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,A Dança no Espaço Digital – Com Marília Pessini e Alexandre Américo

Por Marcio Tito.

Retrato da artista postado em sua conta no Instagram


Marília Pessini, artista da dança, tem trazido algumas “apresentações” em sua conta no Instagram e é disso que falaremos. Abaixo, a minha breve conversa com Marília e, a seguir, o contundente ensaio do artista Alexandre Carvalho.


MT – “O processo artístico que envolve a dança tem como ferramenta de trabalho o próprio corpo”, isso foi você quem disse na nossa pré-entrevista. Historiograficamente, essa é uma leitura bastante contemporânea (a ideia que o corpo no espaço, mesmo na ausência da música em si, pode compor uma “dança”). Depois você disse que o corpo “é um reflexo emocional”. Vamos partir desses lugares? Uma “dança digital”, em uma rede social... Sabe, eu adoro quando você, para dançar no digital, propõe uma câmera estática, mas ainda assim capaz de definir o olhar do espectador. Quero dizer, ainda que você nos “obrigue” a ver pelo ângulo imposto, por ser um ângulo pensado, acho que isso ultrapassa a obrigação e se torna uma proposta de pacto. O espectador precisa topar estar no lugar da câmera.


Marília Pessini – Você traduz melhor que eu rs. É gostoso ler o que eu não consigo falar com voz.


MT – A sua produção no espaço digital se confunde um pouco com o cotidiano, e o cotidiano é marcado por fugir ao extraordinário, pois é o cotidiano quem organiza o mundo prático, seja em um feed de rede social ou não. Já a sua dança ocupa um lugar esquisito de ser “banal” porque digital e de ser extraordinária porque dança. Me faço “claro”? rs


Marília Pessini – A obra de arte como “uma coisa extraordinária” e que propõe outra dimensão aos sentidos... Acho que as minhas produções no virtual tem a função de trazer o cotidiano da dança. A dança tem um lugar social fantasioso e quase mágico, porque pouco se fala do processo e sobre como isso se dá no dia-a-dia. O trabalho cotidiano que se impõe, não só corporal, mas também no estudo das propostas, sabe? Eu gosto de trazer uma coisa do simples, do “ordinário”, para um lugar de “deslumbramento”. Então, acho que vem disso a partilha nas redes. Compartilhar o dia-a-dia da dança. Eu acho extraordinário que se compartilhe o cotidiano da dança. Não só o “glamour” da obra pronta. Tem coisas interessantes no processo, no estudo, no caminho que aquilo tomou para ser feito. As pessoas criaram intimidade com o meu trabalho. Na medida em que lancei isso ao digital, as pessoas passaram a me “reconhecer como profissional”. Embora essa seja a minha realidade desde os seis anos, compartilhar o processo constrói uma relação íntima e eu gosto disso. Não quero criar uma imagem de “obra de arte”. Eu quero trazer uma criação que é conjunta. As trocas tem sido interessantes. E quando eu penso no meu caminho, há muitas pessoas que fazem parte disso. Isso só se dá quando eu abro para que coisas sejam ditas. Sugestões, ideias, enfim, é aberta essa resposta.


MT – Encantadora a forma como você organiza o processo e a apresentação. E a apresentação como parte indissociável do processo. De fato é uma elaboração muito unificada e bonita, como se o processo de construção pudesse ser também a curva de aprendizado para quando ficarmos diante do “produto” dançado. Posso ter tido uma apreciação um pouco subjetiva, mas gostei do que entendi rs. Dentro disso fica a nítida impressão de que você, quando cria, está muito conectada àquele que verá o trabalho. Você enxerga a câmera como um veículo de transmutação do objeto, como um trampolim para as qualidades inerentes, ou a câmera serve apenas para entregar a dança apenas? Nesse caso a câmera posta de forma menos participativa. Como no caso do processo e do resultado, a dança e a captação da dança são uma coisa que, “sintonizadas”, resultam em uma terceira produção?


Marília Pessini – Tem dois momentos. Eu acho que tem uma coisa que independe do público. Como se, na minha viagem com meu corpo, na minha experiência, a câmera fosse alguém que me espia, portanto, nessa hora ela não participa. No segundo momento eu penso mesmo em formato de vídeo-dança. Nessa hora procuro induzir um ponto de vista que me parece interessante. Gosto de colocar o público em uma perspectiva impossível para o espaço presencial, por exemplo. Assim, pensando em uma proposta de vídeo, pensada mesmo para ser gravada num momento experimental, aí busco interagir com a lente. Para que o ponto de vista seja uma forma de dialogar com o público! Um não exclui o outro. São dois momentos.


MT – A sua definição do lugar narrativo da lente e do corpo me diz que você dança compondo junto aos espaços possíveis, e esse espaço criador funciona como narrador conjunto. É muito interessante a forma como você arregimenta as coisas para que tudo dance junto contigo a sua dança. O processo da dança no feed se acumulou até configurar uma obra e, de modo unitário, cada vídeo não apresenta a proposta em si, mas no coletivo, o que se dá parece ter um corpo resolvido e existe algo que se impõe como uma forma, então, como um valor nessa hora, como uma linguagem definida. Vamos arriscar um batismo? Que nome (apressado) você daria?


Marília Pessini – Pensei no título e me veio uma palavra que você repetiu muito nas nossas conversas. Ensaio. O ensaio, antes, me parecia uma coisa “escolar”, quase sempre diante de um professor. Mas aqui no site, quando o texto aparece chamado de “ensaio”, me parece que há um lugar de impressões e intuições que tem a ver com um lugar de experimentação, e isso dialoga com o meu trabalho. “Processo”, “Íntimo”, “Caminho”. Então acho um título possível para as minhas recentes produções, sobretudo na quarentena, é: Ensaio.

A artista enquadra os pés e dança para a lente


MT – Acho que o seu trabalho tem tudo a ver com a ideia de ensaio. Mas achei fácil, confortável. Vamos arriscar um subtítulo? rs


Marília Pessini – Você vai achar fácil rs. Mas acho que não sou contra o fácil e o simples, faz parte da minha pegada! Ensaio – intuições corporais. É o título e subtítulo que eu daria.


MT – Achei sob medida! O seu trabalho é muito bem resolvido e, ao mesmo tempo, muito conectado com várias questões. Me diga algo que você imagina para o futuro desse trabalho. Ou se você o enxerga apenas no presente. Mais uma intuição junto.


Marília Pessini – Mais uma vez responderei sem pretensão. É tudo muito recente. Fiquei muito tempo estudando estilos, outras pessoas e isso é pra sempre. Sozinha eu não alcanço certas experiências. Mas sinto que tenho trabalhado para construir a identidade da Marília que dança, usando o Instragram como cartão de visitas. Ultimamente me dei conta de que é possível ser autêntica e fiel àquilo que eu quero de fato oferecer.


Então se há um passo a passo diário na mutação da arte diante do meu projeto já apresentado, trago a rotina da minha relação com o corpo, então a escuta do corpo e a linguagem corporal de cada um surge como a partilha de todos os corpos. Isso tem feito surgir parcerias com pessoas que enxergam o meu trabalho como verdade e querem acessar “essa verdade”. Sem uma adequação ao comercial. O meu desejo é compartilhar o processo, como uma descoberta autoral. É um trabalho que faz existir aqui uma linguagem minha que pode ser transposta para qualquer trabalho que vier. Me preocupo e cumpro o meu papel de levar o meu material para outras dimensões. Não há um corpo moldável, embora ele exista sim, mas fica mais a ideia de naturalmente levar a minha criação autoral para os demais trabalhos, entende?


Quero me aprofundar na abordagem teórica que cerca a minha experiência. Estou estudando psicologia da dança, relação com o corpo e quero entender a separação que naturalmente... quer dizer, que “normalmente” se dá entre corpo e mente. A minha intenção é também mostrar como eu vivo isso e trazer para as pessoas a definição de que “todo corpo é um corpo”, e que esse corpo único é o habitat de um ser que pode ser coerente e autêntico na hora de expressar qualquer coisa.


MT – Isso tem tudo a ver com a arte no Século XXI. O século XXI e a sua busca pelo corpo, pelo corpo imigrante, racializado, ancestral, cis ou não cis, enfim, o corpo está em pleno debate. E a sua dança vem com tudo nessa pauta. Bom, o seu trabalho antecede a pandemia. Como foi esse trânsito do seu trabalho por dentro dessa hora tão escura? Você se adequou? O isolamento mudou a sua linguagem?


Marília Pessini – O corpo que dança não é uma arte solitária. Não é como um quadro ou uma escultura que depende apenas do escultor. Eu valorizo e entendo as parcerias. Então os projetos conjuntos, mesmo que sejam confluindo cinema, música e a minha dança, servem para deixar clara a minha verdade também, para que eu sempre atue com essa visão. Sendo coerente na relação de integralidade de um corpo que se move no mundo.


Com relação a quarentena, esse período de isolamento me permitiu não procurar em outras linguagens e, então, tive que olhar para o meu corpo, para o meu espaço, para como eu me sinto.


Eu não estava criando para as pessoas e na pré-pandemia eu vinha procurando o meu lugar nas outras linguagens. Assim, distanciada dos outros lugares, praticamente eu precisei exigir de mim olhar para o que eu já tinha. E parei de achar que devo aperfeiçoar constantemente uma determinada técnica, assim, desabrochei uma autenticidade natural que venho conquistando ainda.


Antes os outros percebiam potencialidades na minha movimentação e na minha expressão, mas essa descoberta e clareza da minha proposta, em questão de corpo e movimento, foi essencial esse período de isolamento.


No começo da quarentena eu entrei em um ritmo frenético porque sentia medo de perder as minhas aulas. Chegava às 8 da manhã e saía às 22h! Treino, funcional, alongamento, estava autoritária com o meu corpo. Com medo de perdê-lo. No segundo momento, percebi que estava pensando fora, pensando no outro, no pós-pandemia. Então eu, com meus vídeos, diante deles, fui percebendo que aquilo não era uma proposta para ninguém. Nem havia neles um nível elevado de dificuldade técnica. Então nesse recorte, tudo tem a ver com a minha intimidade comigo, e com uma movimentação naturalmente minha, sem professores, sem outras pessoas.


Um trabalho comigo. Tem dias que não consigo me mover, que quero deitar e chorar, mas tem dias que o meu corpo responde e é lindo! Então, esses sentimentos, de novo, me fizeram descobrir que tudo ultrapassa emoção, alongamento..., e é só um lugar para colocar no mundo, sem racionalizar, as coisas que eu estou com necessidade de transbordar. E também isso não significa levar ao Instagram. Se há uma angústia, eu danço. Sozinha. É uma forma para aliviar as angústias que não traduzo.


A quarentena foi decisiva nesse “assumir” da minha essência. Alcancei uma autenticidade que eu não tinha. Venci a dúvida acerca de ter ou não ter algo para dizer. Fico extremamente contente de isso alcançar pessoas que querem ouvir essa descoberta. Transformada, com certeza, refletida, mas de toda forma, sei que algo chega. Arte é sobre isso.


MT – Obrigado por me permitir inventar isso contigo. O seu trabalho tem uma organização teórica muito proeminente e sólida. Te instigar a colocar isso em palavras foi muito bom. Você disse coisas que realizam de fato a sua disposição ao trabalho. Estava tudo inventado, mas sem batismo, e agora seu batizado foi coerente. Acho que aconteceu aqui um passo adiante. Obrigado, parabéns!


Marília Pessini – Te agradeço... Tem um lugar muito importante para mim, em pensar a arte, e o meu fazer na arte.


Abaixo, breve ensaio de Alexandre Américo sobre o espaço virtual e a dança.

Corpo-Delei: experiência remota em dança contemporânea


Corpo-delei em dança. Um corpo que acontece no agora projetando-se ao futuro, para além do espaço-tempo, no desejo de ser captado, de ser efetivo no ato, de ser afetivo em si. Essa experiência remota é mesmo possível ou é nossa essa alucinação-dança?


Ao processarmos imagens internas, expressamo-nos enquanto imagem externa ao mundo. Produzimos, assim, um corpo-imagem que, por sua vez, é mídia de si em constante negociação com o meio. Todavia atravessamos um momento que condiciona as artes da cena a um campo restrito e aparentemente incompleto. Vivemos o dilema da incompletude, esta é uma crise também artística, sobretudo das artes da presença.


É imperativo que o corpo-imagem em dança, não seja simulacro oco, mas que opere em uma camada provocativa capaz de conduzir uma experiência genuína e singular. Contudo não podemos ser pretensiosos no tocante a garantia da consumação da experiência em dança que propomos, a exemplo da atividade de dança contemplativa que realizamos no Festival Camomila na edição remota de 2020, envolvendo dança, música e meditação para além do corpo biológico em uma prática de sensibilização e movimento. De fato, a proposta é uma aposta incubada no tempo, esperando as circunstâncias ideais para sua carnificação.


O corpo ao se perceber já não existe, o corpo que dança só é percebido, conscientemente, milésimos de segundo após a ação propriamente dita. Ou seja, há um delei entre a consciência e o ato existido.


Não conseguimos assegurar a efetividade do ato dançado, pois nos faltam as presenças. Paradoxalmente, possuímos a capacidade de sentir e transcender as interfaces possíveis. Assim, decidimos abandonar a ação no passado e aguardar o futuro se tornar presente para confiarmos na sensação da dança tornada pública e posta no mundo, mesmo que, em largo delei. Pois, por ora, somos todos corpos-delei aguardando as condições propícias à presença.


Delay / Delei


O que é Delay:


Delay significa atraso e representa a diferença de tempo entre o envio e o recebimento de um sinal ou informação em sistemas de comunicação, por exemplo.


Esta palavra oriunda da língua inglesa e agregada ao português costuma ser empregada para se referir aos retardos de sinais, principalmente no atraso de som nas transmissões via satélite.


Outros sinais transmitidos via satélite e que formam um circuito elétrico também podem sofrer com diferentes tempos de delay, como as imagens exibidas nos televisores ou as comunicações feitas através de chamadas telefônicas, por exemplo.

fonte: significados.com.br


Bibliografia consultada:

ANDRIEU, Bernard; NÓBREGA, Terezinha Petrucia. A Emersiologia do Corpo Vivo na Dança Contemporânea. HOLOS: v. 3, ano 32, 2016.

BITTENCOURT, Adriana. Imagens Como Acontecimentos: dispositivos do corpo,

dispositivos da dança. Salvador: EDUFBA, 2012.

DAMÁSIO, António. A Estranha Ordem das Coisas: as origens biológicas dos

sentimentos e da cultura. São Paulo: Companhia das Letras, 2018.

DAMÁSIO, António. E o Cérebro Criou o Homem. São Paulo: Companhia das Letras,

2011.

DEWEY, John. Arte Como Experiência. São Paulo: Martins Fontes- selo Martins, 2010.

GIL, José. Movimento total. São Paulo: Iluminuras, 2004.

GREINER, Christine; KATZ, Helena. O Corpo: pistas para estudos indisciplinares. São

Paulo: Annablume, 2005.

UNO, Kuniichi. Hijikata Tatsumi: pensar um corpo esgotado. São Paulo: n-1 edições,

2018.


Agradecimento especial: Maira Escavodelli e Laboratório Fantasma.


Ao leitor, obrigado por ler a nossa entrevista e ensaio.


,Sobre os autores:


Marília Pessini começou seus estudos em dança aos seis anos de idade no balé clássico pela Fundação Arte e Cultura de Ilhabela, onde continuou por 10 anos. Conheceu a dança contemporânea e as artes circenses também em Ilhabela no Espaço Cultural Pés no Chão e Circo Burlesco. Estagiou na Escola Nacional de Circo, Rio de Janeiro, e em Cadenet, França, na Cirkmosphére. Seguiu com os estudos de forma independente em São Paulo, principalmente. Em 2019 começou a estudar também o Jazz dance e danças urbanas no Estúdio Anacã, em São Paulo. Em paralelo segue se aprofundando em estudos pessoais de movimentação intuitiva e improvisação. Recentemente iniciou estudo teórico em Psicologia da Dança.

@mariliapessini


Alexandre Américo Artista da Dança e Pesquisador com Licenciatura em Dança e Mestrado pelo PPGARC, ambas pela UFRN. Hoje é atuante na área da investigação em Arte Contemporânea, com enfoque em estruturas performativas e seus desdobramentos dramatúrgicos. Aluno Especial de Doutorado em Estudos da Mídia,UFRN e Diretor Artístico da Cia Gira Dança (Natal-RN).

@alexandreamericooficial / @festivalcamomila

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