Paulamente falando, somos todos filhos da mesma miséria de cigarro comum ou incomum. Do mesmo emprego conquistado, ou cedido, que seja ou não uma ocupação (que produza, ou não, uma vida financeira estável e adulta).


Em São Paulo ninguém se ama. As pessoas se apoiam (e quase sempre falam mal de quem as apoiou ou de quem apoiaram.)


Nossa falência cultural é falar de camisinha no cinema; e a genialidade da nossa cultura é falar dessa camisinha que não deveria precisar ser nomeada.


Talvez a mais profunda inteligência do filme seja essa, a sua submissão em dizer o que já nos diz a vida, ainda que em contrassenso àquilo que seria “elevado” dizer sobre as coisas, do ponto de vista da arte.


Se somos quase todos alfabetizados e responsáveis por nossas condutas sexuais em um contexto de classe média – por que a camisinha dita importa tanto ao crivo sobre a obra? Porque, sobretudo, nos aponta que o Brasil depende do olhar corajosamente “antiestético” de artistas como Andradina e Dida para vir a consertar cada rombo espiritual do período Collor (em um prospecto de mais duas ou três gerações a seguir).


Parte III

O que é cinema? - Tudo isso enquanto qualidade:


Cinema é quando uma coisa idiota parece legal só porque foi filmada – e dois artistas tiveram a coragem de dar o play nesse óbvio.


Cinema é quando um monte de fatos desimportantes são filmados e, conforme sequenciados, no final, o monte de coisas desimportantes que foram filmadas se torna um tipo de confissão ou um tipo de teoria sobre as coisas coletivas de uma época – conforme a lente do artista se debruça nesse limbo econômico, filosófico e absolutamente pós-moderno.


Cinema é quando a gente se organiza para aparecer na tela a qual ninguém mais vai aparecer, porque o filme é um projeto nosso e ser nós mesmos é a única forma para habitarmos e refletirmos sobre o mundo.


Cinema é quando a gente faz em imagem as coisas que as bandas de rock fazem com os instrumentos musicais.


Cinema é quando a gente fica procurando algo e aproveita para filmar essa busca.


Cinema é filmar as coisas que não foram ainda castradas, mesmo que isso nos obrigue a expor os nossos falos como ridículos de si.


Parte IV

Surgem duas personagens para um Brasil de pouquíssimos personagens inesquecíveis:


Surgem dois anti-heróis brasileiros. Estranhos “macunaímas” para uma cidade atravessada – Dida Andrade e Andradida Azevedo são a nossa boa gente, os nossos “heróis” sem nenhum caráter.


* A Santa Cecília é um tradicional bairro paulista. Atualmente o bairro figura marcado pela juventude que ocupa a economia criativa. Os protagonismos do centro da cidade podem ser quase todos encontrados por ali. Estilo de vida, renovação cultural e muitas críticas ao liberalismo atravessam as contradições do bairro.

Ao leitor, obrigado por ler o nosso ensaio.

Agradecimentos especiais - Miguel Arcanjo Prado, Belas Artes À LA CARTE e Blog do Arcanjo.


Instagram: @andradina_azevedo @dida_andrade87 @miguel.arcanjo @belasartesalacarte @30anosblues


30 ANOS BLUES, de Andradina Azevedo e Dida Andrade. Streaming: Pré-estreia digital de 20 a 23/8/2020 no Belas Artes à La Carte.

https://www.belasartesalacarte.com.br/


30 Anos Blues tem sessão nesta quinta (3/9), às 20h30, no Belas Artes Drive-In no Memorial da América Latina.

Ingressos: https://bileto.sympla.com.br/event/66195/d/87659/s/456588


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