• deusateu

,Em memória de Milton Glaser

Atualizado: Jul 27

Por Fernanda Sanovicz.


Este texto é uma homenagem ao designer que influenciou a minha maneira de viver, pensar e trabalhar. Quero dividir alguns dos incontáveis motivos pelos quais a produção intelectual e cultural de Milton Glaser é tão respeitada e significativa.


Em 1999 descobri um lugar que mudaria a minha vida para sempre. Tudo nele me encantava e, 15 anos depois, lá estava: vivendo em Nova Iorque. Isso foi possível, em parte, pois em 1977 o designer Milton Glaser criou um logo que mudou a imagem de Nova Iorque perante os Estados Unidos e o mundo: I ♥ NY. Glaser amava Nova Iorque, e este logo foi uma das várias maneiras na qual ele celebrou a cidade.


“Após a crise fiscal da cidade em 1975, o Estado de Nova York estava incentivando o turismo com uma grande compra de anúncios e um novo jingle, e pediu à Glaser que propusesse um logotipo. A história diz que ele havia apresentado uma ideia aos executivos e que esta ideia foi aprovada. Porém, um pouco depois, sentado no banco traseiro de um táxi amarelo (conhecido também como o lugar mais nova-iorquino que existe), Glaser teve uma ideia melhor, e rabiscando com um lápis da cor vermelha em um envelope rasgado, surgiu: I ♥ NY. (...)” (BONANOS, 2020 – tradução livre).


Logotipo “I ♥NY”. Projetado por Milton Glaser em 1977.


Para Glaser, a longevidade do emblemático logo não só está ligada à emoção e sentimento genuíno com a cidade de Nova Iorque, mas também com a oportunidade que o conjunto de informações oferece para o cérebro:


“O fato de conter uma palavra: eu; um símbolo: o coração; e uma abreviação: NY; e reuni-los no cérebro nos dá prazer. Quando você dá a alguém a oportunidade de montar um quebra-cabeça e de entender sozinho a mensagem, ela persiste no cérebro. É assim que as coisas permanecem memoráveis. ” (GLASER & Millman, 2016 – transcrição e tradução livre)


Este veio a ser o logo mais reproduzido do globo terrestre, ou – segundo o próprio Glaser – o segundo mais reproduzido se levarmos em conta o crucifixo cristão (GLASER & MILLMAN, 2016 – tradução livre). Memorável também foi a adaptação que Glaser fez do logo após os acontecimentos de 11 de setembro de 2001. Da sua vulnerabilidade e mais sinceros sentimentos, nasceu o pôster “I ♥ NY More Than Ever” (Eu ♥ NY mais do que nunca, em tradução livre). Nesta versão atualizada do logo, percebe-se que o coração vermelho possui uma pequena mancha, que faz referência ao momento sensível da criação do pôster. Na parte inferior do pôster lê-se “Seja generoso, a sua cidade precisa de você. Este pôster não está à venda” (em tradução livre).

Cartaz criado após os acontecimentos de 11 de setembro de 2001. Projeto de Milton Glaser, 2001.

Aplicação da arte no periódico Daily News, edição de 19 de setembro 2001.


A carreira de Glaser começa muito antes do projeto criado para a cidade de Nova Iorque. Em 1954, fundou junto aos seus colegas de Universidade (todos formados pela The Cooper Union for the Advancement of Science and Art), Seymour Chwast (n. 1931), Reynolds Ruffins (n. 1930) e Edward Sorel (n. 1929) o Push Pin Studios, empresa na qual Glaser trabalhou até 1974, quando fundou a Milton Glaser, Inc. O Push Pin Studios inaugurou uma abordagem interdisciplinar no desenvolvimento de arte comercial norte-americana.


Um dos trabalhos mais icônicos realizados por Glaser neste período foi a capa do álbum de Bob Dylan, em 1966. John Berg, diretor de arte da gravadora Columbia Records na época, encomendou um encarte para o LP "Greatest Hits" do cantor.


Glaser, inspirado por um autorretrato do artista Marcel Duchamp (1887 – 1968) feito em 1957, criou o desenho que consiste em uma silhueta preta com cabelos em diversas cores, lembrando um arco-íris emaranhado. A tipografia, propositalmente vernacular, foi criada por Glaser a partir de simples formas geométricas.

Cartaz de Bob Dylan realizado para o LP "Greatest Hits. Projeto de Milton Glaser, 1966.


Esta ilustração teve uma tiragem de quase 6 milhões de cópias, tornou-se um ícone gráfico, e faz parte da coleção permanente do museu Cooper-Hewitt, em Nova Iorque, e do museu Victoria & Albert, em Londres.


Conhecido pela exploração de novas técnicas e motivos gráficos, é difícil classificar Glaser dentro de um único estilo visual. Em 7 décadas de profissão, nunca parou de explorar diferentes técnicas gráficas. Em sua extensa obra é notável a relação direta com diversos períodos da história da arte.


Muitos de seus trabalhos foram premiados. Glaser foi selecionado para o prêmio de realização vitalícia do Museu Nacional de Design Cooper Hewitt (2004) e da Associação Fulbright (2011) e, em 2009, foi o primeiro designer gráfico a receber o prêmio Americano de Medalha Nacional das Artes, pelas mãos do então presidente Barack Obama.


Como se não bastasse ser um dos mais influentes designers de seu tempo – mas talvez, por tê-lo sido –, Glaser nunca se afastou de questões sociais, e nem ficou alheio à importância do ensino. Glaser foi ativista até a sua morte, advogando por meio de seus projetos para diversas causas, criando, por exemplo, cartazes para questões ambientais, peças para a anistia internacional, entre projetos para muitas outras organizações. Um pouco deste trabalho de ativismo pode ser encontrado no livro “Design of Dissent”, projetado em 2005 por Glaser em parceria com o designer Mirko Ilic (n. 1956). O livro apresenta uma curadoria de projetos de design com cunho político e social. Em 2017, a dupla relançou o livro, incluindo projetos criados pós-2005. No prefácio da nova edição a dupla explica:


“Quando criamos "The Design of Dissent" pela primeira vez, presumimos que a condição dos assuntos mundiais não poderia piorar. Nós estávamos errados. As coisas pioraram. O surgimento de líderes autoritários e nacionalistas sugere que a democracia e a liberdade estão sendo colocadas em risco. O comportamento irracional e egocêntrico dos líderes mais poderosos do mundo acionou o medo e a apreensão desmoralizante. Esses impulsos totalitários se espalharam, mas também estimularam uma resposta extraordinária de cidadãos que demonstram sua discordância todos os dias. Embora tenhamos coletado apenas uma fração dessas expressões vigorosas, elas demonstram coletivamente a paixão e a convicção daqueles que reconhecem o que está acontecendo ao redor do mundo. ” (GLASER & ILIC, 2017 – tradução livre).

Capa da versão de 2017 do livro “The Design Of Dissent” de Milton Glaser e Mirko Ilic.


Dupla do livro “The Design Of Dissent” (versão atualizada, de 2017) de Milton Glaser e Mirko Ilic, exemplificando um pouco dos novos trabalhos incluídos nesta versão.


Glaser não faz distinção entre o design e outros aspectos da vida. Por meio de seus projetos exerceu o intercambio entre o design gráfico e ilustração, arquitetura, tipografia, desenho técnico, cidadania, ativismo e educação.


Em entrevista para a CSD Magazine (1999), deixou uma mensagem para futuros designers:


“Eu diria: assuma a responsabilidade pelo que você faz. O design é uma atividade que afeta a consciência humana e a maneira como as pessoas pensam e agem. Isso também afeta o sistema de valores e você deve levar isso a sério. O que eu quero dizer que, você não quer machucar as pessoas. Você não quer ferir as pessoas, não quer deturpar as coisas, não quer mentir para elas. Na minha opinião, os mesmos princípios envolvidos na boa cidadania devem ser aplicados ao bom designer. (ARGENT, 1999 – tradução livre)


Entre os inúmeros livros lançados por Glaser, gostaria de terminar esta homenagem destacando “Art is work” (2000) e “Drawing is thinking” (2008). Pois arte e desenho estavam sempre presentes no pensamento projetual de Glaser.


Arte é trabalho – tradução literal do primeiro titulo, é a frase estampada na entrada do estúdio da Milton Glaser, Inc. A frase traduz o pensamento que permeou toda a sua produção. “Desenhar é pensar” é a tradução literal do segundo titulo, que destaca a importância do desenho na observação e compreensão das coisas. Para Glaser, desenhar sempre foi a sua maneira de se relacionar com o mundo. Embora muitos designers se expressam sem usar o desenho, para Glaser, é o desenho a raiz de tudo: uma atividade intelectual. “Desenhar é uma decisão do cérebro de representar a realidade por qualquer meio que você escolher” (GLASER in ARGENT, 1999 – tradução livre).


“Estou convencido de que é sempre pelo desenho que eu enxergo as coisas com atenção. E o ato de desenhar me faz perceber para o que eu estou olhando. (...) Então, para mim, desenhar sempre foi uma maneira absolutamente primordial de encontrar a realidade. Em me fascino pelo desenho.” (GLASER, 2006 – tradução e transcrição livre).


O dia de sua morte, 26 de junho de 2020, no mesmo dia em que completou 91 anos (quanta simetria!) aconteceu em meio a pandemia mundial do Coronavírus. Um pouco antes, Glaser estava trabalhando em uma imagem que planejava distribuir por Nova Iorque. A ideia consistia em um tratamento gráfico da palavra "juntos”.

Projeto de Milton Glaser sobre a Pandemia do Coronavírus, 2020.


Entendo que este é o pensamento que Milton Glaser deixa para o design, para Nova Iorque, para todos nós. E assim, seguimos.


Ao leitor, obrigado por ler o nosso ensaio.


,Sobre a autora


Fernanda Sanovicz é docente da Universidade Anhembi Morumbi. Possui graduação em design gráfico com ênfase em marketing e comunicação visual pela Escola Superior de Propaganda e Marketing (2011) e graduação em Artes visuais com ênfase em ilustração e quadrinhos pela School Of Visual Arts (2017). Mestranda em Design da Universidade Anhembi Morumbi (2018). Tem experiência nas áreas de design gráfico, ilustração, quadrinhos e artes visuais. Atua principalmente na área de ilustração digital para o mercado editorial, além de organizar encontros de desenho pela cidade de São Paulo.


Instagram: @fesanovicz

Portfolio: fesanovicz.com

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