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,Antologia virtual da poesia brasileira contemporânea

Atualizado: Ago 10


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Prefácio


A poesia contemporânea nasce dos bueiros cheios d’água suja até o todo. Quem escreve sobrevive. Quem escreve à mão sobrevive. Quem pratica o devaneio não só como modo de escape consegue enxergar as gotas minúsculas da sujeira e fazer brotar o algo de bonito: esperança? Não sei.

Quem sou eu para saber?

A poesia é imagem, que vem de uma vez e precisa ser descrita.

Que vem aos poucos e precisa ser trabalhada.

Que vem aos montes e precisa ser es quar te JÁ da.

A poesia se faz sozinha? Fazemos sozinhos? Sozinhes? Sozinhxs?

A invenção das palavras tem muita força nesse século: isso porque as palavras as vezes não dão conta de absolutamente nada que se passa pela nossa mente conturbada, embebida de perguntas não-tão cristalinas – o sentido perdido e reexplorado do século que se degringola na política. Sim, escrever poesia é um ato político – mesmo que você não queira. Mesmo que seja invisível. Quem diz sobre o que é o poema é quem lê, não quem escreve.

Quem escreve só quer o alívio. Quem escreve só quer cessar, calar, curar algo que nasce na criança e toma vida quando aprende a b c d e f g h i j k l m n o p q r s tantas possibilidades...

Sujeito, objeto, predicado – importa?

Que tipo de arte é essa que precisa esburacar os milênios que se passaram para articular de forma clara – e às vezes não – o que queremos dizer? Tenho mais perguntas do que respostas.

Não acredito nas respostas. Acredito nas questões.

Leio para me questionar e escrevo para extraviar.

Faz sentido?

Passeios noturnos em paisagens tropicais berram palavras duras, pontiagudas, espessas e repentinas.

Palavras que não existem, palavras do passado, palavras escritas erradas. Existe errado?

Deve existir – não faríamos poesia se tudo estivesse certo.

Não é assim?

A poesia é uma revolta, vezes vermelha, vezes negra, vezes mulher, vezes travestida, vezes imaginária, vezes encostando por tempo demais no real.

Não sinto que é a fuga do real; sinto que é o encontro do real com o pensar da realidade, que pode ser a porta de saída a tantas perguntas impossíveis de serem respondidas, ou só o disparar técnico da vontade da vida.

Temos lido mais e mais: é para ir contra o imposto. Contra o terrível absurdo dos 280 toques. Somos forçados a articular: O que você está pensando agora? Trazer o pensamento para o concreto, desvincular – ou amarrar com aço – o som que sai da boca e que, antes, passa pelo cérebro e pela mão e pelo pé e pelo tronco e por dentro. Machuca. É o alívio que procuramos, é o incessante sanar e o imprescindível tentar.


Lia Petrelli

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DEMOCRACIAS POPULARES MISÉRIAS MUTANTIS


I


Depois do leilão do resto de nossos dias

Nenhuma alma terá direito a veto


Ao fim não haverá barqueiro que aceite nossas moedas

E nem nomeação que revogue o último suspiro


Nadaremos então no lago de lodo de cifras de um juiz resignado

Quando me afogar alcançarão minhas mãos estatizadas

outorgando o ultimo gesto de liberdade


- Com todas as forças eu imploro!


II


Julgavam os mortos estarem seguros de suas certezas

Jogando com as cartas dos burocratas

Sentindo o cheiro de ácido que vem das instituições

Ouvindo os segredos que governam em silêncio


Então percorri as cifras as leis e os jornais

Lutei com mil dragões autenticados

E depois mais cinco mil pigmeus regimentados

Corriam atrás de mim com suas canetas amarelas de sangue


Era pra ser apenas um voto

Mas o dono da voz se dissolveu na plateia do circo


Locutores bem perfumados nos convenceriam a desejar o delírio coletivo

Exigem que lhes permitam o sono dos acomodados


Enquanto um sangue negro segue a transbordar pelas ruas A janela não serve para nada


III


Vejo a massa da insurreição que marcha em agonia por um alvorecer translúcido.


Formigas operárias,

escravas em meio período


Depois da guilhotina corpos libertos

E a republica seguirá sua marcha sobre as nossa cabeças


Poderemos distinguir então de onde vêm as vozes que simulam a coerência

Disfarçados de luto entenderemos fingir a resignação dos desinformados

Os buracos do véu do tempo escoaram as areias do passado

Quando enfim alcançaremos o presente.


IV


Caindo na mentira de perpetuar

Esquecendo da miséria de ser alguém


As lagrimas de antes

Mesmo derramadas

Insistem em corações


Alexandre Gnipper

1986, São Paulo


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a mar, o mar ao mar


No intervalo das ondas segui o silêncio de suas pegadas na areia.

Te persegui até o abismo de meus olhos cansados do mundo.


Deixei a onda entrar para me afogar nas profundezas do destino


Na paisagem de um dilema reconheci a voz do desconhecido


Me atirei ao mar que estendeste diante de mim

Mas não há sede suficiente para matar meu infinito


Alexandre Gnipper

1986, São Paulo


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Os Belos


Queria antes os feios

que não andam por aí trajando verde e amarelo com seus narizes [empinados

que levam nos olhos a segurança daqueles que lidam com as [circunstâncias


Os belos

passeiam solitários em seus caiaques

E encontram prazer apenas no ócio abrasivo dos dias inúteis


Os feios te põem em alpendres sob as xícaras de chá

E cultuam com sinceridade como apoiará suas mãos na janela


Os feios

que se acuam pela calçada

Mas gritam


Queria antes os feios

orgulhosos e cheios de si

E os queria antes

porque carregam a exclusão em sua própria natureza

Na qual me reconheço


Brysa Delgatto Godoy

1991, São Paulo


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[ DEMÉTRIUS ]

Arlequim desenvolto

Esguio

Colorido.

Mostram-se as formas

os sentidos que não fazem sentido.


Gatos de cor púrpura

e olhos mandaláticos

feito fogos de artifício.


Observo à espreita

minha visão tangente.

A realidade é esotérica

pra toda a gente que brilha

Cintila.


Eu declamo meu corpo etéreo

A visão magnética

Meus pelos elétricos.

Meus pulmões jorram.

A visão é ums bengala

A cama é confortável,

detentora do meu corpo

e de possibilidades impossíveis

[ ah, essa high trip! ]


Os triângulos

Os íons.

As formas me formam.

O meu corpo que não é meu

Que não é, só está.

O êxtase que não é seu.

Isso tudo existe?

Com ou sem cristais derretendo

eu vou me submetendo ao que, de alguma forma, reconheço.

Sou um arlequim esguio.

Conto estórias

e lhe confidencio um sorriso vindo do fogo.

Meu corpo de peso orgásmico

Os dedos feito passeio de formigas.

Isso não é só mais uma high wave.


Carmem Guimarães

1997, São Paulo

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[ RÉU ]


Todo esse peso que sinto sob meu peito me lembra você.


Me sinto como uma pilha.

Sim, uma pilha

Que só funciona graças às suas polaridades

positiva e negativa.


Eu transmito tudo que posso

em velocidades absurdas

enquanto você percorre meu corpo

com uma energia que

hora me faz funcionar

e hora me suga a vitalidade por completo.


Você.

A corrente elétrica

que ilumina , que dá choque,

que ressuscita e também mata.


Minha natureza receptora.

Minha condenação.


Eu poderia culpar alguém,

Mas quem?


Eu poderia culpar os artistas

que dizem que a vida não é nada

Pertoda imensidão do amor de quem se ama.

Mas eu culpo à mim.

Eu me declaro culpada.


Por ver tanta beleza no que você é.

Por não dar o braço a torcer

e lhe pintar em meus quadros

Lhe citar em meus textos

Em me entregar à você

sem ter sido solicitada.


Eu me declaro culpada.


Quem mandou ter olhos tão gentis

A pele morena e quente como essa,

e então, ficar tão perto assim, do meu coração?


Cheguei na porta dele com uma mala pequena...

E a bagagem que tenho agora,

pesa mais que uma tonelada de flores.

Essa culpa ninguém nos tira.

A culpa de já ter amado.

A culpa de carregar uma cicatriz tão grande no peito.


Eu me cortei e assumi a posição de batalha que teu amor

me pedia.

Olhei meu peito aberto e te acolhi.


Me diga, querido, como sumir com isso?

A bagagem que a alma carrega é eterna

e você faz parte da minha.


Eu estou em cárcere

Dentro de mim


Carmem Guimarães

1997, São Paulo


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POEMA SEM CALÇAS


o poema entra na fila

paga os boletos


o poema recebe ordenado

termina o expediente

preenchendo relatórios


o poema com dor de barriga

usa o banheiro

entope o vaso


o poema

sem calças acabou de subir

as escadas


o poema assiste tv

na cozinha

passa a roupa

dos outros


o poema é normal

tem pressão alta

mas toma os remédios


o poema é comum

empurra pra sair

do ônibus


o poema esqueceu o aniversário

da filha


o poema

entrega currículos

na chuva


o poema não é especial

ele existe


o poema

é todo dia


ai do dote

ame o pó


Diego Alves

1981, Londrina


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a harmonia saiu

da atmosfera

como uma nave

em retirada

da oficina do invisível

planetariamente

que a estranheza

ocupou o lugar

a substituição

de uma força

pela outra

torna grosso o afeto

talvez se sangue

e hormônios corressem

como um lago invertido

pelas veias da presença

algo moveria

mas a esperança se desata

como a grande tristeza da grande alegria

a Terra como um flamingo

elegante e místico

sequer esticou o corpo no ar

nos preparamos desde sempre

para sermos a mão do coveiro

o martelo a multiplicar

o ódio na rocha


......................................


quem está pensando a derrota?

ou somos só

cavalos no cio

do ódio?

a morte se aproxima

do inimigo

e você comemora

nossas mãos

se esticam

para o futuro

ou para mais um brinde?

caberá entrelaçá-las

para que a história

se funde

não mais como tragédia

nem como farsa?

enquanto isso me pego

pensando naquela ideia

que parece título de mestrado:

a formação do afeto entre o fim das cartas de amor e o boom dos primeiros e-mails

...


Dyl Pires

1970, São Luís


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A sede


a sede que nasce da umidade do desejo


a sede crescente


da vontade


a sede do sentido imaginado


do quente da sua pele


da certeza do teu cheiro que é cheiro e que ferve


a sede do calor que não vem de fora

mas que preenche dentro


derrama


molha


mas não umedece


a sede trava o calendário


é urgente


vital desidrato sem teu corpo


e me babo de sede por tua falta


cinco dedos de sede


cinco dedos de falta


cinco dedos de espera


aguo todo dia


a sua espera


e não rimo o verso final


porque ele só rima


com seu nome


Flávia Andrade

1981, São Paulo

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500 não tempos


estar sendo, ter sido


500 anos de calendário branco


tempo-colonia numa casa catequizados


incompreensão branca do Ser


da permanência com o absurdo da natureza


um respeito que o colonizador não abarca em sua lógica


negar o domínio do belo natural


aprender da vida que a indigência do ser não se remedia com autoridade

mas se mistura com respeito


a convivência que o colonizador não tem letra para ler


o belo natural que se funde na experiência da vida-permanência


de um Brasil que já existia antes do nome do colonizador


Batiza-lo


Sem autorização


Flávia Andrade

1981, São Paulo

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Ter te conhecido

me trouxe o saber

que antipsicótico tem gosto doce

ter te conhecido

me fez deixar

a linha do 188 ocupada por horas

ter te conhecido

me trouxe um rastro perene de amargura

na caligrafia computadorizada destes versos

ter te conhecido

me trouxe medo de agulhas

medo de fazer análise e perder a inspiração

medo de não morrer

ter te conhecido

fez-me enxergar no real, que me preenche os olhos como a tinta-óleo preenche o quadro, a


completude do estrangeirismo

ter te conhecido

me fez ter o Absurdo como norte e Ideal

ter te conhecido

É o medo de sentir de novo irmandade


por qualquer outra coisa como gente.


Giuliano Lagonegro

1998, São Paulo

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você levou suas roupas

e metade do meu vocabulário

certos universos lexicais

certos espaços semânticos

só serão permeáveis de novo

com a invenção da máquina do tempo

eu queria

te encontrar em um acaso incitado

eu queria

te espreitar

no decorrer de algumas estações

de metrô

assim o choque térmico

ao descer do vagão

seria aurático

um choque térmico semântico

da hipotermia das sílabas

e do estado febril da metáfora

eu queria

sentir o vão do pensar assêmico

e diluir em aguarrás

o tempo perdido


Giuliano Lagonegro

1998, São Paulo


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Abandono


Sem sequer ser lembrada

Foi perdida nas leis do asfalto

Presa num corpo que não é meu

Queria era jogar tudo pro alto


Mulher de Pau Vista como tal

Consciente de que o mau

Não é seu pau


Revista como marginal

Presa no seu olhar visceral

E só na sua visão

É anormal


Encarcerada nas lembranças

De não ser tratada como igual

Teus vestidos e bonecas

Te fazem mulher igual


Lutar por respeito

E conseguir seu peito

Pra lembrar você

Que ainda tenho direitos


Chupar pau por comida

É isso que acha que é minha vida?

E meu andar na avenida

É só isso que faço na vida?


O objeto do teu desejo

Foi assim que consegui meu despejo

Sem família

Perdi meu anseio


A desgraçada

Que só queria ser amada

Como príncipe estava desabituada

Mas sendo princesa, isso sim te alegrava.

Guto Souza

1995, São Paulo


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Para uma amiga


Despetalei os meus sonhos.

Balbuciei ao seu lado, cansado e confuso.

Abandonei minhas tentativas de sono, escrevi pensando em morrer.

Resplandecente e perdida, esperando qualquer rajada ligeira, sorrindo como se repousasse no céu. Lá estava você...

Emprestando qualquer movimento, orgulhosamente enfaixado, tentei enganar os meus tiques.

O álcool, santificado, amigo dos tímidos, abraçou-nos como um abandono.

O encontro de duas solidões perfeitas, o vestido alegre e o dia frio.

Os lábios congelados, se se tocassem, quebrariam o encanto platônico da vida,

enquanto o abraço me parecia um pedaço de eternidade.

Sussurrar e surrar minha saudade, abandonando minhas palavras no seu ouvido,

feriram sua sensibilidade.

Roubei o coração de uma moça alegre, porém, por medo ou remorso, o devolvi por inteiro.


Israel Alves

1993, São Paulo


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O homem do saco


eu conheci o homem do saco

ele não roubava crianças

como eles diziam pra gente

o homem do saco juntava latinhas

pra poder alimentar os seus filhos


Israel Alves

1993, São Paulo

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EPÍLOGO


Me revesti de mãezinha solitária

cadelinha que perdeu sua cria

arrumei meus cabelos pro alto

cortei as unhas

gritei pela criança todas as noites e

ninguém respondeu de volta

brinquei de casinha lavei banheiro louça as roupas desbotadas

dei nome fiz promessa pedi perdão a deuses que nunca foram meus

me chamaram maria dos óvulos de ouro

me fizeram eva sem costela

eu gritei pelo marido cachorrinho todas as noites e

ninguém respondeu de volta

tentei cachaça corda cocaína corte fundo

uns mais outros menos

dei carinho fiz comida atravessei a cidade

fui casa colo coração

devoção pura e mordaz

fui mãe puta

mãe arrependida

mãe solitária

mãe tristinha:

mãe de quem?

meu nome é meu não é mãe

meu nome é deus não é meu

meu nome é mãe não é deus

meu nome é puta não é mãe


você gosta mais de mim sem a carapuça de mãezinha?

fico mais bonita?

mais feliz?

mais viva?

você gosta mais de mim com ou sem camisinha?

de tanto ser mãe arrependida solitária e tristinha

gritei pelo pai todas as noites

ninguém respondeu de volta

pai de quem

se não tem criança?

- é difícil ser uma pessoa coerente

me vestiram de maria madalena

costuraram a cruz na raiz da minha nuca e

aplaudiram meu desespero

talentosa bonita inteligente mãe de quem?

me disseram o que eu queria

o que eu sabia

o que eu podia

[e eu] cadelinha que perdeu sua cria

to prenha até agora esperando a barriga crescer

os líquidos escorrerem

a bosta cair do meio das minhas pernas e

feder feder e feder

meu nome é meu não é deus

meu ventre é um relicário inóspito

melhor assim

morreu antes de viver.


Layla Loli

1998, São Paulo

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FESTA


Damas da noite transcendentais

que noite fria

que riqueza de detalhes

o batom vermelho folheando os lábios das meninas que queremos beijar

nossos pés gelados tantos pés somos tantos corpos

suando frio pontas de cigarros pontas de dedos inquietos procurando

buracos úmidos quentes macios

da varanda me masturbo assistindo você fumar me flagro cercada por

rapazes tagarelas dentro de seus corpos fortes altos sempre maiores que eu

meu tesão sapateia como louco

quero chupar cada um dos dedos de cada uma das meninas os homens

se inclinam pra falar comigo acendem meu cigarro oferecem casacos xexelentos

sinto cheiro de queimado

tarde da noite na cozinha comeram o cu

daquela menina ela gozou tanto mas tanto mas tanto

saiu de lá sorrindo esbarrou em mim brilhando e correu correu e correu

tropeçou nos próprios dentes que riqueza de detalhes

um chiado estridente água e

avanço sobre o silêncio estarrecido dos homens enxergo

sobre o silêncio estarrecido dos homens:

nin.fe.ta

também aborta?


Layla Loli

1998, São Paulo


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São Paulo, não. Sim, São Paulo.


Não venha para São Paulo Todos aqui se vestem de escuro - se camuflam no cinza infinito e todos querem parecer felizes

Não venha para São Paulo

ninguém aqui valoriza o seu trabalho e todos os seus dias serão engolidos pela miséria da sobrevivência

Mas venha sim para São Paulo

Há tanta gente de tanto (todo) lugar!

Venha para São Paulo: todos os dias você pode escolher entre minhões de lugares para se entorpecer.

Venha para São Paulo!

Os Sescs todos são coloridos e a água é de graça!

Venha cá! Para São Paulo!

O tipo de amor que gera é infinito e você não terá problema em beijar alguém!

Não venha mais para São Paulo. Os amores todos estão corrompidos e na segunda semana o contato vai ser infinito - corre até risco de perseguição.

Mas, ora, venha para São Paulo - o centro está cheio de novas línguas e todas as tatuagens carregam aspas!

Quer saber! Não venha para São Paulo! O dia todo chove e a enchente engole nossos pés.

Venha sim para São Paulo

o metrô e os trens chegam em todos os condomínios com aluguel de 2.000 reais

Vem, vem, vem, vem, vem para São Paulo! As viagens de carro nem demoram tanto assim, na verdade é o trânsito que mata - mas dá pra apreciar a paisagem.

Não vem para São Paulo, não (esqueci de falar) que é o estresse que tá deixando todo mundo doente.

NÃO VEM PARA SÃO PAULO! Aqui o Corona Vírus já chegou e as Crianças brincam de sexo muito cedo.


Lia Petrelli

1996, São Paulo

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recado escrito à batom no espelho do closet


Quando for passar um lápis no olho, meditar sobre:


Uma vaidade que não venha dar às caras pelo apagamento dos defeitos


Que venha da exposição corajosa do que se é e do que não se sabe, em


contraposição à afirmação insegura e vacilante do que se gostaria de ser

Que não queira ser de superfícies, expressão inerte de um lago calmo, sem

linhas expressivas. Que seja da matéria impávida das ondas que se acomodam

ferozes no mar aberto – que seja para exaltar a força de vida do que é natural e

nunca para enjaular os traços livres em maquetes tediosas de um engenheiro

burguês

Que do frescor da manhã se adorne e seja uma vaidade desperta pela promessa das madrugadas

Que não faça elogios à infalibilidade, mas ao dobrar de joelhos que nos faz

humanos

E lembrar: A mulher fatal é letal para ela mesma


Luiza Gomes

1990, Rio de Janeiro

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Libre, tu


Somente pela liberdade somos seguros

A liberdade é a lei que nos afirma

e atesta a coerência de nossos princípios

Diante de abismos

No vazio, a garantia dos dias vividos

Nus, vividos

E à sós

Fácil aço e pluma

Plasmam o existente invisível da tua pele-membrana

A natureza da alma humana

E o caos ordenado do carbono

- que te reveste

E tudo está no imponderável de Deus


Luiza Gomes

1990, Rio de Janeiro


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quantas vezes é posível nascer numa mesma vida?

quantas vezes posso morrer sem que não me sobrem mais pedaços?

quantos remendos são possíveis de serem feitos num mesmo corpo?

qual peça é mais facilmente debilitada?

qual a mais essencial?

a manutenção, é facil?

e o custo benefício?

tem que perguntar né, a crise ta foda

ta todo mundo sendo afetado

todo mundo ta meio mal


Maria Sucar

2000, Rio Grande do Norte

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nao lembro mais como chorar

questiono a tal da "memoria muscular"

existe algum musculo responsavel pelo chorar?

questiono tambem minha vulnerabilidade

como doi escrever isso

questiono minha sanidade

como é gostoso estar escrevendo

ou melhor

como é gostoso sofrer e escrever sobre

como é gostoso sofrer

como é gostoso

gozei


Maria Sucar

2000, Rio Grande do Norte

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Depois de sonhar

não adianta

é um casal sem futuro

ela gosta de foder

ele gosta de beber

de conversar

de política

de escrever...

o lado ruim da história

é que ela gosta de foder com ele

e é assim que as palavras

adquirem acento e outras conotações

e podemos criar inúmeros enredos

para filmes, novelas e dramalhões



assim a alquimia se faz

a fantasia se desfaz e se refaz

fênix as palavras correm soltas

enquanto as pessoas seguem presas

entre belezas, delícias e sentimentos

onde pequenas nuances

provocam reações bruscas

e o prazer das linhas sujas

adquirem outras mediações



se o casal não tem futuro

a poesia abre as janelas para o infinito

e o ar da noite penetra no pequeno quarto



ah… o ar da noite…

o ar da noite é diferente…

mais suave, mais sedutor,

se vem unir-se uma música qualquer, aí então…

uma música qualquer não.

é preciso que seja aquela música!

aquela!

aquela que nunca mais tocou.



e uma lua no céu

para ludibriar o poeta

aquela lua que, na realidade, não está no céu

a lua é apenas citada, é preciso

pois a noite é de chuva

o quarto está vazio

o prazer está aqui

nas palavras que correm soltas

entre olhos que nunca vi

talvez olhos que nunca verei

mas cujos corações batem

para fazer correr o sangue vermelho

quente, vivo

salgado como as águas do mar

sintonizando olhares distantes


é

existem muitos mistérios

prontos para serem desvelados

basta ousar.



Miguel Vicentim

1962, Araras


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DA LIBERDADE


desejo

água e molhar a boca encontros com a lua satélites que a gente trepe sempre com mais vontade

espaço

muitos planetas olhar de dentro do foguete quando estou só ver estrelas inteiras brincando no quintal deleite

universo todo em partículas explode independente de mim o gosto de gozar olhando a sua cara

abismo

os filhos e todas as mães alimentados putas repletas fartas de seus donos e donas

do nariz do pó do mundo da alma da boceta do sangue de seus vira-latas passos são dados numa zona dentro

fora

da caixa do muro do soco de si do fuxico da cisma da ordem da neurose dos lobos


Thamíris Dias Gomes

1987, Bragança Paulista


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Posfácio


A poesia enquanto verso durante o incêndio - posfácio acerca do calibre desta Antologia...


O verso, quase sempre, interrompe o tempo comum e torna coletivo o tempo do sujeito. Por recontar o mundo, numa incessante luta para elaborar um objeto que dê conta da fissura racional da alma, a poesia funciona como refúgio e, ao mesmo tempo, ímpeto.


A poesia é um sujeito que medita ao centro de um incêndio sem saída, cujo único hidratante possível está em repetir, até o fim, constantes e complexas elaborações sobre as chamas e sobre o cozimento de si (enquanto a enunciação estética do mundo ao seu redor combate a fuligem do fogo indomável).


Não seria leviano dizer também que o transe criativo, que um poeta experimenta na hora do verso, é talvez, em sua forma mais aguda, a solidão positiva que faz com que a possibilidade do suicídio venham parecer uma emergência infantil, pois a imobilidade que as grandes emoções nos causam, na hora da arte, encontra sólida oposição na euforia que se ergue quando nos tornamos realizadores e senhores dos objetos artísticos que habitam o mundo nosso e do outro.


Escrever, quase sempre, é remédio.


A eficiência que buscamos em cada verso, por exigir sensibilidade, arquitetura e tempo, é, certamente, um dos maiores e mais eficazes ataques contra a desordem que a tristeza impõe contra a razão (quando perdemos o controle, porque a dor se impõe ao trâmite do cotidiano).


Nessa hora, a agilidade formal do verso integra não apenas o sentimento que busca se tornar exato, por meio da organização material do poema, mas também a expiação que está em cada possível "acidente" simbólico (implícito nas infinitas metáforas que podem surgir na hora do fluxo criativo, organizado e balizado pela mecânica material da poesia).


Ou seja, a busca arquitetônica do verso é também uma receita capaz de estabilizar o surto, a melancolia e a depressão (metaforicamente falando e sem qualquer intimidade com a dimensão clínica desses casos).


São justamente esses acidentes que nos fazem alcançar o êxtase da paz de nos sentirmos significados finalmente, e, ao mesmo tempo, lançados no desconhecido que não nos afeta mais, e sim, inaugura em nós outras e novas formas de sentirmos as variáveis desta vida incontrolável.


Sintetizar o sentimento é sofrer da ventura de, quem sabe, sentir além e, neste fluxo, organizar as influências que até então (des)significavam o sentido estético e sensível da vida.


Escrever poesia é a justa demanda da busca, e não só. É realizar também o gesto de, finalmente, reconhecer-se através e por meio da experiência e do experimento consigo.


Em poema publicado na obra Arô, do poeta e jornalista Guto Souza, há uma sequência de versos meus, em diálogo com os dele, que bem definem o que é poeta, e jamais o que seria "poesia": nem mesmo um apaixonado/ poderia escrever poesia / caso não soubesse que o verso é / sempre mais complexo que uma cirurgia cardíaca.


Esta determinação técnica, que é o vetor obsessivo das obras que se fazem grandes obras, faz ebulir no sujeito uma série de sentimentos de existência que, sobretudo, o farão sofrer com maior soberania por meio de dores mais bem elaboradas e definidas, portanto, "próprias", capazes de responder somente aos seus próprios mecanismos de realização da própria personalidade.


Uma Antologia de Poesia que busca não a semelhança geracional, mas certa intuição estética no embate contra o tempo que todos partilham (e que somente os artistas revisam) é, antes de um projeto de Beleza, um modo de perceber qual face diz o nome desta espécie e através de qual voz é que se diz este nome.


As dores e remédios aqui lançados para fazerem sol na zona escura do presente, numa curadoria quase desesperada por imprimir o RG coletivo deste tempo, buscam identificar qual a nossa identidade compartilhada e qual será a nossa intuição mais doída.


O século que se inicia, irremediavelmente maculado por tantas perguntas irrespondíveis e por tantos pactos que a Idade Média não deixará que o presente desfaça, é o único suporte que interessa ao percurso destas vozes que se propagam no ar...


Marcio Tito

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