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,O Saboroso Olhar do Voyeur! - Entrevista com Marcelo Varzea

Por Marcio Tito.

Foto de Joao Fenerich


Neste período de incertezas acerca do convívio e dos modos de habitação da vida, e para manter certo ar de normalidade e algum resquício de "rotina" no cotidiano da vida brasileira e do mundo, tanto para quem vê quanto para quem trabalha com Arte, aqui, por meio dos artistas de Teatro, temos ativado o "modo emergência".

Atrás de alguma mídia capaz de conectar as obras e os espectadores, os artistas reinventaram suas obras, o palco e a bilheteria.


No contexto do Grande Isolamento do ano de 2020, vi Marcelo Varzea ocupar esse lugar da invenção. Foi quem primeiro anunciou uma "Live Cênica" na minha timeline do facebook.com.


Fiquei maravilhado.


Não seria um link para levar o fruidor até algum arquivo previamente capturado.

Não seria seria uma gravação.


Seria uma peça de Teatro. Um "Teatro On-line" e mediado por algum aplicativo. Pensei, "é uma Live Cênica!"


Pensei...


2° Parte.


Arte é o processo humano, histórico, político e social que reorganiza o mundo prático de modo subjetivo, racional e estético.


Logo, se "o mundo prático" não será mais como antes, também não será possível revisá-lo como outrora e, sobretudo, por meio das mesmas estratégias de revisão.


Segundo tal entendimento, para investigarmos melhor as perspectivas surgidas, interessa ao debate o estudo do contemporâneo por meio das iniciativas de outras "Lives Cênicas" e das tantas reflexões que surgem para "perfurar" essa atual impossibilidade entre a arte e o público, bem como entre o próprio arte e a arte.


Precisamos ter em mente que a fórmula do Teatro acompanha a formulação do mundo. Assim, buscando certa genealogia para o formato, parece que a Live Cênica surgiu como um pós-cinema e um pós-teatro!


Seria então dever do artista dissociar a Live desses formatos anteriores?


Ou não?


Surge aqui uma oportunidade para darmos um passo decisivo entre a Arte e as Mídias Sociais. E Queremos?


A humanidade ainda reformulará todas as suas questões habituais, e não sabemos qual área do conhecimento notará primeiro o novo semblante dessa espécie que representa e discute as formas de representar diante de um público desconhecido.


Será mesmo função do artista fabular em todas as direções possíveis para que a arte corra junto ao processo de reconstrução do "mundo subjetivo"?


Será por essa razão que a Revista Antro Positivo (que parece ter inspirado também o Instagram do Grupo Tapa) está botando em jogo uma das mais especiais ações para reformar o conceito da arte nessa pandemia, compartilhando links do teatro contemporâneo mundial e nacional na "internet brasileira"?


Antes de reinventar o Teatro, será preciso reinventar o palco. Antes do palco, o próprio ensaio. O encontro para ensaiar, a tese coletiva que une o grupo de ensaio, o objetivo dessa tese, ou seja, tudo o que orbita e realiza o Teatro em si.


Reinventar os porquês dessa necessidade de conceber metáforas organizadas, para um mundo que se desorganizou do dia para a noite, entre fevereiro e abril, é a ordem do dia.


Daqui, a única saída para o Teatro parece estar num palco-aquário, que apresenta monólogos diante de uma plateia encapsulada em cabines individuais...


E se a Live Cênica surgiu destinada a ser um pós-cinema e um pós-teatro, a Live cênica será pré o quê?


O quê?


Pergunta 1


Questões elaboradas com Guilherme Paranhos Paes


MT - Marcelo, como você traduziria LIVE? Claro, não a palavra, mas como é que o seu Teatro traduziria a LIVE em si. De qual maneira o seu trabalho de dramaturgia e ator ressignifica a LIVE? Ou como você gostaria que pudesse ressignificar? Qual a sua utopia na hora de uma LIVE CÊNICA?


MV - Queridos amigos, fiquei extremamente feliz pelo convite para esse bate-papo, do mesmo tanto que fiquei surpreso pelo conteúdo e direcionamento das perguntas.


Eu não tenho essas respostas. Tudo isso é muito novo. Estamos num novo mundo? Estamos em transição? Sempre. Agora há uma evidência externa - mesmo para quem não gostaria de vê-la.


Sou um artista que tem como profissão o ofício de ator, diretor, cantor e, mais recentemente, ando me investigando na dramaturgia. Eu SOU um artista. Todos os dias eu vejo, leio, bebo, sonho, crio, como, seduzo, morro, renasço e conjecturo a respeito do que me move, de criar espaços pra dar-me voz e que neles caibam ou se aliem outras tantas.


Precisamos criar espaços nessa sociedade tão opressora. Penso, então, que se quero transformar algo, mesmo que a partir de mim, preciso do outro.


CONTATO seria um nome acerto pra ressignificar a live. Pensei em contágio, pois precisamos nos contagiar de poesia, mas achei que, mediante o sofrimento de todas as perdas, soaria uma infâmia.


Pergunta 2


MT - Você compreende o formato da Live como uma mídia, cujo valor está em ter surgido num tempo que impossibilita as atividades presenciais, ou lhe parece que a Live tem alguma potência para seguir em cartaz num mundo livre do vírus?


MV - Muito cedo pra sabermos disso. Duas semanas atrás, com certeza, diria que era apenas uma oportunidade de fazer contato com o público através de uma inquietação pessoal. No meio do caminho, já assistimos às peripécias ególatras e ações de marketing. Hoje, passados quinze dias, penso que de uma maneira ou de outra incorporaremos de alguma forma essa linguagem, assim como os novos protocolos de higiene devem abrandar, mas não desaparecerão totalmente dos nossos dias.


Daqui a quinze dias, com certeza terei outra resposta. Impermanência na veia.


Pergunta 3


MT - Se o Teatro não desapareceu com a chegada do Cinema, e o Cinema não desapareceu com o advento do VHS/DVD, você entende que a Live desaparecerá quando o Teatro ressurgir?


MV - Eu sempre acredito na soma. Não sou um derrotista nem mesmo um alarmista. O teatro jamais morrerá. A live deve morrer, como já morreram SMS, MSN, ICQ e tantos outros. Morreram não, mudaram. Transformação. Transformar a ação. Seu jeito de conjugar verbos.


Pergunta 4


GPP - A efemeridade da live carrega consigo a dimensão poética que está implícita na arte Teatro? Como você vê em jogo estas duas enfermidades?

Elas partem da mesma premissa, são filhos da mesma linhagem.


MV - Mas que heresia com Dionísio essa comparação... A live tem um start de escolha pra entrar na “sala”, e outra, a cada átimo, pra permanecer conectado.


Faz parte do manual de voo desse formato essa impessoalidade segundo a segundo.


Terminar uma transmissão com uma frequência alta de visualizações é uma vitória. O teatro tem o saboroso olhar de voyeur, daquela única viagem, daquela sessão tão somente possível para aqueles reunidos naquela viagem. Dia a dia.


Pergunta 5


GPP - Colocar o Teatro diante de uma câmera pode colonizar o Teatro segundo critérios do cinema? O Teatro agora está submisso ao tradicional jogo da câmera que media o espectador e a encenação desde sempre no cinema, deste embate surge qual fricção?


MV - Acho essa pergunta delirante. Ou vocês estão sendo proféticos. Por ora, acho que é só uma tentativa desesperada de fazer sinal de fumaça. Cada um com as suas armas. Nós artistas, usando poesia aliada à tecnologia. Sem maiores voos ou pretensões.


Pergunta 6


GPP - Qual a relação que a live propõe na hora do suporte, ou seja, do palco mesmo, no direcionamento do olhar? Como você, enquanto diretor, procura fazer ver a imagem diante do espectador?


MV - Eu fiz duas sessões do meu solo Silencio.doc que tem, na sua estrutura original, a divisão de momentos mais oníricos e divagantes alternados com a quebra da quarta parede. Um homem sozinho em casa tenta escrever. Por vezes, ele comenta a história e suas conclusões de filosofia barata com seu leitor/espectador. Esse jogo fica fácil de executar numa live. No monólogo que escrevi pra Lara Córdula, Dolores, uma atriz narra suas desventuras afetivas enquanto as comenta com a plateia. Novamente, a linguagem já estava amarrada desta maneira. Não desenvolvi nada ‘para' a live. Coube.


Acho o teatro filmado uma das piores experiências da vida, portanto, eu não conseguiria encenar uma peça por live.


Coincidentemente, eu tinha dois espetáculos que conversavam direto com essa possibilidade de adequação, e foi maravilhoso.


Eu tenho feito sessões de leitura em faculdades, casas de culturas etc. Como é um texto confessional (Silencio.doc, pois Dolores é uma falsa confissão, enredo criado), as pessoas se identificam e têm facilidade de conectar aquele depoimento. Contadores de histórias em primeira pessoa do singular.

Foto de Mariana Rocha. Em cena no espetáculo SEDE, de Wadji Mouawad. Temporada suspensa pelo distanciamento social.

__________________________________________________________________________________


Marcelo detalhou com perspicácia as suas inquietações e radiografa a atividade cênica, sua e coletiva, neste contexto de nova ordem mundial.


Aos que se importam com isso, o material é mais que saboroso e formula um diagnóstico quase confessional e reveladoramente rarefeito, uma vez que colhido no dia 13 de abril, ou seja, "há tanto tempo atrás".


Marcelo está atento. Parece intuir ou saber que os paradoxos e incertezas que organizam a meditação dos artistas acerca do conteúdo de suas obras, ainda no calor da hora, antes mesmo da crítica alcançá-los, são e serão a melhor fórmula para definir o diálogo entre o presente e o amanhã.


Marcelo Varzea parece comprometido em não sair da linha de tiro, ao que parece, e define bem a sua posição.


Um depoimento assim, logrado nos problemas do agora, pautado pelas armas à disposição, permitirá que artistas de todas as épocas estabeleçam uma valiosa comunicação horizontal conosco e inscrevam suas obras em um campo consequente e fértil, Marcelo.


Consciente e generoso, você nos apresenta este sincero acordo entre o gesto e a reflexão. Por sua generosidade e disponibilidade, muito obrigado!


Ao leitor, suspeite aqui nos nossos comentários e liberte a sua intuição acerca das nossas impressões.


Afinal, o que interessa é esse "saboroso olhar do voyer". E tempos melhores virão!

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