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,O Teatro Oficina Digital - Documento Paranoia

Por Marcio Tito.


O poeta Roberto Piva é ainda o nome forte do surrealismo brasileiro no mundo. Ao lado de Murilo Rubião, Murilo Mendes e Claudio Willer, Piva nos inclui de modo profundo no ambiente das vozes internacionalmente surrealistas de Maruja Mallo, André Breton, Jean Cocteau, Remédios Varo e Cruzeiro Seixas.


Desde o final dos anos 60, quando publicou “Paranoia”, com fotografias do artista multimídia Wesley Duke Lee, o poeta abre caminhos e todas as direções apontam para a recriação de uma São Paulo à luz de sua "viagem" espiritual, experimental, beat e lisérgica.


Poeta atravessado por uma miríade de desejos tão explícitos quanto seus versos, Piva foi artista, xamã urbano, "psicodelista" e antropólogo formado na universidade da deriva intuitiva, racional, formal e atemporal. Piva foi, de fato, um experimentalista brasileiro.


Viajou infinitos mundos dentro dos mesmos becos e narrou com muita paixão e método a produção de símbolos e sentimentos na cidade de São Paulo dos anos 60, 70 e 80.


Roberto faleceu em 2010, 47 anos após a publicação de seu elementar “Paranoia”, publicado em 1963.


O Teatro Oficina, fundado em 1958, é a mais importante e sólida instituição teatral do país. Instituição sim, porque não se permite jamais estar longe das atividades não apenas culturais, mas também essenciais ao bom funcionamento do espírito coletivo da cidade, assim, portanto, institui há mais de 60 anos a nossa fraternidade brasilis e a nossa dionisíaca utopia tropical.


O Teatro Oficina Uzyna Uzona deixa há mais de seis décadas a impressão de que quando deixarmos de sonhar juntos, bastará irmos ao Oficina para termos renovado o sentimento de tribo e esperança, como se pudéssemos consultar "pajés urbanos e cênicos" em seu Terreiro Eletronyko projetado pela arquiteta Lina Bo Bardi.


O Teatro Oficina se define pelo modo sublime com que ressignifica a vida por meio de rupturas organizadas. O corpo, no Oficina, é "corpo". A alma, no Oficina, é "alma". A “alma”, no Oficina, é "sujeito". E o “sujeito”, no Oficina, é uma possibilidade eterna e de eternidade(s).


Esse pensamento insistentemente real, vivo e autoral, porém sempre coletivo e propondo partilhas, é quase sempre centralizado pela mídia na figura do maior encenador vivo brasileiro e do mundo, José Celso Martinez Corrêa, ou, como há tantos anos a cultura bem sabe, o Zé Celso da Rua Jaceguai, ator, dramaturgo e diretor de teatro.


Esse criativo criador de criatividades pondera, ainda hoje, após décadas de criações e recriações, algumas novas experiências em suas encenações, mas, junto disso, vê o Oficina desenvolver outros e novos trabalhos profundamente conectados ao espírito original do grupo. Disso surgiu a experiência de “Paranoia”, com direção de Marcelo Drummond, e agora realizada em formato Live, anunciando assim o Teatro Oficina Digital e Online.


Desde 2013, Marcelo Drummond, que já dirigiu duas peças de Plínio Marcos sob a assinatura do Teatro Oficina, se junta aos criadores Igor Marotti, Zé Pi, Cecília Luchesi e Sonia Ushiyama para trazer ao centro do debate paulista uma obra que continua, completa, revisa e confirma o percurso cênico e criativo do Teatro Oficina. O espetáculo “Paranoia”, dentro de uma cena intermídias, traz ao palco de modo integral, o texto do volume Paranoia.


Aqui nesse documento tão polifônico quanto a obra de Roberto Piva e as 6 décadas do Teatro Oficina, um apanhado de "vertigens" e intuições acerca do poeta e do processo teatral buscarão compor algumas balizas um pouco concretas acerca dos pontos centrais da obra sendo esses: O poeta, A poesia, O espaço cênico transposto para a dimensão virtual, Os processos criativos e como é que isso tudo acontece ao mesmo tempo e agora, hoje, dentro das telas luminosas que precisarão acessar a plataforma Zoom para revelar a encenação do grupo.


Desejo a todos uma leitura apaixonada!

Marcelo Drummond em trabalho gráfico para divulgação de Paranoia.


Todas as perguntas e respostas aconteceram dentro do aplicativo WhatsApp, via texto e áudio.


MT - Marcelo! O Roberto Piva propõe um tipo de transe ou elevação da consciência ou nova consciência conforme vamos progredindo em seus versos... Ao menos é assim que me parece. Contudo é raríssima a experiência que você propõe como ator quando traz "o livro inteiro" para a cena. Fica então uma vírgula, um "dois-pontos", um "qualquer coisa" para que possamos elaborar juntos - você, como intérprete, experimenta algum tipo de transe na hora da cena? Conforme os versos se sobrepõem nessa maneira psicodélica, tanto na forma, quanto na encenação em si, você se sente transido?


Marcelo - Sempre. O teatro tem um certo transe! Isso é normal. Tem vários motivos que te fazem ficar em um estado alterado de consciência, vamos falar assim, na hora da cena; Às vezes o excesso de oxigenação. Você está falando, respirando fundo, então isso tudo mexe com a gente. Há sim um certo transe. Agora, no Piva, ele de fato propõe isso. Embora ele diga que na época do “Paranoia” ele era um ser urbanoide e que depois ele realmente virou um xamã e se ligou mais à natureza, e se ligou mais nas culturas primitivas...


Em “Paranoia”, à medida que você vai falando aqueles versos, os poemas tem essas coisas, né?! À medida que você vai ouvindo ou falando os versos chega um momento que aquele ritmo vai te dando um sono, não no caso de “Paranoia”, porque vai mudando, mas aquele ritmo constante do poema... Chega uma hora que aquilo "te liga", e você passa pra outra, passa mesmo! Eu não sei como é que se pode chamar isso rs...


Mas dá uma ligada no sistema, não sei, neurológico! Alguma coisa acontece. É muito comum você ficar ouvindo e ter um certo sono e, vencer aquele sono, e ficar muito ligado, aprender muito...


MT - Um alucinógeno literário rs...


Marcelo - É, “Paranoia” termina com essa frase "eu sou uma alucinação na ponta dos teus olhos", aí na peça vem o “Poema Vertigem”, que não faz parte do livro, e que é de um outro livro dele...


Mas, em “Paranoia”, eu vou soltando. Tem uma catarse, estou "botando fora". Eu saio realmente transformado. Não saio dali a mesma coisa, como se tivesse feito "nada". Eu sinto um movimento teatral, quer dizer, tem uma personagem ali. Não é uma coisa sem personagem, inclusive como eu pensei que fosse no início. Não! Tem uma personagem. Bom, pode dizer que é o Piva, o poeta, enfim... Mas tem!


MT - Incrível isso da personagem... Me parece até que você não interpreta o Piva em si, mas que você acessa o lugar que ele acessava. Não que você acesse enquanto sujeito, mas como um xamã urbano então... É muito legal a gente se falar antes da estreia digital. Assim fica mesmo a sua impressão sobre o ainda não-realizado...


Você sente que a sua relação com o espetáculo nessa mídia trará impressões similares com essas que você descreve acima?


Marcelo - É bem diferente do ao vivo. Mas é ótimo fazer... Não tenho "diferença", problema, preconceito. É muito bom de fazer. E eu não sei... As pessoas tem intimidade com tela sim. Elas veem coisas, ouvem coisas que podem tocar. Toca muito a poesia do Piva sendo ouvida. Então estou tentando uma série de coisas. Uma articulação mais precisa para que aquilo ali do Zoom não fique...


... Estou tentando me limpar de coisas que eu já tinha hábito de fazer. Então eu fico na poesia. No lugar pequeno. Eu não tenho "espaço".


Fico, grande parte, sentado num banco, então é muito diferente. E a própria viagem é diferente e aí eu me solto "viajando"... Às vezes pode dar um erro também rs.


Eu tento dar "mais" na voz. Mais do que tentar fazer alguma cena ali. No palco a gente quer dominar o palco. Chegar perto, projetar mais. Aqui eu não preciso fazer isso...


MT - Para dar uma chaveada no assunto, porque acho que você já colocou de forma total a relação do intérprete com a poesia e da poesia com as mídias, enfim... Pra mim isso tudo está bem sequenciado. Marcelo, quando o Piva escreve o “Paranoia”, ele está articulando uma série de delírios a cerca de um mundo, dessa metrópole e, sobretudo sobre, sobre São Paulo. Esses delírios são mediados pelas experiências alucinógenas tanto sensíveis quanto lisérgicas. Nesse sentido, você imagina, e aí é um exercício de imaginação mesmo, mas... Como seria o confronto desse momento de obrigatoriedade digital, de mídia, da tela, diante da produção do Piva?


Eu perguntei ao Cláudio Willer se o Século XXI estava mesmo dando razão ao Roberto Piva -como o poeta aponta no manifesto que escreveu. Você acha que o século XXI terá mesmo que dar o braço a torcer de que estávamos desde lá entrando em uma paranoia coletiva enfiada em algoritmos, mecanismos, sistemas... Como você percebe isso?


Marcelo - Eu não sei se vai dar o braço a torcer. Mas estamos completamente enfiados em algoritmos. Agora, o Piva é desses poetas que vai ficar pra sempre. Século XXI, XXII, enquanto puder. Enquanto existir.


MT - Concordo. O Piva será eterno. A gente vai precisar sempre dele. De modo coletivo, não teremos uma sociedade parecida com o que ele projetava, mas é a nossa obrigação tê-lo no horizonte. Foi um espectro de liberdade muito simbólico. Obrigado pelas tuas palavras, Marcelo. Estou satisfeito e acho que o público terá uma apreensão deliciosa tanto do seu olhar quanto do processo, da poesia do Piva... E, agora também, do Piva no teatro, que é uma experiência relativamente nova, né?! Vou continuar investigando com os seus parceiros. Beijão!

Marcelo Drummond digitalmente em cena.


Caro leitor, agora adiante, entrevistarei a artista Cecília ‘Ciça’ Lucchesi. Os demais entrevistados se explicitarão na dinâmica da conversa, (respectivamente Igor Marotti e Zé Pi):


Ciça - Tito! Sou a Cecília Lucchesi e faço videoarte. Vamos ter também intervenção de imagens remotas, nessa adaptação online.


MT - Como ainda não aconteceu... Me diga, como você deseja que isso tudo seja visto? Como você projetou isso, Ciça?


Ciça - Muito legal ouvir tudo que você falou com o Marcelo, Tito. Bom, no palco a gente projetava em cima do Marcelo, imersão mesmo, essa coisa de fundir um pouco a câmera ao vivo, com uma quantidade enorme de imagens do repertório que foi pesquisado a partir do “Paranoia”. Tem muita imagem, essa coisa quase cubista do fragmento, da simultaneidade, de situações que tem a ver com a experiência urbana. Então na hora de levar isso para esse formato digital, foi natural a gente querer que uma dessas telinhas (do Zoom) fosse ocupada por esse repertório e, no final, acabou escorregando para mais telas.


O Igor também está no disparo das imagens. Eu não sei bem como as pessoas vão entender, mas é uma coisa de justaposição, um díptico da cadência do Marcelo com os poemas. A trilha sonora do Zé Pi, executada junto, e as imagens vão em uma vertigem... Momentos de muitas imagens, e momentos de imagens abstratas.


Tem muita referência ao cinema novo (que tem tudo a ver com o universo do Piva e do “Paranoia”). Pra um dos poemas eu fiz uma edição do “Bandido da Luz Vermelha”, do Sganzerla. Outros momentos tem uma colagem com uma profusão de imagens vertiginosa, mas também títulos, frases, frases que abrem poemas, coisas que também vem pra tela.

Me preocupa como as pessoas vão configurar para assistir. Enfim, em alguns dos ensaios um espectador só viu a câmera do Marcelo, não chegou a ver as imagens. Mas estamos fazendo uma abertura e fizemos um tutorial para que as pessoas configurem o aplicativo para que tenham uma experiência mais de acordo com o que a gente deseja. Usaremos as imagens de Duke Lee presentes na edição da Cia das Letras para um dos momentos de apresentação...


MT - Você foi super clara. Então ficou tudo dito. Mas vou te fazer uma pergunta "anterior" - Quando surgiu a necessidade de realizar o livro em imagem, o que você pensou? Bom, o livro de poesias se completa com as fotos do Duke Lee e talvez facilite para as áreas visuais, mas te escutando, me parece que o processo, entre infinitas aspas, foi "animar" o simbólico daquelas imagens do Lee. Então quando surgiu o trabalho, como você determinou que trouxesse tudo em experiência visual? Como foi "o dia zero" da montagem?


Ciça - Tem algumas obras que eu quero citar. Faço questão de falar. Quero dar a informação completa, vou ligar o meu HD e...


MT - Vai falando livre, eu coloco no final!


Ciça - Legal! Então vou falando aqui e, na sequência, te mando os créditos. Mas, pra falar sobre o start do trabalho, bom, desde 2013, quando o Marcelo fez a primeira montagem, eu tava junto nessa proposta de fazer a videoinstalação. Desde então estou colecionando imagens para esse baú do Paranóia. Elas, essas imagens, só vão se multiplicando e ganhando caldo e eu só vou ver no final da apresentação. Tem coisas lá de trás que ressurgem e eu trago de volta! E tem alguns trabalhos... O filme do Tadeu Jungle [01] que aparece o Piva falando daquele jeito incrível- maravilhoso. É aquela entrevista que ele fala que "Não existe poeta experimental sem vida experimental". E eu acredito que isso tem tudo a ver e eu levo pra mim.


Gosto muito desse modo de vida xamânico e psicodélico. Tanto espiritual quanto recreativo, então foi um pouco abrir o baú do inconsciente e nas pesquisas ganhar muitos tesouros nos encontros com obras, por exemplo, São Paulo Sinfonia de Uma Metrópole [02], que é super Dziga Vertoviano, que mostra a cidade em um fluxo intenso, mas em várias fases dela, depois São Paulo Sinfonia e Cacofonia [03], que também tem uma coleção de imagens incríveis, uma edição super esperta!


O cinema da boca do lixo guiou muito o trabalho. É impressionante como tem a cara do Piva essas imagens do cinema marginal. Foi um pouco beber nessas fontes e acreditar na qualidade dessas imagens e deixá-las acontecer. Mas também tem uma atmosfera meio beat, algumas imagens do grupo “Fluxus” de NY [04], as imagens do Andy Wharhol - aquela videoarte famosa daquele garoto de programa recebendo um sexo oral, Blowjob [05], e isso tem tudo a ver com a coisa soft porn meio sacana, do Piva. Esse pornô gay, essa atmosfera homoerótica... Estava tudo no livro, né?


Ler o livro e ter um trabalho de videoarte foi meio que abrindo portais na mente. Aí foi fácil partir para a ação, na captura dessas imagens e depois devolver tudo retrabalhado com outras camadas, justapostas, mas... Tem momentos que nessa versão online eu estou propondo uma refilmagem da tela. Então tem momentos em que tem interferências analógicas em primeiro plano, em filtros que uso... “Paranoia” é um prato cheio para esse trabalho entre vídeos e imagens. O que você acha?


MT - Perfeito. Você foi super enérgica rs. Está tudo muito bem posto... Igor, vamos contigo?

Igor - Oi, Tito. Na “Paranoia” presencial eu trabalhava junto com a Ciça, no vídeo. Eu faço lá a câmera ao vivo que entra na mesa da Ciça e se mistura com a coleção de imagens que são projetadas sobre a cena. Nessa “Paranoia” digital vamos "tocar" esses vídeos simultaneamente. Eles vão dividir a tela com o Marcelo. Crio também junto com a Ciça as peças gráficas pra divulgação. E abro a sala de ensaio no Zoom. Além de nós, temos o Zé Pi que criou a trilha, o Chicão que gravou algumas músicas no piano, aquelas que antes eram tocadas ao vivo, mas agora são tocadas a partir da base do Marcelo.


Temos a Camila, técnica de som do Oficina, que deu uma assistência pro Marcelo, pra configurar o som dele, a Luana iluminadora que fez a assistência da Luz... E a Sônia que vai participar com uma intervenção caligráfica como já fazia nas sessões presenciais, mas em uma escala menor... Ela também é figurinista, dentre outras coisas...


MT - Igor, eu me lembro bem de você em cena, mais ou menos como em outros trabalhos do Oficina, espelhando a câmera em telas e tudo isso em tempo real. Sempre assinando esses trabalhos como Kino-Atuador. O que é um Kino-Atuador? E como você transpôs essa área agora na oportunidade da “Paranoia Digital”?


Igor - O Kino-Atuador... O Oficina sempre filmou muito a sua própria história. E a presença desse câmera-ator, assumidamente em cena, mesmo na construção do espetáculo, vai contando junto com a companhia essa história. Tem esse papel de um registro histórico. Nós temos um puta acerco audiovisual. Dezenas, centenas, sei lá quantos Kino-Atuadores e câmeras atuaram ao longo de toda a história, das lutas da companhia, das peças ali no Terreiro Eletronyko que a Lina já queria que confluísse todas as artes - teatro, cinema, televisão, plásticas, performance, música...


Então esse ator está compondo nesse espaço, nesse Terreiro Eletrôniko, e a gente sai pra outros espaços também. Estamos aí pelo mundo...


Na “Paranoia digital” é "aquela coisa" rs... Não tenho como estar junto com o Marcelo. Nem qualquer outro técnico. Então o Marcelo acabou pegando o papel de técnico também. Ele opera as câmeras, a luz, a trilha, e a gente vai se reunindo remotamente, tentando descobrir junto com ele. A gente ficava numa "consultoria". Pensando os melhores lugares para a câmera ficar. O jogo dele com a câmera, ele entra e sai, usa mais de uma câmera...


Então é uma operação complexa e ele assume o papel de toda uma equipe técnica. E a gente tá ali com ele. Foi muito difícil ensaiar nos primeiros dias. Para solucionar coisas simples! Por exemplo... Ele falar e tocar a trilha ao mesmo tempo.


O Zomm não é uma plataforma feita pra isso, né?! Então tem ali um labirinto que a gente tem que ir decifrando. A gente foi tentando várias formas de fazer, até chegar numa forma que a gente acredita que vai funcionar melhor. Acho que o trabalho dos técnicos todos foi de descobrir junto com ele, todos juntos, a melhor forma de fazer funcionar. E ainda estamos descobrindo. Eu fico nesse trabalho de comunicação... A gente grava as coisas, os ensaios. Distribuo pra a gente mesmo assistir, gravo a tela do computador... É muito diferente. Eu não tenho a atuação que eu tinha, mas a gente vai se virando, se apoiando nessas descobertas desse "espaço" novo...


MT - Muito legal a disposição de vocês para realizar com qualidade. A sua fala foi bem completa...


Igor - Obrigado! Pode editar à vontade rs... O Zé Pi pode falar sobre a música original do espetáculo, o que acha?


MT - Claro!


Zé Pi - Tito!


MT - Zé, é uma pergunta muito similar... Ainda sobre a transposição da matéria presencial que precisa agora ser adequado ao modo digital. E, também, uma outra coisa que falei com a Ciça, sobre como é que foi a primeira hora, quando você precisou "tirar" música do papel, da poesia, das imagens do livro... ?


Zé Pi - Então... A transposição foi algo que, enfim, algumas trilhas eram pré-gravadas e eu disparava no espetáculo e tocava piano. A transposição foi gravar as trilhas, as pré-gravadas, e as músicas que eu fiz no piano [que] o Chicão tá gravando.


A composição? Foi instintiva. A poesia do Piva é uma máquina! Uma máquina de delírios e, enfim, fui me deixando contagiar por isso. Não seria um método ou nada que eu possa relatar. Eu fui na viagem. Fui transpondo aquele mundo de um jeito natural, sem raciocinar muito sobre isso... É isso!


MT - Quando você fala do processo instintivo... Como é que o piano surgiu como veículo? Você tem a composição, que é uma parte mais afetiva, subjetiva, então como veio o piano? Ele se impôs? Você criou em outro instrumento e migrou para o piano?


Zé Pi - Pra ser sincero, não sei exatamente como foi a escolha... Lembro de estar lá com o Drummond (Marcelo) e a gente começar, eu sentar no piano e sair a música, sabe? Eu lembro mais ou... Não teve uma escolha. Nem isso. Não foi pensado. De repente eu estava no piano tocando. Foi uma coisa que me tomou. Um processo bem assim, ser tomado pela poesia do Piva. Não sei explicar... Acho que tem a ver com o piano estar lá, ser um fato natural. Eu sempre chegava no teatro e tocava piano, mesmo em outras peças... Então... Provavelmente foi isso...


MT - O piano te escolheu então... rs


Zé Pi - É uma interpretação possível.


MT - Falar, além disso, é ficcionalizar algo que não foi exatamente assim. Te agradeço... Foi muito precisa a sua fala!


Zé Pi - Obrigado! Justamente isso. A palavra é "intuição", mas é instintivo também. Não tem o que ser "falado".

Anúncio da temporada de Paranoia.


Finda a entrevista com o grupo do “Oficina”, abaixo o leitor terá acesso as falas que o site Deus Ateu encomendou especialmente para o encerramento desse documento que confessa, em festa, o que foram os dias de criação conjunta entre os artistas do Teatro Oficina e o poeta imortal, Roberto Piva.


MT - Claudio, o século XXI dará razão ao Roberto Piva?


Claudio Willer, poeta, tradutor, ensaísta - Assisti à apresentação de “Paranoia” do Piva por Marcelo Drummond e apreciei muito. As dificuldades de apresentar o livro todo, aquele turbilhão de imagens, foram enfrentadas e bem resolvidas. Espetáculo fiel ao espírito do livro.


Sobre a pergunta, relativa ao título do manifesto de Piva de 1985, intitulado “O século XXI me dará razão”, tenho uma interpretação pessoal. A partir do ano de 2000, ou seja, do início do século XXI, acontece o reconhecimento da importância de Piva, da qualidade de sua poesia. Antes, já era conhecido, mas permanecia à margem. Sua bibliografia crítica ou fortuna crítica era mínima e estava fora de antologias. Em 2000, temos a reedição de “Paranoia” pelo Instituto Moreira Salles; a realização do documentário “Uma outra cidade” de Ugo Giorgetti (com outros poetas amigos), muito bem recebido; a inclusão dele nas três antologias que fizeram o balanço do século XX literário brasileiro – antes, nunca era convidado para antologias. E, em seguida, a partir de 2005, a publicação de suas poesias, a “Obra Reunida”, pela Globo, uma editora de circulação nacional. Subsequentemente, um novo documentário, “Assombração Urbana”, de Valeska Dios; a publicação de suas entrevistas e de inéditos; as apresentações cênicas, como está de Marcelo Drummond e o balé “Paranoia” de Ana Botosso etc.


Para que tenha uma ideia: na página da Biblioteca Roberto Piva, catalogamos 21 teses e dissertações sobre ele, configurando-o como o poeta mais estudado da geração “novíssimos” de São Paulo (além de ser o mais lido). Todas a partir de 2000 – portanto, do século XXI; a mais recente, deste ano.


É claro que o século XXI também confirma tudo o que ele fulminava sobre a sociedade em que vivemos especialmente no tópico central para ele, da preservação do meio ambiente e de nossos povos nativos.


Outras vozes sobre o poeta, um encerramento:


Cléo De Páris, atriz e autora - Eu sempre penso em decorar algo do Roberto Piva, fazer uma leitura, sair por aí falando seus poemas, nas ruas, nos bares, nos velórios. Preciso apenas de um pouco mais de "coragem brutal". De "coragem febril". A luz do abismo ele já acendeu faz tempo!


Layla Loli, poeta, atriz e dramaturga - Piva é uma encruzilhada. É uma metrópole fálica e melada. O “Paranoia” é o jorro de porra morna desse falo vertiginoso, que vem pra dar nome à dor, à deformidade, pra barganhar a irrupção doméstica. “Paranoia” é onde os meninos-que-queriam-ser-Piva caçam poemas pra me comer, e o livro que me fez mastigar vidro. Minha gengiva ficou em carne viva, dava pra tocar a raiz dos dentes com a língua. E com a boca nesse estado de glória, eu chupei a paranoia piviana como um ordenamento mítico de energia masculina, indefesa, arreganhada, extasiada no condensamento de diálogos internos alucinados. A paranoia piviana é a encruzilhada onde eu me perdi e onde eu volto pra me encontrar.


Lia Petrelli , artista transdisciplinar (sobre a primeira apresentação da experiência digital do grupo em Paranoia 2020) - Quase como se escrevesse mais uma vez influenciada pela experiência. Sem enfiar palavras difíceis em buracos indevidos, assim como se mostrou Piva na voz de Marcelo, totalmente dançante. O corpo inteiro que não quer parar, bem como São Paulo nos chama para a vida, esperando que algo de novo vá emergir. Realmente emerge. A sensação de estar dentro da experiência por completo é magnificente. Estar viva para ver grandes sensações emergirem de corpos adormecidos, como eram até então.


Alexandre Gnipper, filósofo, dramaturgista e pesquisador da obra do poeta - A poesia de Roberto Piva é a realização de um trabalho de luto por todos aqueles que se renderam à letargia e à psicose de suas mentes programadas para operar o delírio do real, é o meteoro que varre os céus da inconsciência coletiva em um gozo cósmico que jorra do caldeirão de sua consciência cansada da promessa civilizatória, emanando para o mundo o prana lisérgico de seu peito em chamas. Se trata da macumba poética que evoca em palavra a redenção dos afetos industrializados daqueles que não sabem transver o mundo com seus olhos de xamã... Em suma se trata da invenção da língua do futuro pela qual nos sacrificará frente ao templo distópico da grande simulação.


Referências enviadas pela artista Cecília Luchesi:


01 - Heróis da decadên(s)ia 1987 (Tadeu Jungle, TVDO)

02 - São Paulo, Sinfonia da Metrópole 1929 (Rodolpho Lustig e Adalberto Kemeny,)

03 - São Paulo Sinfonia & Cacofonia, 1994 (Jean Claude Bernardet)

04 - Fluxfilm Anthology, Grupo Fluxus 1962-1978 (vários artistas)

05 - Blowjob, 1964 (Andy Warhol)

06 - O poema em que se usa as imagens de O Bandido da Luz Vermelha chama-se "Poema de Ninar para Mim e Brugel", de Roberto Piva.


Ficha técnica Paranoia Live - Texto: Roberto Piva. Direço e atuação: Marcelo Drummond.

Trilha sonora: Zé Pi. Piano: Chicão. Intervenção caligráfica: Sonia Ushiyama.

Videoarte e artes gráficas: Cecília Lucchesi & Igor Marotti. Abertura: Kaëka Tchëka.

Assessoria de luz: Luana Della Crist & Pedro Felizes. Assessoria de som: Camila Fonseca.

Assessoria de imprensa: Brenda Amaral & Vanessa Fusco.

Realização: Teatro Oficina Uzyna Uzona & Sympla.


@oficinauzynauzona @marcelodrummond @igormarotti @cecilucchesi @ze_pi @claudiowiller @cleodeparis @ilolalyal @liapetrelli @alexandregnipper


Ao leitor, obrigado por ler a nossa entrevista.


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