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,Sobre o filme Piedade

Atualizado: Jul 27

Por Marcio Tito.


Piedade, o recente filme de Claudio Assis, tem roteiro de Hilton Lacerda. No elenco, aliás!, no extraordinário elenco, alguns dos sujeitos-personagens mais fundamentais para o nosso cinema recente. Fernanda Montenegro, Matheus Nachtergaele, Irandhir Santos e Cauã Reymmond são alguns desses nomes. Piedade fez sua estreia digital na plataforma Looke, numa iniciativa do Espaço Itaú de Cinema. Marina Calvão, cineasta, atriz e sonoplasta debate aqui no Deus Ateu alguns dos pontos subjetivos e afetivos dessa obra que funciona como alerta, legenda, sublimação, caricatura e possível documento de identidade a para os atuais dias da vida brasileira.

Cauã Reymond, Fernanda Montenegro e Claudio Assis nos bastidores de Piedade - Créditos -  Bárbara Cunha


Diálogo captado por meio do aplicativo Whatsapp:


MT - Marina, como nos conhecemos quando éramos atores, você e eu nos Satyros, depois na Tragédia Pop, acho que é daqui que vou partir para a nossa viagem sem rumo, mas cheia de intuições que buscarão significar algumas coisas sobre o filme... O elenco parece engajado em ser partilha e depoimento (ou mesmo uma "confissão"). O que quero dizer com isso? Não sei. É um sentimento, é uma suspeita. Mas parece que todos estão "ao mesmo tempo" e na mesma linha que o roteiro e a direção, e isso é muito bonito! Faz surgir um sentimento de "trupe teatral". Bonito também porque acaba colocando uma impressão digital coletiva no trabalho. Acho que estou falando de vocação, de engajamento verdadeiro, entende? Estou falando de compromisso, pacto, equipe, ideal! O filme é uma "atitude de filme", isso, claro, no meu ponto de vista... Quero dizer, as coisas parecem atender ao mesmo desejo e parecem desejar também os mesmos lugares finais. Não há disputa entre as áreas. Marina, para onde o filme levou o seu olhar?


Marina - Meu olhar alcançou o cenário que vivemos atualmente. Essa sensação de cada parte do país estar à venda, também se conecta com o que algumas outras ficções têm feito também no cinema. Acho que esse "carimbo" que alguns diretores brasileiros mais comprometidos estão tentando trazer com essas narrativas é uma coisa, é um ato que algum dia será o traço específico e marcante da nossa narrativa cinematográfica nacional. A temática dos filmes, dos filmes em geral, muitas vezes tem este intento, tem essa vontade de atravessar as pessoas com uma boa ficção (mas nem sempre as personagens protagonistas seguram). Em Piedade as personagens têm suas estruturas psicológicas e comportamentais bem construídas e permeadas de contradições (assim como nós na vida). Isso traz riqueza para a narrativa, essa "construção" de quem habita Piedade e de como esses enfrentam os seus dilemas... O Cláudio Assis e os outros roteiristas de Piedade tiveram o cuidado de situar o universo ideológico e material, as ambições, as gerações e seus embates, bem como situaram também as sombras que envolvem a narrativa de cada personagem...


MT - Então o filme acontece segundo o cenário que o cerca, quero dizer, citando a realidade que o cerca e nos cerca também aqui do lado de fora da tela, conforme a sua opinião, certo? Qual fábula ou abstração ainda poderíamos encontrar nesse tipo de material, ou não estamos em uma época adequada para "filosofar" tão livremente e acabamos indo sempre para o caminho do real? Você fala em diretores comprometidos, comprometidos exatamente com o que? Qual é essa direção que, segundo você, está apontada e defendida pela tese objetiva do filme? Nesse contexto, se eu não tivesse assistido ao filme... pensaria que faltou abstração, caso me pautasse apenas pelas tuas linhas. Faltou abstrair? É um filme sumariamente realista, é assim que você enxerga?


Marina – Tito, eu acho que o filme já é a própria fábula sobre o tema da nossa história coletiva e de país. A "velha" temática que se renova sob um cenário e dilemas contemporâneos. Eu acho importante ser feito um filme assim porque o cinema nos pontua aonde é que estamos.


MT - De qual "velha fábula (ou temática)" estamos falando?


Marina - Não é uma velha fábula. É a velha temática da história de um povo colonizado. É um fato histórico não resolvido. E aí o cinema, assim como outras linguagens, assume um pouco a responsabilidade de confrontar a velha projeção no espelho. É importante, sabe? Faz com que o espectador transite entre as personagens e não se identifique com um só ponto de vista... porque esse conflito é um emaranhado de emoções que cruzam a história do Brasil hoje, e que também consta em nossos registros ancestrais como povo, aceitemos ou não...

Fernanda Montenegro e Claudio Assis - Créditos - Bárbara Cunha


MT - Quando falei da "velha fábula”, quis dizer enquanto "histórias que sempre contamos", pois concordo com você que essa ainda é a história que precisamos contar e recontar. Perfeita a sua colocação sobre o eterno retorno das coisas que não exorcizamos bem, ou que não expurgamos de modo coletivo. Também acho o assunto do filme bastante presente e dotado de uma atualidade intrínseca e urgente. Em Piedade, talvez até como parte do enredo, existe ali a estética do Claudio, e o Claudio Assis não tem uma formação clássica, quero dizer, pautada pela tradição do aprendizado formal da academia. Você, que tem um trabalho experimental, mas que conhece bem o universo formativo tradicional, me diga... o desse filme não se aprende na escola? Aonde está o experimento ou o "refazimento" de uma "forma cinematográfica" nessa obra? Podemos classificar algo?


Marina - Caramba, acho que muitas das coisas estão aí neste filme não se aprende na escola. Acredito que a maioria delas só se deve aprender com o Claudio mesmo, rs. Na escola a gente passa por todas as áreas e aprende as técnicas cinematográficas, de direção e roteiro, foto, som, arte, produção... nas aulas teóricas adquirimos referências e desenvolvemos nosso olhar estético, mas eu acredito que é só trabalhando e realizando filmes que este olhar tão específico e sensível, como o de Claudio Assis, por exemplo, é aprimorado e surge como identidade, assim podendo ser transmitido para todas as outras áreas que compõe a realização de um filme. Os filmes do Claudio Assis, ainda que com temáticas muito diferentes, tem sempre o tom dele, e a cara de "concretude" dele. As lentes dele. São coisas que se adquire com o tempo e com os erros que experimentamos! Mas quando já se tem estrada, as pessoas que trabalham com você embarcam na tua não sabendo qual a direção apontada. Cinema é um trabalho coletivo, se a orquestra não tá afinada, aí o filme perde a cadência. Piedade é um filme lindo, com cara de primor. Tem a cara de ser um filme de equipe, bem conduzido, bem montado, bem atuado. Cinema é um trabalho coletivo, se a orquestra não está afinada, aí o filme perde. E isto se adquire na vida, não tem escola que te dê essa bagagem.

Fernanda Montenegro, Francisco Assis e Matheus Nachtergaele - Créditos - Bárbara Cunha


MT - Coisa linda isso! Citando Paulo José, que vi citado na boca do Matheus Nachtergaele em uma entrevista que assisti, parece mesmo que "o Brasil faz o melhor cinema brasileiro do mundo". Acho que o percurso do Claudio e de sua equipe constante, é riquíssimo, sempre inventa coisas e seguidamente revisa as coisas que inventou. Marina, num cenário aonde pegamos o período Collor como um apocalipse das artes no país, e o pós-Collor como um tipo de retomada do cinema nacional, tendo Cidade de Deus e O Auto da Compadecida como talvez um ponto de partida para uma nova etapa de valoração, ou mesmo como símbolos... aonde o Claudio cabe? Qual diretor ele é diante da profusão desse movimento?


Marina - Eu achei difícil essa sua pergunta. Aonde cabe? Cara, ele foi o cara que fez Amarelo Manga. Vários filmes muito peculiares e só dele, saca? Uma coisa me dei conta... Piedade é um filme com bastante diálogo, se compararmos com outros trabalhos do Claudio. Eu tenho a lembrança de Amarelo Manga e O Baixio das Bestas, que são filmes com menos diálogos. As personagens falam com elas mesmas, com o espectador, com os bichos, então sempre tem algo de reflexivo. O Piedade tem muito mais diálogo. A narrativa se desdobra através das interações. Em Amarelo Manga também, mas é como se cada personagem contasse sua própria história, em Piedade o laço entre as personagens é outro, mas também é uma história sobre uma família. Pensando nas especificidades e em alguma "comparação", ele é um diretor com uma característica diferente do Fernando Meireles por exemplo, ou da experiência do Guel Arraes no Auto da Compadecida. Ele faz filmes de baixo orçamento, de verdade! Ele não é um diretor de cinema megalomaníaco. A realidade que ele tomou para si, e que coloca em xeque as verdades de época que perpassam os filmes, sobretudo do momento em que ele conta o filme, mostram um pouco do estilo de cinema dele. Que vem junto com um engajamento pessoal também. ""Engajamento" é um nome bom que você deu e que eu acho que tem a ver também com o "como fazer". Como realizar! Entende? Ele poderia "ser" um Fernando Meireles, mas ele tá fora, é underground, mas underground pelo lado dentro. É um disco de lado B.

Irandhir Santos - Créditos Bárbara Cunha


MT - Eu concordo com a sua percepção da organização e construção dos silêncios nos filmes do Claudio, de modo geral, Marina. Tenho a impressão até de que os silêncios dos filmes anteriores funcionam como metáfora intuitiva para os lugares secos aonde o Cláudio tradicionalmente filma. Embora o Piedade se abra com uma cena de mar, ainda assim, as coisas também me soaram como "secas”, ou prestes a secar, né? Piedade é, de fato, um ponto novo nesse trajeto, mas... estamos esticando! Vamos encerrar? Acho que já surgiram nesse papo alguns pontos bastante interessantes, e quero deixar os nossos leitores municiados dessas dúvidas. Com um olhar quase despreocupado e quase "não-formal" acho que cercamos suficientemente algumas chaves do filme. A nossa contribuição é essa, mas, antes do beijo e do tchau, vou pedir para que você fale livremente sobre qualquer filme do Claudio. Assim a gente deixa aqui um pouco do eterno retorno rs! Obrigado pelas respostas pessoais e comprometidas em buscar o desconhecido. É bom falar com gente!


Marina - Vou escolher o Amarelo Manga! Sabe, o Amarelo Manga retrata a estranheza humana com muita fidelidade, por isso é tão impactante! A fotografia é linda, a luz expressiva, as personagens têm muita vida (ainda que sejam quase invisíveis aos olhos da sociedade). A maioria delas tem momentos em que falam sozinhas e refletem sobre a existência e suas realidades. Os diálogos são precisos. Ele, o Claudio, conseguiu traduzir alguns estereótipos que já estavam presentes naquele momento do país (bastante anterior ao nosso). Trouxe isso com todas as camadas que a representação do nosso povo merece. Esse filme é uma obra incrível. Ainda bem que nós o temos na nossa cinematografia, Tito.


Obrigada! Vamos ficar por aqui sim... beijos!


MT - Bju!



Ao leitor, obrigado por ler a nossa entrevista.



,Sobre a entrevistada:


Marina Calvão é formada em cinema pela FAAP. Atualmente atua na área de sonoplastia e edição.



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